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Todos os 25 maiores países produtores de café experimentaram mais dias de calor nocivo à cultura nos últimos cinco anos por causa das mudanças climáticas (Carl de Souza/AFP/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 21 de março de 2026 às 07h56.
O Brasil, maior produtor de café do mundo, está na linha de frente de uma ameaça crescente: o calor provocado pelas mudanças climáticas.
Um novo levantamento da organização Climate Central revela que o país enfrentou, em média, 70 dias adicionais por ano com temperaturas prejudiciais à cultura do café — o maior número entre os cinco principais produtores globais analisados.
O estudo analisou dados de temperatura observados entre 2021 e 2025 e os comparou a um cenário hipotético sem poluição por carbono. A metodologia utilizou o Índice de Deslocamento Climático (Climate Shift Index) para calcular quantos dias a mais, em cada região produtora, as temperaturas ultrapassaram os 30°C — limiar a partir do qual as plantas de café sofrem estresse térmico, com impactos diretos na produtividade e na qualidade dos grãos.
Quando expostas a esse nível de calor, as plantas ficam mais vulneráveis a doenças, produzem menos frutos e geram grãos de menor qualidade. O efeito em cadeia se reflete no mercado: menor oferta, pior qualidade e, consequentemente, preços mais altos para o consumidor.
O problema não se limita ao Brasil. Vietnã, Colômbia, Etiópia e Indonésia — que juntos com o Brasil respondem por 75% da produção mundial — registraram, cada um, uma média de 57 dias adicionais de calor prejudicial ao café por ano.
Ao ampliar a análise para os 25 maiores países produtores, que representam 97% da produção global, o resultado é igualmente preocupante: todos eles experimentaram mais dias de calor nocivo à cultura nos últimos cinco anos por causa das mudanças climáticas. Em média, cada país teve 47 dias extras por ano com temperaturas acima do limite tolerável para a planta.
No mundo, estima-se que 2,2 bilhões de xícaras de café sejam consumidas diariamente. Só nos Estados Unidos, ao menos dois terços dos adultos tomam café todos os dias. A pressão sobre esse mercado global, portanto, tem consequências que vão muito além das lavouras.
Se os consumidores sentem o impacto no bolso, os pequenos produtores carregam o peso mais pesado. Eles representam cerca de 80% dos produtores mundiais e são responsáveis por aproximadamente 60% do suprimento global de café — mas receberam, em 2021, apenas 0,36% do financiamento necessário para se adaptar aos impactos climáticos.
A conta para adaptar uma propriedade de um hectare às novas condições climáticas gira em torno de US$ 2,19 por dia — menos do que o preço de uma xícara de café em muitos países.
Ainda assim, o acesso a esses recursos segue sendo um obstáculo enorme para a maioria dos cafeicultores.
Para Kristina Dahl, vice-presidente de Ciência da Climate Central, o café é apenas a ponta do iceberg. "As mudanças climáticas estão vindo pelo nosso café. Quase todos os principais países produtores estão enfrentando mais dias de calor extremo que prejudicam as plantas, reduzem as colheitas e afetam a qualidade", afirmou.
Ela acrescenta que o fenômeno vai além da bebida: "Com esta análise, olhamos apenas para os cafezais, mas as mudanças climáticas estão afetando outras culturas e agricultores em todo o mundo, com efeitos em cascata sobre os preços dos alimentos e os meios de vida."