Parceiro institucional:
Gustavo Estrella, CEO da CPFL energia: "Resiliência climática não é mais estratégia, é questão de sobrevivência de negócio" (Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 14h30.
Última atualização em 13 de fevereiro de 2026 às 14h33.
Na CPFL, as mudanças climáticas cada vez mais dramáticas expuseram uma nova realidade e levaram um dos maiores grupos do setor elétrico brasileiro a ajustar sua rota em 2026.
A gigante de energia que alcançou matriz 100% renovável e se tornou carbono neutro em 2025, lança uma versão reformulada do seu plano de ESG rumo a 2030. Desta vez, mais enxuta e assertiva. De 24 compromissos, a empresa passou para 18 e os quatro pilares se transformaram em três.
"Não é exclusivo da área de sustentabilidade, é o plano da CPFL, onde eu tenho 16 mil colaboradores trabalhando focados e engajados", diz Gustavo Estrella, CEO da CPFL, em entrevista exclusiva à EXAME.
Para o executivo, a chave está em manter a evolução constante, sem grandes "movimentos bruscos e repentinos" e que o sucesso virá da "implementação" sem recuar diante da pressão externa ou contexto geopolítico.
A mudança não é por acaso: resiliência climática, há 10 anos tratada como diferencial estratégico, agora é entendida pela companhia como "questão de sobrevivência de negócio".
"Vivemos um cenário climático mais dramático como nunca visto antes e que traz novos desafios. Graças aos avanços tecnológicos, podemos revisitar o nosso plano e fazer essa correção de rota", destaca o CEO.
Líder no segmento de distribuição e forte presença em geração, transmissão e comercialização, a CPFL atende 2/3 do Rio Grande do Sul e as enchentes históricas de 2024 escancararam a urgência de adaptação.
"Quando eu olho para o meu negócio de rede, se eu não foco em resiliência, como eu entrego mais qualidade para o meu cliente em meio a uma operação mais desafiadora? A tecnologia é nossa aliada, a sociedade está mais conectada e demanda mais energia", refletiu o CEO.
Embora tenha atingido a neutralidade climática, a meta da companhia é reduzir em 56% as emissões até 2030. O maior desafio é o escopo 3 (referente à cadeia de valor): 70% dos gases poluentes emitidos vêm de fornecedores de cabos e transformadores, setores reconhecidamente difíceis para descarbonização.
Atualmente, 64% dos fornecedores da CPFL são classificados como tendo metodologias avançadas de sustentabilidade, usando métricas e metodologias próprias da empresa. A ambição é chegar a 85% até o fim desta década, um avanço que depende tanto da evolução tecnológica quanto do engajamento da cadeia de valor.
A inclusão formal de um compromisso público voltado à adaptação climática nos negócios de geração, transmissão e distribuição marca a principal virada de chave do novo plano. A meta é fortalecer a resiliência dos ativos da companhia frente aos eventos climáticos extremos, como tempestades, enchentes e secas prolongadas.
"Nos últimos 100 anos convivemos com uma arborização totalmente inadequada para uma rede elétrica. Hoje nosso manejo precisa ser completamente diferente", explicou Gustavo.
A própria diversificação do portfólio de geração da CPFL — com fontes hidrelétrica, eólica, biomassa, solar, Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) espalhadas em diversas regiões do país — é vista como fundamental para garantir o fornecimento de energia limpa e confiável frente a nova realidade do clima.
Para o CEO, a urgência é clara: "O cliente está lá na ponta. Se faltar energia na casa dele e começar a demorar muito para voltar, ele não quer saber que agora a culpa é da mudança climática".
Para responder a esses desafios emergentes, a CPFL coloca a tecnologia no centro da estratégia de resiliência.
Um investimento de R$ 6 bilhões será direcionado à digitalização e automação de redes, um movimento que a empresa classifica como "operações inteligentes e sustentáveis" e que traz benefícios duplos.
"É questão de sobrevivência: o foco é em uma rede mais robusta e automatizada e que eu consiga controlar remotamente. Ao mesmo tempo, eu consigo reduzir as minhas emissões de escopo 2 relacionadas as nossas perdas de energia", explica o CEO.
Os chamados smart grids incluem religadores automáticos, que minimizam o tempo de interrupção do fornecimento de energia e o número de clientes afetados. A meta é instalar 23,9 mil até 2027 e a CPFL fechou 2025 com 21 mil equipamentos instalados.
Mas o grande projeto de modernização que será prioridade para 2026 é a medição inteligente. Com 11 milhões de clientes, a CPFL já telemediu 100% dos consumidores de alta tensão. O desafio agora é levar a tecnologia para o grupo B (clientes residenciais), em um projeto que o executivo define como "gigantesco" e que deve durar os próximos 10 anos.
A tecnologia identifica falhas em tempo real, permite monitoramento de fraudes e dá ao consumidor a capacidade de gerenciar com mais eficiência o uso de energia.
Até então, a empresa instalou 200 mil medidores inteligentes no grupo B e a meta neste ano é acelerar o ritmo e bater 400 mil instalações ao longo do ano, alcançando 1,6 milhão de medidores até 2029.
"Para ter esse avanço de qualidade, só é possível com automação e digitalização", afirma Gustavo.
