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Às vésperas da COP31, falta de critérios trava investimentos em adaptação climática

Mesmo com a promessa de triplicar os aportes até 2035, recursos previstos cobririam menos de um terço das necessidades das economias em desenvolvimento, aponta relatório da ONU

Mudanças climáticas: os impactos do aquecimento global se refletem nos balanços das empresas e nas operações do sistema financeiro (Imagem gerada por IA/Exame)

Mudanças climáticas: os impactos do aquecimento global se refletem nos balanços das empresas e nas operações do sistema financeiro (Imagem gerada por IA/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 4 de novembro de 2026 às 14h09.

Última atualização em 4 de novembro de 2026 às 14h21.

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A matéria aborda o financiamento insuficiente para adaptação climática, destacando o desequilíbrio entre os recursos necessários e os disponíveis. A falta de critérios padronizados entre países e regiões dificulta o investimento privado nesse setor, o que impacta empresas e populações vulneráveis frente aos efeitos das mudanças climáticas.

Países em desenvolvimento precisarão de aproximadamente US$ 305 bilhões por ano até 2035 para financiar medidas de adaptação às mudanças climáticas, segundo o Adaptation Gap Report 2026, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O valor contrasta com os recursos públicos internacionais destinados pelas economias desenvolvidas a essa finalidade, que somaram entre US$ 28,2 bilhões e US$ 31,7 bilhões em 2024.

O descompasso ocorre em meio ao aumento dos prejuízos provocados por desastres naturais. Em 2025, as perdas cobertas por seguros ultrapassaram US$ 100 bilhões, segundo dados apresentados por Eric Usher, chefe da Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP FI), em artigo publicado às vésperas da COP31, que será realizada em Antalya, na Turquia.

Para além da insuficiência de recursos, um obstáculo menos evidente dificulta a entrada de capital privado nesse mercado: a ausência de critérios comuns para identificar quais investimentos realmente tornam empresas, cidades e infraestruturas mais resistentes aos eventos climáticos extremos.

Em seu artigo, Usher argumenta que a falta de padronização impede que bancos, seguradoras e investidores comparem projetos e reconheçam os benefícios financeiros da adaptação, conjunto de medidas para reduzir os impactos das mudanças climáticas sobre atividades econômicas e populações.

"Em resumo, os investidores ainda têm dificuldades para identificar oportunidades associadas à adaptação climática", afirma Usher, em tradução do artigo original.

A questão ganha relevância à medida que os impactos do aquecimento global se refletem nos balanços das empresas e nas operações do sistema financeiro. Enchentes, secas e tempestades podem interromper cadeias de suprimentos, danificar infraestrutura e reduzir o valor de ativos, enquanto a parcela dos prejuízos não coberta por seguros aumenta a exposição de bancos e investidores ao risco climático.

Apesar desses efeitos, medidas capazes de reduzir perdas futuras ainda encontram dificuldades para receber financiamento.

Por que é tão difícil financiar a adaptação climática?

Uma das principais barreiras está na forma como os benefícios dos projetos são calculados.

Diferentemente da mitigação climática, que busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa e pode utilizar a quantidade de carbono evitada como referência, a adaptação depende das características de cada território, atividade econômica e risco climático.

Uma medida voltada à proteção contra enchentes pode ser necessária em uma região, enquanto outra enfrenta desafios relacionados à seca ou ao aumento das temperaturas.

Essa diversidade dificulta a criação de indicadores comparáveis e a identificação de investimentos elegíveis para financiamento.

Além disso, os projetos de adaptação frequentemente produzem retorno econômico ao evitar prejuízos, e não necessariamente ao gerar novas receitas.

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A construção de barreiras contra enchentes, por exemplo, pode proteger instalações industriais, edifícios comerciais e operações empresariais. Entretanto, os benefícios financeiros dependerão da ocorrência de um evento climático futuro, cuja intensidade e momento são incertos.

Outro problema é que a proteção pode beneficiar empresas e moradores que não participaram do investimento inicial, dificultando a definição de quem deve assumir os custos.

"Ao contrário dos investimentos tradicionais, a adaptação frequentemente gera valor ao evitar perdas, em vez de criar receitas diretas", explica Usher.

Segundo o executivo, parte das empresas já realiza investimentos para aumentar a resiliência de suas operações, mas essas iniciativas raramente são mensuradas ou divulgadas de forma que permita sua avaliação pelas instituições financeiras.

