CEO do Instituto Capitalismo Consciente: Empresas devem gerar valor social

O Capitalismo Consciente é uma correção de rota para diminuição das desigualdades, é dever de toda empresa e a beneficia, diz Daniela Garcia, nova presidente do ICCB, em entrevista exclusiva à EXAME
 (Divulgação/ICCB)
(Divulgação/ICCB)
Por Marina FilippePublicado em 12/04/2022 08:00 | Última atualização em 11/04/2022 17:25Tempo de Leitura: 5 min de leitura

O Instituto Capitalismo Consciente Brasil (ICCB), que busca transformar o jeito de se fazer investimentos e negócios no país, anunciou Daniela Garcia como CEO, sendo primeira mulher a assumir este cargo dentro da instituição brasileira, assim como entre os institutos pares internacionais.

Com a novidade, acontece também a extinção da diretoria de educação e no lugar dela o Instituto passa a ter uma vertical de liderança e educação no Comitê Executivo. "Mesmo com a troca de gestão e reformulação de setores, a instituição continuará defendendo uma liderança mais humana, mais ética e mais sustentável, para a redução da desigualdade. E o principal objetivo é a democratização dos conceitos do Capitalismo Consciente", diz Garcia em entrevista exclusiva à EXAME.

"Queremos que o Capitalismo Consciente não seja apenas daqueles líderes das grandes empresas, mas que seja de todos os líderes. Nosso Capitalismo Consciente é mais do que conceito e inspiração, é conteúdo, ferramenta, educação, experiência. É premissa de negócios inovadores". Confira a entrevista completa.

Como o instituto atua no Brasil e promove o Capitalismo Consciente?

O conceito de Capitalismo Consciente mostra como a gestão humanizada e o propósito são importantes para as empresas, tornando-as hiper resilientes também em contextos de crise. O que as faz tão potentes é o valor compartilhado e o entendimento de que os resultados de longo prazo devem ser fundamentados e sustentáveis. A partir disto, nasce em 2010 a matriz do Instituto Capitalismo Consciente nos Estados Unidos, e em 2013 no Brasil. 

Por aqui, a primeira gestão foi orientada para expandir o conceito no Brasil, a segunda para localizar empresas que tinham gestão consciente e a terceira no desenvolvimento de  instrumentos para que os líderes tivessem mais conhecimento sobre o capitalismo consciente. Cada gestão, até o momento, teve a duração de dois anos.

Como é o trabalho de educação?

Para além do trabalho que fazemos com as empresas, ao apresentá-las materiais do Instituto, certificamos pessoas físicas em  12 tipos de conteúdos, como workshops, mesas redondas e mais. Também oferecemos uma certificação avançada com 40 horas de imersão, já realizada por 17 turmas, de modo que essas pessoas se tornam multiplicadores do nosso conteúdo em suas respectivas empresas.

Trabalhamos para que elas entendam o tamanho do impacto das ações. O Instituto acredita no protagonismo da iniciativa privada em promover impacto na sociedade e diminuir desigualdades. É um capitalismo novo, de correção de rota, da organização e diminuição das desigualdades.

Quantos são os associados e como o trabalho com eles têm se desenvolvido?

Hoje temos 4.000 associados, sendo 180 empresas. Crescemos especialmente a partir de 2019, quando tivemos a expansão nacional por meio de 11 filiais. O crescimento ocorre também pelo trabalho de deselitizar o conceito. Capitalismo consciente não é só para grandes empresas. É uma forma de olhar o negócio e fazer a gestão entendendo que toda empresa é responsável pela geração de riqueza e valores.

É importante dizer ainda que as outras unidades do ICC no mundo estão em Israel, Barcelona e México, além de 24 nos Estados Unidos. Nós temos autonomia para encontrar a melhor forma de trabalho e, por isto, somente no Brasil há esse formado de associação e embaixados.

Mudança na educação

A educação é um dos pilares fundamentias do Instituto. Não apenas sobre como atuamos com executivos, mas também pelo entendimento de que o jovem precisa ser melhor formado no país para, consequentemente, ter mais oportunidades de emprego e melhorias de vida.

Temos trabalhos em parceria com empresas como Movida, Gerdau e Klabin para a educação de aprendizes e estagiários, além do acolhimento e desenvolvimento junto com Gerando Falcões, G10 Favelas e mais. Outro exemplo ocorre quando participamos de aulas da Dom Cabral, IBMEC e Senac para explicar o capitalismo consciente. Para crianças, em breve vamos lançar um livro sobre o tema. Por conta das ações, entendemos que seria melhor mudar a estrutura de educação e deixá-la mais próxima do conselho.

 As empresas de todos os portes entendem o valor de se associar com o ICC?

Temos percebido que sim, cada vez mais. Recebemos muitas chamadas pelo nosso site, mas também busco conversar com  quem eu gostaria que estivesse mais próximo. Ontem, por exemplo, falei com uma startup de gestão de lixo.

Ao longo dos dois últimos anos a percepção de pessoas mudou. A partir da pandemia da covid-19 o olhar para o steakholder ficou muito latente e mostrou que é necessário honrar compromissos com todos. A carta do Larry Fink [CEO da gestora de investimentos BlackRock] sobre propósito também impulsionou este movimento e a ampliação do discurso sobre ESG como um todo.

Quais outras iniciativas estão previstas para a sua gestão?

Estamos  començando a construir o pilar de advocacy sobre desigualdade veledas. Hoje se fala pouco sobre diferenças salarias entre o CEO e chão de fabrica, por exemplo. Contudo, o desequilíbrio financeiro e a divisão dos lucros é essencial para a correção da rota do capitalismo e diminuição das desigualdades.

As diferenças também aparecem quando as mulheres pagam mais do que os homens por produtos semelhantes, mesmo recebendo menos. O objetivo é ir além da discussão de política pública e envolver as empresas em mudanças efetivas. O capitalismo consciente aborda o que pode ser bom, mas para isto é preciso mostrar o que não funciona.