O desafio técnico é duplo: além de trocar fisicamente o medidor na casa de cada cliente, é preciso construir toda uma rede de comunicação de dados para fazer essa informação chegar ao centro de operação. Tudo isso, em uma área de concessão extremamente capilarizada, espalhada por dois estados.
A economia circular é outro pilar do novo plano, com destaque para a Reformadora de Equipamentos da CPFL, localizada em São José do Rio Pardo e gerenciada pela CPFL Serviços. Com certificações ambientais, a unidade se dedica à recuperação e reaproveitamento de transformadores, reguladores de tensão e religadores.
"A reformadora é hoje um negócio que nos gera resultado financeiro, ao mesmo tempo que há uma contrapartida importante do ponto de vista ambiental", revela o CEO.
A meta é alcançar a marca de 70 mil equipamentos de rede elétrica reformados até 2030. Até o momento, a CPFL atingiu o marco de 31 mil, o que representa 44% do total. Para aqueles que não podem ser reaproveitados, a empresa garante a cadeia reversa e o destino correto para a reciclagem.
Uma das principais iniciativas para reduzir emissões diretas de gases de efeito estufa (escopo 1) é o projeto de eletrificação da frota operacional, iniciado em 2019 em Indaiatuba (SP).
A ação impulsiona a demanda por veículos pesados elétricos e fortalece a mobilidade sustentável no Brasil. Entre 2021 e 2025, a CPFL reduziu significativamente sua pegada de carbono e economizou entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões em combustíveis fósseis.
O compromisso é eletrificar 15% dos veículos pesados até 2030, com quase 40 caminhões elétricos já em operação. Mas o CEO acredita que esse número será superado.
"Estamos percebendo a evolução de carros elétricos cada vez mais competitivos, com novas tecnologias. Então acredito que logo vamos revisitar esse número e chegar num percentual maior", destacou.
Além da eletrificação, há um investimento em biocombustíveis e biodiesel para o restante da frota, contribuindo para a meta de reduzir 56% das emissões até 2030.
O pilar de "valor compartilhado com pessoas e comunidades" ganha força com o programa CPFL nos Hospitais, ativo desde 2019 e reconhecido dentro do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
A iniciativa promove eficiência energética em hospitais públicos e filantrópicos, com instalação de painéis solares, sistemas de armazenamento de energia (BESS), substituição de lâmpadas por LED, modernização de equipamentos e doação de freezers.
Além de reduzir o consumo de energia elétrica e as emissões de escopo 2, o programa melhora a confiabilidade elétrica em ambientes críticos.
A CPFL já investiu R$ 350 milhões em 624 hospitais, que representam cerca de 40% do total nas áreas de concessão. A economia potencial é estimada em R$ 36 milhões em faturas de energia, recursos que podem ser direcionados a outras necessidades hospitalares.
Além do programa hospitalar, o Instituto CPFL mantém o CPFL Félix Jovem Geração, focado em crianças e adolescentes no contraturno escolar com aulas de música, esportes e outras atividades, reforçando o compromisso da empresa com o impacto social nas comunidades onde atua.
Com matriz 100% renovável desde 2025, a CPFL se posiciona estrategicamente para liderar no mercado de carbono. Atualmente, a empresa já comercializa certificados de energia limpa (I-RECs) e vê a regulamentação como fundamental.
"A regulação é uma oportunidade de ouro para o setor elétrico", afirma Gustavo.
A vocação natural do Brasil para energia limpa reforça essa perspectiva. O setor de energia elétrica brasileiro é responsável por apenas 2% das emissões nacionais de carbono, enquanto a média mundial está em 30%.
O crescimento da demanda por data centers, impulsionado pela computação em nuvem e pela inteligência artificial, representa uma das maiores oportunidades para a CPFL nos próximos anos. E aqui, novamente, a matriz 100% renovável da empresa se torna um diferencial competitivo decisivo e que atrai negócios bilionários para o Brasil com foco em sustentabilidade.
O mercado brasileiro tem hoje cerca de 1 giga de capacidade instalada e pode saltar para 10 ou 15 gigas nos próximos anos. Cerca de 70% dessa capacidade já está concentrada no estado de São Paulo, área de concessão da CPFL e que a torna um polo geográfico estratégico.
Para cada giga de capacidade instalada, são necessários cerca de US$ 10 bilhões em investimentos em facilities e entre US$ 40 bilhões e US$ 60 bilhões em equipamentos. "Se colocar 10 gigas, estamos falando de 500 bilhões de dólares, quase 3 trilhões de reais", exemplifica o CEO.
A inteligência artificial, em particular, tem requisitos específicos que favorecem o Brasil. "Há um aumento da demanda por uma energia 24 horas por dia, ininterrupta, renovável, abundante e barata. Podemos ser um grande player", afirma o executivo.
O desafio está na velocidade e regulação. O Brasil agora compete globalmente por esses investimentos e cobra por rapidez na viabilização de infraestrutura, incluindo segurança jurídica, tratamento tributário e, especialmente, conexão de rede.
Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou o Redata, um projeto que visa incentivar a implementação de data centers por meio da eliminação dos tributos federais.