Como consequência, os benefícios econômicos associados à prevenção de danos acabam subestimados nos modelos de risco, nas análises de crédito e nas decisões de investimento.

Na prática, isso significa que projetos capazes de reduzir prejuízos futuros podem enfrentar dificuldades para demonstrar viabilidade financeira, mesmo quando atendem a necessidades concretas de adaptação.

ONU aposta em critérios comuns para atrair capital privado

Para enfrentar esse problema, a UNEP FI e seus parceiros publicaram um guia de taxonomia para financiamento da adaptação climática. A ferramenta busca estabelecer uma linguagem comum para identificar e classificar atividades que contribuem para a resiliência.

A proposta é permitir maior comparação entre projetos de diferentes mercados e facilitar o reconhecimento de iniciativas que podem acessar recursos em condições financeiras favorecidas.

Durante a COP30, realizada em 2025, a UNEP FI também lançou o Investors Resilience Challenge, ou Desafio de Resiliência dos Investidores, em parceria com 15 instituições de financiamento ao desenvolvimento e organizações do setor financeiro.

A iniciativa busca ampliar o financiamento público e privado para adaptação, simplificando a identificação de projetos e a mensuração de seus resultados.

Atualmente, instituições de financiamento ao desenvolvimento utilizam diferentes metodologias para classificar investimentos em adaptação, o que dificulta a comparação entre operações.

A UNEP FI também desenvolveu uma ferramenta para orientar bancos e investidores na avaliação, no acompanhamento e na divulgação dos impactos de projetos relacionados à resiliência climática.

O esforço pretende dar maior visibilidade aos benefícios econômicos de medidas preventivas, especialmente aqueles que não aparecem diretamente como receitas nos balanços financeiros.

A padronização, no entanto, não elimina os demais obstáculos ao financiamento. Projetos de adaptação podem exigir investimentos iniciais elevados e oferecer retornos financeiros incertos ou distribuídos entre diferentes beneficiários, características que limitam sua atratividade para o capital privado.

Recursos cobrem menos de um terço da demanda

Os números mais recentes do Pnuma indicam que a ampliação do financiamento privado, embora necessária, não será suficiente para preencher a lacuna de recursos.

O Adaptation Gap Report 2026 estima que o capital privado poderia reduzir em apenas 15% a 20% a necessidade de financiamento para medidas de adaptação mais associadas ao setor público nos países em desenvolvimento.

Isso ocorre porque parte dos investimentos privados tende a ser direcionada à proteção dos próprios ativos, operações e cadeias de suprimentos das empresas, sem necessariamente financiar infraestrutura e serviços de interesse coletivo.

Ainda assim, os fluxos privados mobilizados por financiamento público internacional dobraram entre 2019 e 2024, passando de US$ 1,5 bilhão para US$ 3 bilhões.

O crescimento ocorre a partir de uma base relativamente pequena e não modifica substancialmente a dimensão do desafio.

Na COP30, os países defenderam esforços para triplicar o financiamento para adaptação até 2035.

Dependendo da referência adotada para calcular essa ampliação, os recursos internacionais poderiam chegar a valores entre US$ 85 bilhões e US$ 120 bilhões por ano.

O Pnuma, porém, alerta que a meta é menos ambiciosa do que pode parecer.

Quando considerada a inflação potencial, as necessidades anuais de adaptação dos países em desenvolvimento podem alcançar US$ 420 bilhões em 2035, ante os US$ 305 bilhões estimados a preços de 2024.

Nesse cenário, mesmo com a triplicação, o financiamento internacional atenderia apenas 20% a 29% da demanda.

A conta não considera a possível contribuição dos orçamentos públicos domésticos, para os quais ainda existem dados limitados.

O relatório também aponta que os fluxos públicos internacionais destinados à adaptação cresceram apenas cerca de US$ 1 bilhão entre 2023 e 2024, permanecendo abaixo do ritmo necessário para atingir a meta do Pacto Climático de Glasgow, de aproximadamente US$ 40 bilhões anuais até 2025.

Embora dados preliminares indiquem crescimento do financiamento dos bancos multilaterais de desenvolvimento em 2025, ainda não é possível determinar se o compromisso foi cumprido.

