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Catfish several days after hatching. Stephen Ausmus d1931-10 (Steve Ausmus - USDA/ARS;/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 21 de junho de 2026 às 08h00.
O bagre cultivado é um dos pescados mais consumidos dos Estados Unidos e sustenta uma extensa cadeia produtiva no Sul do país. Mas, por trás de uma indústria que movimenta bilhões de dólares, produtores enfrentam uma combinação de desafios que vem reduzindo a rentabilidade e acelerando a retração do setor, segundo um estudo da Federação Americana de Escritórios Agrícolas (AFBF, na sigla em inglês).
A atividade gera US$ 1,91 bilhão para a economia dos estados de Alabama, Arkansas e Mississippi, sustenta mais de 9.100 empregos e permanece como o principal segmento da aquicultura americana.
Ainda assim, a área destinada à produção encolheu cerca de 75% desde o início dos anos 2000, enquanto o número de fazendas caiu de mais de 1.300 para 389 em 2023.
Os números ajudam a dimensionar a relevância do setor. Em 2024, o bagre respondeu por 34,3% de toda a produção aquícola dos Estados Unidos, participação superior à de qualquer outra espécie cultivada no país, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) compilados pela AFBF.
O destaque fica para o bagre-do-canal (Ictalurus punctatus), que representa cerca de 90% dos bagres criados em fazendas americanas e é considerado a espécie aquática mais importante da aquicultura comercial do país, segundo levantamento do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Apesar da liderança, a atividade vive uma trajetória de retração. Após atingir o pico no início dos anos 2000, quando a produção se aproximou de 300 mil toneladas métricas, o volume produzido caiu para cerca de 160 mil toneladas em 2024, último dado disponível.
O contraste ajuda a explicar o momento vivido pelo setor. Embora os produtores tenham adotado genética aprimorada, sistemas de produção mais intensivos e novas tecnologias de manejo, os ganhos de eficiência não foram suficientes para compensar o avanço dos custos, a concorrência de peixes importados e os prejuízos provocados por doenças, aves predadoras e eventos climáticos extremos.
A pressão começa dentro das fazendas. A ração, principal custo da atividade, responde por entre 45% e 55% das despesas totais de produção e atualmente custa quase o dobro do registrado em 2002. A alta acompanha a valorização de insumos como a soja, principal ingrediente proteico utilizado na alimentação dos peixes.
Os gastos com alevinos, mão de obra, energia e transporte também avançaram nos últimos anos, comprimindo ainda mais as margens dos produtores.
Segundo o levantamento, o custo de equilíbrio da produção saltou de cerca de US$ 0,69 por libra em 2002 para aproximadamente US$ 1,15 por libra atualmente.
Como o preço médio recebido pelos produtores gira em torno de US$ 1,17 por libra, muitas fazendas operam praticamente no ponto de equilíbrio, com pouca margem para absorver perdas decorrentes de doenças, eventos climáticos ou novas altas nos custos de produção.
A pressão sobre os produtores vai além dos custos de produção. Entre os fatores que escapam ao controle das fazendas, a predação por aves piscívoras aparece como uma das maiores ameaças à rentabilidade.
Os corvos-marinhos-de-crista-dupla, que migram para as regiões produtoras durante parte do ano, são apontados como os principais responsáveis pelas perdas.
Segundo a AFBF, fazendas sem incidência relevante dessas aves registraram lucros médios de cerca de US$ 2.600 por hectare. Nas áreas mais afetadas, porém, o resultado se inverteu, com prejuízos próximos de US$ 1.200 por hectare.
As doenças também pesam no balanço dos produtores. A edwardsiellose, uma das enfermidades mais recorrentes na criação de bagres, provoca perdas estimadas entre US$ 15,5 milhões e US$ 45,9 milhões por ano.
O impacto tende a ser ampliado por eventos climáticos extremos, que elevam o estresse dos peixes e aumentam o risco de surtos sanitários.
Além dos desafios dentro das propriedades, os produtores enfrentam uma concorrência cada vez maior das importações. O pangasius vietnamita, vendido nos Estados Unidos sob a marca swai, saiu de uma presença praticamente inexistente nos anos 1990 para um mercado estimado em US$ 330 milhões atualmente.
A competitividade do produto está diretamente ligada ao preço. No varejo americano, o swai chega a custar mais de 40% menos que o bagre produzido localmente, ampliando a disputa por consumidores e pressionando as margens da produção doméstica.
O resultado é uma cadeia que segue estratégica para a economia rural do Sul dos Estados Unidos, mas que opera com cada vez menos espaço para absorver choques.
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