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Daniel Kraft, médico de Stanford: "Não podemos cair na armadilha de que a tecnologia é salvadora da saúde" (Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 26 de agosto de 2026 às 15h17.
Última atualização em 26 de agosto de 2026 às 16h03.
O que é a medicina do futuro? Para Daniel Kraft, médico de Stanford e fundador da NextMed Health, o conceito em si já parte de um lugar errado. O futuro, segundo ele, não é uma promessa distante: já chegou, só está distribuído de forma desigual.
É esse o fio que conduz toda a conversa que uma das maiores autoridades em inovação na saúde teve com a EXAME antes de desembarcar no Brasil para o Afya Summit 2026, evento no dia 29 de agosto para discutir o papel da tecnologia e humanização na prática médica. .
E é também a tese que ele defende mundo afora: a inteligência artificial não chegou para substituir o médico, ela existe para "humanizar sua prática e devolver presença no cuidado com o paciente".
"A maior oportunidade de todas essas novas ferramentas e tecnologias é liberar o lado humano da saúde", diz Kraft, em entrevista à EXAME.
Em muitos casos, lembra ele, simplesmente não existe médico disponível, seja às duas da manhã, seja numa comunidade remota da Amazônia onde o acesso é deficiente. Ali, a IA não compete com ninguém por atenção, mas sim "preenche um vazio".
Para o especialista, o problema não é o excesso de tecnologia, mas a aplicação e uso de forma equivocada: o médico de costas para o paciente, digitando no prontuário, com poucos minutos por consulta e acompanhamentos fragmentados.
A saída não é tirar o profissional dessa equação, mas liberá-lo das tarefas que a tecnologia pode assumir. "É sobre reimaginar e reconstruir a saúde com a integração da tecnologia", resume.
"Precisamos conectar aquilo que os seres humanos fazem bem com o que a tecnologia faz bem, para elevar toda a experiência sem substituir ninguém", explica.
Se há um assunto em que Kraft pede cautela, é o da longevidade. Segundo ele, poucas áreas da saúde viraram tanto "objeto de hype" nos últimos anos e o seu alerta é de que "não existe bala de prata".
Peptídeos não comprovados, suplementos, terapias promovidas na internet e redes sociais sem comprovação científica. Para o cientista, tudo isso é sintoma de uma busca legítima por "viver mais e melhor" sendo capturada por promessas fáceis.
O que ele propõe no lugar do atalho é um conceito mais simples e menos vendável: healthspan, o período da vida em que a pessoa permanece de fato saudável, e não apenas viva.
"Queremos ter 95 anos, mas ser tão saudáveis, móveis, inteligentes e ágeis quanto uma pessoa de 60 anos", exemplifica. Sua ideia é, então, fazer com que 90 seja o novo 60.
E o caminho até lá, segundo o especialista, começa bem pouco glamouroso: alimentação, sono, exercício, senso de propósito e comunidade. "Não é sexy", admite.
Mas é o que a evidência sustenta: o estilo de vida. O exercício físico desponta como "o melhor medicamento para a longevidade" e Kraft lembra que pessoas com melhor capacidade cardiovascular na meia-idade vivem mais e com mais saúde.
O médico também reconhece exceções dentro da própria medicina baseada em evidência. A vacina contra herpes-zóster, por exemplo, tem sido associada a uma redução de cerca de 30% no risco de demência.
E o GLP-1, classe de hormônios conhecidos pelo uso no controle de peso nas canetinhas emagrecedoras, pode funcionar como ferramenta de longevidade ao beneficiar a saúde cardiovascular. Para o especialista, esses são exemplos de que a ciência séria está avançando, só não da "forma espetacular que os modismos prometem".
Mas afinal, quem vai ter acesso a essa "medicina do futuro" que já está aí? Kraft lembra que a diferença entre bairros a poucos quilômetros de distância pode significar até dez anos de diferença na expectativa de vida.
E é aí que ele vê o maior potencial prático da tecnologia digital: reduzir essa distância, mesmo que de forma imperfeita.
"Todos podem ter um agente de saúde que possa analisar seus comportamentos, entender seus dados e fornecer orientações personalizadas", destaca.
Um dos exemplos é o que ele chama de "Dr. GPT", uso do ChatGPT para tirar dúvidas de saúde, entender sintomas ou saber se algo é uma emergência. Não é substituto de médico, mas sim uma camada de cuidado onde hoje não existe nenhuma, reforça.
Ao falar sobre o Brasil, Kraft traça um paralelo direto com o SUS, sistema público que atende mais de 100 milhões de pessoas gratuitamente, mas que enfrenta filas e sobrecarga.
Para ele, sistemas como esse têm a oportunidade de repensar a porta de entrada do cuidado. A antiga era esperar na fila, enquanto a nova pode começar num aplicativo, com dados do paciente já organizados antes mesmo da consulta presencial.
A ideia central de Kraft é que a saúde está deixando de ser algo pontual, aquele modelo em que a pessoa só procura cuidado quando já está doente, para se tornar algo contínuo e integrado à vida cotidiana.
Essa tendência de constância molda o que ele prevê como mais promissor para os próximos anos.
Esse fluxo, segundo ele, vem de múltiplas fontes cruzadas ao mesmo tempo: dados do smartwatch ou da casa inteligente, somados a informações de genoma, histórico médico, histórico familiar e até do bairro onde a pessoa mora.
É a combinação de biomarcadores digitais, laboratoriais e ambientais que, juntos, permitem enxergar a saúde de um jeito muito mais completo do que um exame isolado seria capaz.
O resultado dessa mudança seria o fim do modelo em que todo mundo recebe o mesmo diagnóstico e o mesmo tratamento.
A saúde passa a ser construída em cima dos dados de cada indivíduo, englobando genoma, contexto, rotina e o que ele resume numa ideia que soa quase futurista, mas já está em curso: cada um tendo, em certa medida, um gêmeo digital, uma "espécie de réplica que ajuda a prever o que funciona melhor para si".
Isso também muda a forma como a pessoa interage com a própria saúde. Kraft imagina interfaces mais simples e intuitivas, adaptadas à idade, à cultura e à localização de cada usuário, e não mais um aplicativo genérico pensado para todo mundo.
Mas Kraft deixa claro: a tecnologia, sozinha, não vai salvar a saúde.
"Não podemos cair nessa armadilha de pensar que ela é a salvadora", frisa. Para o especialista, o que muda o jogo não é só a ferramenta, mas uma mudança de mentalidade: o paciente deixando de terceirizar sua saúde para o sistema e passando a ser, como ele define, o "CEO da própria saúde".
Por outro lado, essa medicina do futuro também só faz sentido se for mais barata e acessível para quem hoje não é contemplado, da favela no Rio à comunidade rural na Amazônia.
É essa visão, que atravessa humanização, longevidade e acesso sem tratar nenhum de forma isolada, que o futurista levará ao palco em São Paulo no próximo sábado.
O tema desta edição do Afya Summit foi pensado a partir de discussões que ganharam força no SXSW 2026, contou Gustavo Meirelles, vice-presidente Médico e Institucional da Afya.
"O que pretendemos é que a tecnologia libere espaço para que o médico faça aquilo que faz de melhor, que é o atendimento humanizado", conclui o VP.