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Entenda os mapas do caminho para fósseis e desmatamento apresentados pelo Brasil

Roteiros da presidência da COP30 não têm força de acordo, mas oferecem método e calendário para dois compromissos assumidos em Dubai; documentos serão levados à COP31, na Turquia

Presidência da COP30 apresenta mapas do caminho: documentos propõem medidas para florestas e energia nesta década. (chatgpt/Exame)

Presidência da COP30 apresenta mapas do caminho: documentos propõem medidas para florestas e energia nesta década. (chatgpt/Exame)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 3 de novembro de 2026 às 12h04.

Última atualização em 3 de novembro de 2026 às 12h31.

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A presidência brasileira da COP30 apresentou nesta terça-feira, 3, dois documentos que vinham sendo prometidos desde a conferência de Belém: um mapa do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis e outro para parar e reverter o desmatamento até 2030.

Os dois textos somam 340 páginas e funcionam como manuais reúnem dados, experiências de outros países e sugestões de medidas, sem impor metas a ninguém.

O primeiro teste vem na COP31, que começa em 9 de novembro em Antália, na Turquia, para onde os roteiros serão levados. Entenda o que são, o que propõem e o que mudam para o Brasil.

O que são os mapas do caminho?

São guias de implementação. Partem de dois compromissos que os países aprovaram por consenso na COP28, em Dubai, em 2023, no primeiro balanço global do Acordo de Paris.

O primeiro deles é fazer a transição para longe dos fósseis nos sistemas de energia. O outro, intensificar esforços para parar e reverter o desmatamento até 2030.

O que os documentos tentam responder é como cumprir o que já foi prometido. Ana Toni, CEO da COP30, os definiu como mapas "para a implementação".

E não se trata de acordos. Como foram elaborados pela presidência, e não negociados entre os países, os roteiros não criam compromissos novos nem atribuem metas a cada governo. A presidência brasileira responde sozinha pelo conteúdo.

Por que ficaram fora do acordo de Belém, na COP30?

Durante a COP30, mais de 80 países apoiaram incluir um mapa para os fósseis no texto final, e mais de 90 nações defenderam um roteiro para o desmatamento.

Segundo a presidência, porém, um número semelhante de países resistiu. Como as decisões das COPs só são aprovadas por consenso entre quase 200 partes, a oposição bastou para deixar os dois roteiros fora da Decisão Mutirão, o acordo central de Belém.

Na plenária de encerramento da conferência de Belém, em 22 de novembro de 2025, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, anunciou então que a presidência faria os dois roteiros por conta própria.

Como é o mapa dos fósseis?

O roteiro dos fósseis tem 182 páginas e propõe que cada país faça um diagnóstico de si mesmo antes de agir. O método, chamado Belém Readiness Approach (abordagem de prontidão de Belém, em livre tradução), começa dividindo o problema em três pilares.

O primeiro é a demanda de energia, ou seja, quem consome fósseis. O segundo é a oferta, quem produz. O terceiro é a economia, que mede quanto o PIB, as contas públicas e os empregos dependem desses combustíveis.

Em cada pilar, o país avalia quão exposto está e quanta capacidade tem para fazer a transição, em termos de instituições, dinheiro e tecnologia. O cruzamento das duas respostas o coloca em um de quatro perfis por pilar, 12 no total.

Por exemplo, um país muito exposto e com pouca capacidade enfrenta uma tarefa diferente da de outro pouco exposto e bem equipado. Portanto, para cada perfil o roteiro sugere medidas numa ordem recomendada, além de alavancas básicas válidas para todos.

A avaliação é feita pelo próprio país. O documento não classifica ninguém e diz que os perfis não servem para ranquear países.

O roteiro também propõe um calendário coletivo até 2033, o TAFF Mutirão, dividido em três fases. Até 2028, a prioridade são os planos nacionais, a reforma dos subsídios aos fósseis, o corte de metano e o fim da queima rotineira de gás.

Em 2029 e 2030, o foco passa para eletrificação, renováveis, eficiência, redes e armazenamento. Só entre 2031 e 2033 a redução da produção de fósseis ganha prioridade, à medida que a demanda cai.

As datas acompanham os marcos da ONU, como o segundo balanço global, em 2028, a nova rodada de metas nacionais (as NDCs), em 2030, e o terceiro balanço, em 2033.

