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Como a guerra no Oriente Médio pode impulsionar energias renováveis

A escalada militar entre EUA, Israel e Irã expõe a fragilidade da dependência global de fósseis e abre uma janela para o Brasil se tornar "porto seguro" para investimentos verdes, dizem especialistas

Com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, Brasil reúne "condições raras" em meio à crise geopolítica internacional (Carolina Gehlen/Exame)

Com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, Brasil reúne "condições raras" em meio à crise geopolítica internacional (Carolina Gehlen/Exame)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 3 de março de 2026 às 18h00.

Última atualização em 3 de março de 2026 às 20h54.

"Se o mundo cada vez mais enxergar o petróleo como instável, temos uma janela de oportunidade histórica para as energias renováveis."

A declaração é de Stefania Relva, diretora de Transformação Industrial do Instituto E+ de Transição Energética, e sintetiza a discussão que ganha força após a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã pressionar os preços do petróleo e reacender o debate sobre a urgência da transição energética.

Com a matéria-prima acumulando alta próxima de 8% e se aproximando dos US$ 85 por barril nesta terça-feira, 3, o conflito liga um alerta para a segurança energética frente à dependência de combustíveis fósseis. Atualmente, essas fontes poluentes representam cerca de 80% da matriz global e estão concentrados em regiões geopolíticas sensíveis.

Para especialistas ouvidos pela EXAME, mais do que um choque pontual, o conflito adiciona uma imprevisibilidade que pode reconfigurar escolhas no setor de energia. 

“Quando o petróleo passa a ser sinônimo de volatilidade, as fontes limpas deixam de ser apenas uma agenda climática e passam a ser uma estratégia econômica”, destaca Edlayan Passos, especialista em energia do mesmo instituto.

“Países avançados em transição energética se tornam muito mais resilientes frente a esse tipo de crise", diz.

++ Leia mais: Transição energética: Brasil quer puxar a fila, mas falta engatar o passo

Na prática, isso significa que projetos renováveis passam a ser avaliados não apenas sob a ótica ambiental, mas como instrumentos de previsibilidade de custos e segurança. Para empresas intensivas em energia e investidores institucionais, estabilidade passou a ser um ativo estratégico.

É nesse contexto que o Brasil entra na equação como potencial "porto seguro" para investimentos verdes. 

Com uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, forte presença de hidrelétricas, expansão consistente de eólica e solar e uma indústria consolidada de biocombustíveis, o país reúne "condições raras" no cenário internacional.

Em um ambiente global mais instável, essa combinação o coloca em posição privilegiada na disputa por capital verde e por cadeias produtivas intensivas em energia.

“Segurança energética e geopolítica caminham juntas”, lembra Passos, reforçando que há uma vantagem extra além do suprimento: o Brasil não tem conflitos com vizinhos e é conhecido por prezar pela boa diplomacia internacional.

Brasil como "porto seguro" de investimentos verdes

Para Hudson Mendonça, vice-presidente de Energia e Sustentabilidade da MIT Technology Review no Brasil, o impacto imediato da guerra já é evidente na elevação dos preços do petróleo, o que pode impulsionar a atração de capital para fontes limpas ao tornar estas alternativas mais competitivas. 

Mas o especialista pondera que a incerteza ainda gera cautela no curto prazo. “Há uma grande perspectiva de volatilidade gerada pelas incertezas sobre as próximas fases do conflito. Isso tende a paralisar investimentos de longo prazo que não sejam urgentes.”

Ainda assim, a tendência estrutural, segundo ele, é clara: “O saldo tende a ser positivo tanto para investir em renováveis como em petróleo fora das zonas de possíveis de conflitos".

Enquanto a intermitência segue como principal gargalo das renováveis devido a ausência de sol ou vento em determinados períodos do dia, Passos reforça: "O que está acontecendo no Irã mostra que os fósseis também estão associados a riscos de suprimento bem significativos.”

"Se olharmos o preço do gás natural na Europa, já houve um aumento considerável. O estoque está em torno de 30%. A própria China depende das importações daquela região", frisa.

Mas Stefania alerta que o privilégio brasileiro de ter muito óleo, petróleo e renováveis não significa que estamos protegidos. “No curto prazo, quando ocorrem esses choques, podemos enfrentar dificuldades no mercado externo", ressalta.

O país exporta petróleo bruto e importa derivados como diesel, fundamental para o transporte pesado. Essa dependência da importação mantém o país exposto a oscilações externas, mesmo sendo produtor relevante de óleo.

Mas, no horizonte mais longo, a leitura é diferente. “O Brasil tem tudo para se destacar e acelerar a transição energética”, garante.

A especialista também deixa claro que exportar commodities como petróleo é bastante tentador no curto prazo, mas apostar nas renováveis é uma alternativa para "sair dessa armadilha".

A aposta na industrialização verde

Para o Instituto E+, a grande oportunidade não está apenas na exportação de energia, mas na agregação de valor rumo à "industrialização verde". 

Diferentemente do petróleo, que pode ser transportado e vendido globalmente como commodity, a energia renovável é, em grande parte, consumida onde é produzida. Solar e eólica dependem de infraestrutura local e não circulam pelo mundo "em navios".

Uma alternativa defendida por parte do setor é transformar essa energia em hidrogênio verde e exportá-lo. Mas, para alguns especialistas, essa estratégia ainda mantém o país na "posição de fornecedor de insumo básico" e envolve custos elevados e desafios logísticos relevantes.

Em vez de exportar energia — ainda que na forma de hidrogênio — o país poderia exportar bens industriais produzidos com energia limpa, como aço verde, fertilizantes e outros insumos estratégicos. "É aí que vemos a grande oportunidade para o Brasil", complementa Stefania.

Ela destaca que o país reúne ativos estratégicos difíceis de replicar: segurança geopolítica, base renovável competitiva e minerais críticos essenciais para o desenvolvimento de tecnologias limpas.

Na década de 70, quando aconteceu o primeiro "choque do petróleo", especialistas lembram que estes foram como "catalisadores de inovação" ao impulsionar a eficiência energética, diversificação de fontes e novas políticas industriais e outras soluções verdes.

No curto prazo, a guerra pressiona preços e amplia a volatilidade. No médio e longo prazo, pode acelerar uma reconfiguração estrutural no mercado de energia.

Em meio às incertezas geopolíticas, uma tendência se consolida: energia deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a ser variável central de estratégia econômica. E, nesse tabuleiro, o Brasil pode transformar turbulência externa em vantagem competitiva.

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