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Brasil precisa exportar tecnologia verde e não só commodity, diz conselheiro de Davos

Primeiro brasileiro no conselho de clima e natureza do Fórum Econômico Mundial, Guilherme Brammer revela à EXAME lançamento de nova startup para conectar patentes brasileiras ao ecossistema global

Guilherme Brammer, empreendedor e conselheiro-sênior do Centro para Natureza e Clima do Fórum Econômico Mundial: “O Brasil é um dos líderes da nova economia, só que um dos últimos a transformar essas patentes em negócio”

Guilherme Brammer, empreendedor e conselheiro-sênior do Centro para Natureza e Clima do Fórum Econômico Mundial: “O Brasil é um dos líderes da nova economia, só que um dos últimos a transformar essas patentes em negócio”

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 25 de agosto de 2026 às 16h15.

Última atualização em 25 de agosto de 2026 às 17h18.

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Transição energética, segurança alimentar, acesso à água e bioeconomia. Para Guilherme Brammer, primeiro brasileiro a integrar o grupo seleto de conselheiros-seniores do Centro para Natureza e Clima do Fórum Econômico Mundial de Davos, essa é a lista de ativos valiosos que o Brasil já tem de sobra e que o mundo está, agora, "desesperado para comprar". 

"O país é um dos líderes da nova economia, só que um dos últimos a transformar essas patentes em negócio", destaca o empreendedor que fundou a startup Boomera e a vendeu no fim de 2023, antes de embarcar em novos projetos.

É essa lacuna entre o potencial nacional em soluções verdes e a capacidade de exportá-las ao mundo que Brammer decidiu abraçar como missão pessoal e profissional, em duas frentes.

"Sempre vendemos commodity, mas nunca fomos um exportador de tecnologia e regime de inovação — e isso precisa mudar", defendeu.

A primeira é abrir as portas do ecossistema internacional do Fórum Econômico Mundial para empresas brasileiras, levando-as a encontros estratégicos como o Summer Davos, na China, em junho.

E a segunda é a Uthope, nova startup que o empresário revela em primeira mão à EXAME: nasce para conectar patentes e tecnologias brasileiras prontas para escalar a grandes compradores e ao mercado financeiro, com estreia marcada para 6 de outubro, em São Paulo.

Segundo o fundador, o nome Uthope vem da mistura de "utopia" (um lugar que não existe, mas que vamos lutar para chegar lá) e esperança, em inglês. Já a letra 'u', no tupiniquim, é tudo que tem: um agir, um verbo. "É fazer a esperança e a utopia acontecerem", ressalta.

"A startup surge para aproximar soluções, patentes e empreendedores de impacto que estão prontos para escalar e conectar aos compradores nesse ecossistema", resume.

O anúncio acontece no mesmo momento em que o executivo tem seu mandato em Davos renovado por mais um ano e detalha uma tese que já virou programa de formação em uma universidade suíça.

Se trata do conceito de "triângulo quebrado": empreendedor de impacto, grande empresa compradora e mercado financeiro formam a geometria. O problema é que eles "simplesmente não se comunicam".

"Não é só o empreendedor social que não sabe vender. A grande empresa também não sabe comprar. E o mercado financeiro não investe porque é gestor de risco. O gargalo não está só de um lado", explica.

O único brasileiro em um conselho de Davos

À frente do grupo de conselheiros-seniores do Centro para Natureza e Clima do Fórum Econômico Mundial, os chamados executive fellows, Brammer conta que a entrada veio de uma provocação que ele mesmo se fazia há anos durante suas idas a Davos.

"Cadê o Brasil? Não está aqui porque não vem", reflete. Segundo ele, a presença era apenas de bancos nacionais, enquanto o empreendedorismo e grandes empresas ficavam de fora.

Foi essa ausência que ele decidiu tornar sua pauta dentro do Fórum. Um dos benefícios de integrar o grupo foi um curso de dez dias em Harvard sobre mudanças sistêmicas, uma experiência que, segundo ele, "foi transformadora e o levou a repensar como contar a história do Brasil para esse público internacional".

Ainda que mantenha presença na tradicional reunião de Davos, Brammer tem priorizado, nos últimos dois anos, o Annual Meeting of the New Champions, o conhecido como Summer Davos, realizado anualmente na China. Foi lá que esteve em junho, alinhando os detalhes de uma nova iniciativa para levar empresas brasileiras ao ecossistema. 

"Davos é mais emblemático e de difícil acesso. Já o encontro da China discute os próximos dez anos, não apenas o ano, e vão pessoas do mundo inteiro para discutir as principais tendências", destaca.

Para ele, a experiência é reveladora sobre a potência que a China se tornou e sobre como o Brasil pode se posicionar.

"Você pode ver o chinês como inimigo ou parceiro. Você escolhe qual é o jogo", diz, citando o exemplo de uma das cidades-sede do encontro, Shenzhen: "Há 40 anos era uma vila de pescadores com 3 mil habitantes. Hoje é o Vale do Silício chinês, com 30 milhões de habitantes".

É justamente aí que mora um dos planos de Brammer para 2027: uma missão de empresas brasileiras para acompanhá-lo no Summer Davos, com curadoria própria para garantir que os negócios estejam nos padrões exigidos para participar.

Outro plano é uma parceria com o IMD, um programa de formação voltado a executivos e empreendedores brasileiros, com etapas online e uma semana presencial na sede da universidade, em Lausanne, na Suíça, encerrando com estudo de caso prático no Fórum Econômico Mundial.

A lógica por trás do programa segue a mesma tese do triângulo quebrado: aproximar, na prática, dois lados que falam línguas diferentes.

"Entendemos que existem três momentos de mudança sistêmica: primeiro o conhecimento — saber que o problema existe e que há soluções. Depois, você precisa experimentar, porque questões ambientais ainda são muito distantes do dia a dia do executivo. E só depois vira projeto, vira ação", explica.

O triângulo quebrado e a economia da esperança

Se a China e Davos são o palco internacional, o problema que Brammer diz ter identificado é bem brasileiro e estrutural.

O tamanho do ecossistema de impacto é significativo: segundo mapeamento do Pipe.Social e Quintessa, são 1.011 negócios de impacto e mais de 11 mil empreendedores, com apoio de 66 organizações espalhadas por diferentes regiões.

O mapeamento mostra que soluções verdes já respondem por 52% dos negócios e representam a maior fatia entre todas as frentes, mas aponta também o gargalo que Brammer descreve: 41% desses empreendedores apontam o acesso a dinheiro como principal dificuldade, seguido por parcerias, vendas e comunicação, sinal de que o problema segue menos na escassez de capital e mais na relação entre quem produz e quem tem capacidade de comprar ou investir.

Foi justamente ao longo das gravações do documentário The Hope Economy (A Economia da Esperança), que Brammer também assina, que essa tese ganhou forma. A produção nasceu como um esforço para mudar a forma como o Brasil conta sua própria história de inovação sustentável.

O time percorreu mais de 20 territórios pelo país, da Amazônia ao Cerrado, passando por comunidades ribeirinhas e laboratórios de biotecnologia, e reuniu mais de 70 entrevistados. Entre os cases estão desde negócios voltados ao combustível sustentável de aviação (SAF) feito a partir da macaúba a uma essência de perfume extraída sem derrubar árvores na Amazônia.

Durante as entrevistas, o idealizador percebeu um padrão que batizou o filme. "Das 70 pessoas, 69 falaram em esperança", conta. "Se a esperança do empreendedor de impacto acabar, ele desiste. E é muito desafiador empreender nessa área, ainda mais no Brasil", complementa.

O documentário já estreou em sessões no festival paulistano "É tudo verdade" e está em fase final de negociação para chegar ao streaming.

Para Brammer, o fato de o Brasil ainda não ter aproveitado todo seu potencial é, também, uma questão de tempo. "Estamos no foco da nova economia, só ainda não transformamos isso em inovação", conclui. 

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