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A antiga crítica contra a energia solar de que “o sol não brilha sempre para gerar energia 24 horas por dia” ficou ultrapassada
Redação Exame
Publicado em 10 de março de 2026 às 15h15.
Última atualização em 10 de março de 2026 às 15h19.
Por Rodrigo Sauaia e Ronaldo Koloszuk, da Absolar
O cenário energético global voltou a ganhar tensão com a escalada do conflito envolvendo o Irã, que reacendeu preocupações sobre a volatilidade do petróleo e gás natural e seus impactos sobre a economia mundial e o processo de descarbonização.
Historicamente, choques geopolíticos costumam provocar aumento nos preços dos combustíveis fósseis e evidenciar a fragilidade na dependência de países e empresas de um modelo energético vulnerável a instabilidades externas.
Segundo os analistas de mercado, desde o início do conflito, o petróleo Brent, referência global, tem sido negociado a níveis nunca vistos em mais de 18 meses, variando entre 100 e 120 dólares o barril. Já o preço do gás natural atingiu uma elevação de mais de 40% no período, com picos diários de até 60%.
Nesse contexto, cresce a relevância de soluções capazes de reduzir riscos, ampliar a segurança energética e oferecer maior previsibilidade de custos.
É justamente neste ponto que a combinação entre energia solar e sistemas de armazenamento em baterias começa a se consolidar como uma das transformações mais importantes do setor elétrico global.
A rápida expansão dessas tecnologias tem redesenhado a forma como a eletricidade é produzida e consumida.
Não é a agenda ambiental que impulsiona as renováveis, mas sim o preço. A fonte solar fotovoltaica tornou-se a forma mais barata de geração de energia elétrica em grande parte do planeta, superando com ampla vantagem tecnologias fósseis, como carvão, gás e nuclear.
É exatamente essa competitividade que explica por que a solar é hoje a que mais cresce globalmente.
Nos EUA, apesar dos discursos contrários à transição energética, a energia solar foi a fonte que mais cresceu em 2025. Segundo estudo do instituto de pesquisa Ember, a geração fotovoltaica foi responsável por cerca de 61% da expansão da capacidade de geração de eletricidade naquele país em 2025.
O avanço da fonte solar foi suficiente para atender quase integralmente o crescimento do consumo de energia elétrica ao longo do período diurno e ainda contribuir durante a noite.
No ano, a geração solar cobriu todo o aumento da demanda entre 10h e 18h e, com a ampliação do uso de sistemas de armazenamento em baterias, também passou a suprir parte da elevação do consumo no horário noturno, entre 18h e 2h.
Fato é que a transformação renovável avança com força, no Brasil e no mundo, apesar da retórica. O motivo é pragmático e econômico: consumidores, empreendedores, produtores rurais e investidores buscam redução de custos e riscos, e a fonte solar está entregando exatamente estes atributos a eles.
O volume de recursos direcionados globalmente à transição energética alcançou um novo patamar em 2025. De acordo com dados da BloombergNEF, os investimentos somaram US$ 2,3 trilhões, um crescimento de 8% na comparação anual.
A maior parcela desse montante foi canalizada para fontes renováveis e para a modernização das redes elétricas, que juntas concentraram aproximadamente US$ 1,2 trilhão.
Esses segmentos são considerados estratégicos para sustentar a expansão do consumo de eletricidade, impulsionada, sobretudo, pela multiplicação de data centers e pelo avanço das aplicações de inteligência artificial.
Já as soluções de mobilidade elétrica — que englobam veículos elétricos e a infraestrutura de recarga — responderam por US$ 893 bilhões, com maior dinamismo nos mercados asiáticos e europeus.
Esse movimento está alinhado com avaliações recorrentes de organismos internacionais, que apontam a eletrificação de diferentes setores da economia como o principal motor da redução de emissões nesta década.
Pelo relatório da BloombergNEF, em termos regionais, a Ásia-Pacífico liderou os aportes, sendo responsável por quase metade dos investimentos globais em tecnologias de transição energética em 2025, com destaque para China, Índia e Japão.
Na União Europeia, os investimentos atingiram US$ 455 bilhões, avanço de 18% frente a 2024, refletindo tanto o cumprimento de metas climáticas quanto a estratégia de diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados após o conflito na Ucrânia.
Nos Estados Unidos, há uma exposição de tensões entre política e mercado. Mesmo com entraves regulatórios às renováveis, o país ainda registrou US$ 378 bilhões em investimentos verdes, um crescimento de 3,5% em relação a 2025. Apesar das incertezas políticas no país, a transição energética já se tornou uma dinâmica econômica difícil de ser revertida.
Além de mais baratas, as renováveis são mais rápidas de implementar, mais versáteis e muito mais democráticas. Permitem desde pequenos sistemas residenciais abastecendo uma casa na zona rural, no subúrbio ou em uma ilha remota, até grandes projetos suprindo a demanda de centros urbanos, complexos industriais e grandes produtores irrigantes.
O recurso solar está disponível em todo o mundo, reduzindo a concentração de poder, blindando pessoas e países contra a dependência de importação de combustíveis e ampliando sua autonomia e segurança energética.
O oposto do modelo fóssil, que é muito mais caro, centralizado, instável, sujeito a choques geopolíticos.
A antiga crítica contra a energia solar de que “o sol não brilha sempre para gerar energia 24 horas por dia” ficou ultrapassada.
O armazenamento de energia em baterias é a resposta técnica e econômica a esse desafio, uma realidade que cresce a passos largos em todo o mundo.
Combinado a investimentos em infraestrutura de redes e à complementaridade entre as diferentes fontes renováveis (água, sol, vento, biomassa, biogás), o sistema resultante torna-se mais seguro, mais resiliente e mais barato do que a dependência de termelétricas fósseis.
Neste contexto, o Brasil entra em campo com enorme vantagem competitiva. O País já possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com forte presença hidrelétrica, expansão robusta da energia solar e eólica e enorme potencial de biomassa e de biogás.
Em vez de enxergar a variabilidade das renováveis como problema, o Brasil tem a oportunidade de tratá-la como diferencial competitivo, como verdadeira solução sistêmica: renováveis crescendo de forma consistente e complementar, infraestrutura elétrica robusta e segura e baterias agregando flexibilidade, potência e confiabilidade ao sistema.
Tudo isso orquestrado por uma operação do sistema elétrico integrada, dinâmica, moderna e digitalizada.
Renováveis com baterias reduzem a volatilidade de preços, diminuem a dependência de despacho termoelétrico mais caro e poluente e aliviam o risco de crises hídricas se transformarem em crises tarifárias, com bandeira vermelha e mais inflação na economia.
No Brasil, isso não é detalhe, é estratégia. A transição energética é uma decisão econômica. A energia solar já mostrou a que veio. As baterias estão consolidando esse protagonismo.
E o Brasil tem tudo a ganhar neste cenário, se posicionando entre os líderes globais, desde que se mantenha nesta lógica de mercado, com o consumidor no centro das decisões.
*Rodrigo Sauaia é CEO da ABSOLAR e Ronaldo Koloszuk é Presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR.