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Como um iceberg matou 70% dos filhotes de uma colônia de pinguins na Antártica

Evento extremo bloqueou corredor migratório no Mar de Ross e acendeu alerta sobre novos riscos climáticos à sobrevivência de espécies

Pinguim-imperador é a maior espécie de pinguim do mundo e depende de gelo marinho estável para completar seu ciclo reprodutivo na Antártica (Paul Souders/Getty Images)

Pinguim-imperador é a maior espécie de pinguim do mundo e depende de gelo marinho estável para completar seu ciclo reprodutivo na Antártica (Paul Souders/Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 16h15.

Última atualização em 19 de janeiro de 2026 às 16h29.

Um iceberg de quase 14 quilômetros de extensão provocou a morte de cerca de 70% dos filhotes de pinguim-imperador, em mais um reflexo dramático da crise climática. 

Informações publicadas no portal Popular Science apontam que o bloco de gelo bloqueou o principal corredor migratório da Ilha Coulman, no Mar de Ross, impedindo que milhares de fêmeas retornassem do oceano para alimentar seus filhotes.

O fenômeno coloca em risco uma das maiores colônias da espécie na Antártica, e uma das mais dependentes do gelo marinho. 

Segundo os pesquisadores, o impacto é associado ao aumento da instabilidade das plataformas de gelo em um clima em constante aquecimento.

Dados obtidos por satélites e drones mostram que o número de filhotes caiu de aproximadamente 21 mil para 6,7 mil em apenas uma temporada, o equivalente a cerca de 14 mil mortes, estimou o Instituto Coreano de Pesquisa Polar (KOPRI). Ou seja, a taxa de sobrevivência na colônia despencou 70%.

O iceberg se desprendeu da plataforma de gelo Nansen em março de 2025, período em que estudos científicos apontam aumento na frequência de fraturas e desprendimentos na região. Após desviar de sua rota habitual, o bloco encalhou na Ilha Coulman no fim de julho, bloqueando uma passagem essencial para a sobrevivência da colônia.

O momento foi decisivo. Durante o inverno antártico, os machos incubam os filhotes em jejum por mais de 70 dias, enquanto as fêmeas se deslocam até o oceano para se alimentar. A sobrevivência da ninhada depende do retorno sincronizado das mães.

Neste ano, porém, esse ciclo foi interrompido por essa "armadilha geográfica" criada por um evento físico extremo. O iceberg apresentava uma inclinação suave voltada para o mar, permitindo a subida dos pinguins, mas um penhasco vertical no lado oposto, voltado para a colônia, impedia o retorno às áreas de reprodução.

“Esses animais evoluíram para lidar com um ambiente estável de gelo marinho”, explicou Jeong-hoon Kim, líder da pesquisa. “O problema é que a mudança climática está tornando esse ambiente mais imprevisível", complementou ao Popular Science.

Mais gelo, mais risco

Embora o Mar de Ross ainda seja considerado um dos refúgios mais estáveis para o pinguim-imperador, pesquisadores alertam que a maior frequência de grandes icebergs aumenta o risco de bloqueios semelhantes.

O aquecimento global não reduz apenas o gelo: ele também fragmenta plataformas, criando massas móveis que alteram a geografia local.

Análises de satélite indicam que icebergs de magnitude semelhante seguem rotas que cruzam outros importantes habitats reprodutivos, como o Cabo Washington. Em pelo menos um caso recente, um iceberg de tamanho comparável passou a poucos quilômetros de outra colônia.

“A questão não é um único iceberg, mas o padrão”, afirmou Jin-ku Park, responsável pela análise dos dados. “À medida que as plataformas de gelo se tornam mais instáveis, cresce a probabilidade de eventos raros com impactos extremos.”

Limites biológicos diante de eventos extremos

Sem o retorno das fêmeas, os machos que aguardavam com os filhotes atingiram o que a ciência chama de "limite fisiológico". S

Segundo os pesquisadores, muitos foram forçados a abandonar a ninhada para sobreviver, evidenciando como pequenas alterações físicas no ambiente podem gerar colapsos biológicos em cascata.

Apenas cerca de 30% dos filhotes sobreviveram, alimentados por mães que conseguiram encontrar rotas alternativas, em um esforço energético adicional que também reduz as chances de reprodução futura.

'Estudo de caso' da crise climática

O KOPRI pretende apresentar o caso à Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos da Antártica (CCAMLR) como evidência concreta dos impactos indiretos das mudanças climáticas sobre espécies e fortalecer a pressão para que o "imperador" seja classificado a nível especial de proteção.

"A mudança climática altera a dinâmica do gelo, cria novos obstáculos físicos e expõe os limites de adaptação da fauna antártica", destacou Kim.

Se o iceberg se dissipar antes da próxima temporada, há potencial de recuperação da colônia. Caso contrário, os pesquisadores alertam para impactos de longo prazo, incluindo a realocação forçada da espécie.

A sinalização é de que, mesmo nos ambientes mais frios do planeta, a crise climática já está redesenhando ecossistemas inteiros.

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