Ciência

Grécia está pagando para eliminar peixe 'com dente de lebre'

Espécie tóxica destrói redes, devora peixes e já se espalhou por áreas do Mar Mediterrâneo sem predadores naturais

Baiacu invasor: espécie de cabeça triangular e dentes frontais fortes ameaça a pesca no Mar Mediterrâneo (Anne Pollmann/dpa/picture alliance)

Baiacu invasor: espécie de cabeça triangular e dentes frontais fortes ameaça a pesca no Mar Mediterrâneo (Anne Pollmann/dpa/picture alliance)

Publicado em 2 de julho de 2026 às 13h07.

Última atualização em 2 de julho de 2026 às 23h51.

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A Grécia vai pagar até 5,33 euros por quilo aos pescadores que capturarem exemplares de Lagocephalus sceleratus, um baiacu invasor e altamente venenoso que vem se espalhando pelo Mar Mediterrâneo. A medida busca conter o avanço da espécie, que provoca prejuízos à pesca e ameaça os ecossistemas marinhos.

A iniciativa foi anunciada pelo governo grego e divulgada pela Deutsche Welle. Segundo as autoridades, os peixes capturados serão congelados e posteriormente incinerados em instalações administradas pelo poder público.

Por que o baiacu invasor preocupa a Grécia?

Natural dos oceanos Índico e Pacífico, o Lagocephalus sceleratus chegou ao Mediterrâneo oriental após atravessar o Canal de Suez a partir do Mar Vermelho. A espécie foi identificada pela primeira vez na costa da Grécia em 2005 e, desde então, se espalhou rapidamente, principalmente no sul do Mar Egeu, onde praticamente não possui predadores naturais.

O peixe pode atingir cerca de 13 quilos e é facilmente reconhecido pela cabeça triangular e pelos dentes frontais semelhantes aos de uma lebre, característica que originou seu apelido em grego.

Além de ser um predador agressivo, seus órgãos e sua pele contêm tetrodotoxina, uma das toxinas naturais mais potentes conhecidas, capaz de provocar intoxicações graves e até fatais em seres humanos. Também já foram registrados casos de banhistas mordidos pela espécie.

Como o peixe afeta a pesca

Segundo especialistas, o baiacu invasor causa prejuízos econômicos ao atacar cardumes presos em redes e espinhéis, destruindo equipamentos de pesca durante a tentativa de se alimentar.

A diretora de pesquisas do Centro Helênico de Investigação Marinha (ELKETHE), ictióloga Paraskevi Karajlé, explicou à emissora pública ERT que o animal possui mandíbulas extremamente fortes, capazes de rasgar redes e outros equipamentos utilizados pelos pescadores.

Além dos danos materiais, o peixe também reduz a disponibilidade de espécies de interesse comercial ao predá-las antes da captura.

Programa segue modelo já adotado em Chipre

Segundo o ministro grego da Agricultura e da Pesca, Margaritis Schinás, a pesca no país enfrenta desafios crescentes provocados pelas mudanças climáticas e pela expansão de espécies invasoras, entre elas o Lagocephalus sceleratus.

A iniciativa segue um modelo semelhante ao implantado em Chipre, onde pescadores recebem cerca de 4,73 euros por quilo capturado.

Desde o início do programa cipriota, em junho de 2024, aproximadamente 103 toneladas do peixe invasor já foram retiradas do mar. O projeto, financiado pelo Fundo Europeu da Pesca em conjunto com o governo de Chipre, prevê pagamentos até o fim de 2029 e já destinou cerca de 487 mil euros aos participantes.

Pescadores relatam prejuízos diários

Pescadores que atuam nas ilhas gregas afirmam que a população do baiacu invasor cresceu rapidamente nos últimos anos. Em algumas regiões, embarcações chegam a capturar entre 100 e 200 exemplares por dia.

Segundo profissionais da pesca ouvidos pela imprensa local, os danos às redes e aos equipamentos são tão frequentes que, muitas vezes, o tempo gasto com reparos supera o dedicado à própria atividade pesqueira, aumentando significativamente os custos do trabalho.

Em algumas ilhas, pescadores também passaram a organizar, por iniciativa própria, ações para reduzir a população da espécie e minimizar seus impactos sobre a pesca local.

Espécie não representa risco elevado para turistas

Segundo a DW, apesar dos prejuízos registrados em regiões como Creta e outras ilhas gregas, autoridades afirmam que o baiacu invasor não tem sido observado em áreas de banho frequentadas por turistas.

Em nota conjunta, 16 associações médicas e ligadas ao turismo de Creta afirmaram que a presença da espécie no Mediterrâneo é conhecida há anos e que não existe um risco iminente para banhistas.

Segundo as entidades, embora o avanço do peixe represente um desafio ambiental e econômico, ele não ameaça a segurança dos visitantes nos principais destinos turísticos do país.

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