Já na primeira fase, o texto aponta ganhos rápidos. Cerca de três quartos das emissões de metano do setor de óleo e gás podem ser evitados com tecnologia que já existe.

Como é o mapa do desmatamento?

O segundo roteiro, de 158 páginas, parte de uma meta que já tem data, a de parar e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. É uma meta global, e não dividida entre países.

Na prática, segundo o documento, significa estabilizar a área total de florestas do planeta até o fim da década.  Os dados da FAO citados no texto dão a dimensão do desafio.

O mundo perdeu, em média, 10,9 milhões de hectares de floresta por ano entre 2015 e 2025, contra 17,6 milhões por ano na década de 1990. E as florestas tropicais, que são cerca de 45% da área florestal do planeta, responderam por 88% do desmatamento entre 1990 e 2025.

O roteiro cobre cinco frentes, que vão da conservação e do manejo sustentável, incluindo agrofloresta e bioeconomia, ao combate à degradação (perda de qualidade da floresta, mesmo sem corte raso) e ao desmatamento, além da restauração. As propostas se dividem em três níveis.

No plano nacional, o documento oferece um roteiro de perguntas em cinco etapas (diagnosticar, alinhar, definir metas, executar, avaliar e ajustar) para que os países incorporem a meta de 2030 aos seus planos e às NDCs.

No internacional, são quatro propostas, entre elas harmonizar o monitoramento entre países, combater crimes ambientais transnacionais e usar regras de comércio para premiar a produção livre de desmatamento.

No financiamento, são dez, que vão de mais espaço para florestas nos mercados de carbono a novos mecanismos para levar recursos diretamente a povos indígenas e comunidades locais.

O dinheiro é o maior gargalo. O financiamento para florestas foi de cerca de US$ 84,5 bilhões em 2023, contra uma necessidade estimada em mais de US$ 300 bilhões por ano até 2030. O documento lembra que a maior parte vem hoje de orçamentos nacionais.

Uma das apostas citadas é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo Brasil em Belém, que paga países por hectare de floresta tropical mantida em pé.

Segundo o roteiro, até outubro sete países e dois investidores privados haviam comprometido cerca de US$ 7,3 bilhões, incluindo US$ 1 bilhão do Brasil, frente a uma meta de US$ 10 bilhões até o fim de 2026. Nenhum pagamento foi feito ainda.

O que muda para o Brasil?

Os roteiros não citam o Brasil como caso a ser avaliado, mas o país, como autor, deve ser um dos primeiros cobrados a aplicá-los.

Para fósseis, o governo ainda elabora seu próprio mapa. Em dezembro de 2025, Lula deu 60 dias a quatro ministérios para propor diretrizes ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). O tema foi pautado para uma reunião do conselho em 2 de setembro.

Ao mesmo tempo, a Petrobras anunciou em 29 de outubro a terceira descoberta de petróleo no poço Morpho, na Foz do Amazonas.

Nas florestas, o país tem resultado para mostrar. Na apresentação, a ex-ministra Marina Silva lembrou que o país chegou à menor taxa de desmatamento já medida. Segundo o Prodes, do Inpe, a Amazônia perdeu 3.335 km² de floresta entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor valor desde o início da série, em 1988, e uma queda de 41,8% em relação ao ano anterior.

O Brasil também comprometeu US$ 1 bilhão com o TFFF. O ministro João Paulo Capobianco destacou ainda uma proposta brasileira, apoiada no âmbito da convenção da ONU contra o crime organizado transnacional, para incluir os crimes ambientais nesse enfrentamento.

O que vem agora?

A COP31 vai de 9 a 20 de novembro, em Antália. A Turquia fica com a presidência formal e a Austrália conduz as negociações. O Brasil passa o comando na abertura.

A presidência da COP30 prevê apresentar o roteiro dos fósseis em Antália no dia 10. Um terceiro documento, sobre como ampliar o financiamento climático para US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, deve ser entregue no dia 8 e apresentado no dia 13.

Os dois roteiros pedem que as próximas presidências, o G20 e as agências da ONU mantenham a conversa aberta até 2028. Nesse ano ocorre o segundo balanço global do Acordo de Paris, a primeira avaliação coletiva desde que os países se comprometeram a se afastar dos fósseis.

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