Parceiro institucional:
Com as políticas climáticas atuais, geleiras de regiões como os Alpes, a Islândia e a Escandinávia podem perder mais de 90% de sua massa de gelo (Freepik)
Repórter de ESG
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 06h00.
Ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global, mesmo que temporariamente, pode provocar perdas irreversíveis de gelo e impactos no abastecimento de água por séculos.
O alerta vem do relatório divulgado na segunda-feira, 2, pela Iniciativa Internacional para o Clima da Criosfera (ICCI), em coordenação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), e ocorre a menos de uma semana da COP31, a grande conferência do clima da ONU, em Antália, na Turquia.
Elaborado por mais de 80 cientistas especializados em regiões polares e montanhosas, a descoberta mostra que o derretimento das geleiras e dos mantos de gelo pode continuar mesmo após uma eventual redução das temperaturas globais, elevando o nível do mar e ameaçando a segurança hídrica.
Em setembro, a ONU já havia alertado que o mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C do Acordo de Paris nos próximos anos e destacou que a prioridade seria reduzir o pico dos termômetros e correr para limitar os danos da crise climática.
Agora, os pesquisadores aprofundam esse cenário ao mostrar que parte das consequências podem ser permanente, mesmo que o planeta volte a esfriar. O documento questiona a ideia de que ultrapassar temporariamente o liminar, chegando a 2°C ou 3°C, seria administrável ou poderia justificar o adiamento de cortes nas emissões de gases de efeito estufa.
Segundo os cientistas, essa possibilidade representa um "mito persistente", já que parte das transformações na criosfera — conjunto de regiões do planeta onde a água permanece congelada, incluindo geleiras, neve, gelo marinho e permafrost — não poderá ser revertida em escalas de tempo relevantes para a humanidade.
James Kirkham, glaciologista da ICCI e principal autor do relatório, afirma que a criosfera está entre os componentes mais sensíveis do sistema climático e que sua deterioração tem consequências para todo o planeta.
Entre os exemplos recentes citados pelo especialista está a avalanche de gelo na fronteira entre o Nepal e a China em 2026, que provocou milhares de mortes e prejuízos estimados em cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nepalês.
Na Suíça, as geleiras perderam aproximadamente 20% de sua massa de gelo nos últimos cinco anos, evidenciando a velocidade das transformações já em curso.
O planeta já aqueceu cerca de 1,3°C em relação aos níveis pré-industriais, e a ciência considera praticamente inevitável que a temperatura global ultrapasse o limite de 1,5°C nos próximos anos.
O fenômeno é conhecido como overshoot, quando o aquecimento supera temporariamente uma meta climática antes de voltar a níveis mais baixos.
O problema, segundo o relatório, é que reduzir a temperatura depois não significa recuperar todo o gelo perdido.
Nas projeções baseadas nas políticas climáticas atuais, que apontam para um aquecimento de aproximadamente 2,8°C, as geleiras das Montanhas Rochosas, dos Alpes, da Islândia e da Escandinávia poderiam ficar com menos de 10% de sua massa de gelo.
Caso o aquecimento seja limitado a 1,5°C, a proporção preservada nessas regiões seria de 20% a 35%, segundo o estudo.
A situação também preocupa na região do Hindu Kush Himalaia, na Ásia, onde as geleiras desempenham um papel fundamental no abastecimento de água de populações que representam quase um quarto da humanidade.
Nesse território, as políticas atuais poderiam reduzir a massa de gelo a 41% dos níveis de referência, enquanto um cenário de redução a 1,5°C permitiria preservar aproximadamente 83%.
Para os cientistas, os resultados mostram que cada fração de grau adicional de aquecimento pode ampliar significativamente as perdas de gelo e seus impactos sobre populações e ecossistemas.
Os efeitos não se limitam às regiões congeladas. Segundo os dados apresentados no relatório, os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida já perdem massa cerca de seis vezes mais rápido do que na década de 1990.
O derretimento contribui para a elevação do nível do mar, aumentando os riscos de inundações, erosão costeira e danos à infraestrutura de cidades próximas ao litoral.
A entrada de grandes volumes de água doce também pode alterar a salinidade e a circulação dos oceanos, com consequências para o clima e a biodiversidade marinha.
Em um cenário de aquecimento próximo de 3°C, os pesquisadores alertam para o descongelamento de quase todo o permafrost próximo à superfície, camada de solo que permanece congelada por longos períodos.
Além de comprometer a estabilidade do terreno, esse processo pode liberar grandes quantidades de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa armazenados no solo, agravando ainda mais as mudanças climáticas em curso.
Nas regiões montanhosas, a perda das geleiras ameaça as chamadas "torres de água" naturais, responsáveis por armazenar gelo e liberar água ao longo do ano. Sua redução pode comprometer o abastecimento hídrico e aumentar os riscos de enchentes e outros desastres associados ao degelo.
Diante desse cenário, o relatório defende que o período acima de 1,5°C seja o mais curto possível, acompanhado de reduções profundas das emissões. Os pesquisadores também destacam a necessidade de ampliar a remoção de carbono da atmosfera para que, no longo prazo, o aquecimento global possa recuar a níveis próximos ou inferiores a 1°C até 2150.