Países mais vulneráveis precisam investir parcela maior

O desafio de financiar a adaptação é particularmente relevante para os países menos desenvolvidos e os pequenos Estados insulares em desenvolvimento, que enfrentam maior exposição aos impactos climáticos e menor capacidade de mobilizar recursos próprios.

Segundo o Pnuma, essas economias precisarão de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões anuais ao longo da próxima década, dependendo da metodologia utilizada.

Os valores equivalem a aproximadamente 3% a 4% de seu Produto Interno Bruto (PIB), o dobro da necessidade proporcional estimada para países em desenvolvimento de renda média-alta.

A forma como o dinheiro chega também influencia a capacidade de resposta.

Em 2024, quase 90% do financiamento destinado aos países menos desenvolvidos e 80% daquele direcionado aos pequenos Estados insulares ocorreram por meio de doações ou empréstimos altamente concessionais, modalidades que oferecem condições mais favoráveis de pagamento.

No conjunto dos países em desenvolvimento, entretanto, os empréstimos representaram 55% dos recursos recebidos, enquanto as doações corresponderam a 44%.

O relatório aponta ainda o crescimento do crédito sem condições concessionais, que já representa aproximadamente metade dos empréstimos destinados à adaptação.

Esse modelo de financiamento impõe desafios adicionais a economias que enfrentam restrições fiscais e pressões relacionadas ao endividamento.

Ao mesmo tempo, cresce a participação da cooperação entre países em desenvolvimento. Os fluxos financeiros Sul-Sul passaram de US$ 3,8 bilhões em 2019 para US$ 9,6 bilhões em 2024, embora esses valores não sejam contabilizados nas metas de financiamento assumidas pelos países desenvolvidos.

Adaptação também depende de capacidade institucional

O relatório de 2026 destaca que a disponibilidade de recursos, por si só, não garante a implementação de medidas de adaptação.

Governos também precisam desenvolver estruturas institucionais para coordenar projetos, administrar financiamentos, acompanhar resultados e definir responsabilidades.

Entre as medidas analisadas estão a criação de leis climáticas, mecanismos de coordenação entre diferentes setores e órgãos independentes de monitoramento e avaliação.

O documento identifica ainda lacunas importantes na capacidade dos países de registrar e responder às perdas e aos danos relacionados aos eventos climáticos.

Entre 118 países analisados, 89% mencionam perdas e danos em seus compromissos climáticos ou planos nacionais de adaptação. Entretanto, apenas 54% possuem sistemas de informação sobre o tema e 38% contam com estruturas legais específicas.

Os efeitos são desiguais. Entre 2020 e 2025, países de baixa e média renda concentraram 99% das 765 milhões de pessoas registradas como afetadas por enchentes e deslizamentos de terra.

O Pnuma ressalta que esses registros não permitem atribuir integralmente os impactos às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana, mas evidenciam a concentração dos danos em populações mais vulneráveis.

Além dos prejuízos econômicos, o relatório chama atenção para perdas relacionadas à saúde mental, ao patrimônio cultural, à biodiversidade e às relações comunitárias, impactos que frequentemente ficam de fora das avaliações financeiras convencionais.

Na primeira rodada de financiamento do Fundo de Resposta a Perdas e Danos, 119 países em desenvolvimento apresentaram solicitações que somaram US$ 2,8 bilhões. O montante disponível inicialmente era de US$ 342 milhões.

Essas diferenças mostram que nem todos os impactos climáticos podem ser evitados por meio de investimentos em adaptação, especialmente quando os eventos extremos ultrapassam a capacidade de resposta das comunidades e dos sistemas naturais.

Para Usher, o enfrentamento da lacuna de financiamento exige ações simultâneas, desde a identificação de projetos até a cooperação entre instituições públicas e privadas para reduzir os riscos dos investimentos.

"Fechar a lacuna de financiamento da adaptação exige mais do que uma única solução", afirma o chefe da UNEP FI.

A discussão chega à COP31 em meio a compromissos públicos ainda não cumpridos e a uma tentativa do setor financeiro de transformar a prevenção de perdas climáticas em uma categoria de investimento mais facilmente identificável e mensurável.

O desafio permanece especialmente complexo nos projetos cujos benefícios são coletivos e não se convertem em receitas diretas, justamente aqueles em que a necessidade de financiamento público tende a ser maior.

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