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Em Belém, Lula foi protagonista da COP30; agora leva à Turquia o desafio de manter vivo o compromisso climático (Ricardo Stuckert / PR/Flickr)
Repórter de ESG
Publicado em 29 de outubro de 2026 às 14h30.
Última atualização em 29 de outubro de 2026 às 14h40.
O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai a Antália, na Turquia, para a COP31 no que será o primeiro sinal de continuidade da agenda climática brasileira.
A grande conferência climática acontece de 9 a 20 de novembro e é quando o Brasil passa o bastão da presidência que exerce desde Belém. À frente da COP30, estão o embaixador André Corrêa do Lago, na condução política, e a CEO Ana Toni, na coordenação das ações.
Segundo nota do presidente nacional do PT, Edinho Silva, a viagem deve ocorrer no próximo fim de semana e só depois Lula deve iniciar a montagem da equipe do governo.
“O presidente foi protagonista em todas as COPs organizadas durante os seus mandatos. Para ele é um evento muito importante", afirmou.
A presença de Lula foi anunciada após telefonema com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ainda em agosto. Esta edição é a primeira com um arranjo duplo entre dois países: a Turquia sedia o evento, e a Austrália preside as negociações.
"Erdoğan afirmou acreditar que os dois países poderiam implementar um modelo de cooperação econômica capaz de ampliar a prosperidade de seus povos diante de tendências protecionistas", informou em nota o governo turco, na época.
Na bagagem rumo à Turquia, Lula leva um balanço de avanços e pendências. A COP30 fechou com 56 decisões aprovadas por consenso no chamado Pacote Mutirão.
O que ficou de fora do texto final da Convenção da UNFCCC foram dois movimentos inéditos em uma COP: a promessa de um mapa do caminho para abandonar os combustíveis fósseis e outro pelo fim do desmatamento.
O Brasil os encabeçou como iniciativas paralelas, fora da negociação formal, e conseguiu a contribuição de 115 países e 247 atores não estatais.
É essa saída que o governo quer transformar em legado. Para fechar a gestão, o Brasil deve entregar esses dois documentos e também do relatório do roteiro de Baku a Belém: a primeira atualização do plano para mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático até 2035.
A agenda de florestas já tem um sinal concreto de fôlego. Na segunda-feira, 26, um dia depois da reeleição de Lula, a Holanda anunciou que pretende destinar até US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões), ao longo de dez anos, ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), mecanismo idealizado pelo Brasil para remunerar países que atuem em prol da preservação.
Com a adesão, os compromissos somam US$ 7,8 bilhões, e faltam US$ 2,2 bilhões para o patamar de US$ 10 bilhões exigido até o fim de 2026. A formalização está prevista para a COP31.
Manter essas agendas vivas depois da troca de comando é, segundo a avaliação da própria presidência brasileira, um dos principais desafios. Por isso, o Brasil costura com a futura gestão turca uma estrutura para dar seguimento aos projetos da agenda de ação.
Mas o teste de Lula não termina em Antália: passa por Brasília.. O Congresso que assume em 2027 terá uma composição menos alinhada às pautas de clima e meio ambiente do que a atual legislatura, segundo análise do Observatório do Clima (OC).
O levantamento mostra que 409 dos 594 deputados e senadores, ou 68,9% do total, estão nas faixas de baixa ou muito baixa convergência ambiental.
No Senado, a mudança é mais acentuada. Dos 81 senadores que integrarão a Casa, 64, ou 79%, aparecem nas duas faixas mais baixas do indicador.
Na prática, Lula vai precisar negociar cada passo de uma pauta que ele mesmo trata como prioridade.
No plano de governo, o termo “mudanças climáticas” aparece 38 vezes e é tratado como emergência, que orienta tanto ações internas (obras de infraestrutura resilientes, geração de renda para quem protege florestas e mananciais, ampliação de ferramentas financeiras para cobrir os custos da crise) quanto externas, como o combate ao desmatamento, a valorização dos povos originários e a bioeconomia.
A principal aposta é o desmatamento líquido zero até 2030, meta que combina conter a derrubada com reflorestamento e recomposição de áreas degradadas.
O plano também trata a crise climática como oportunidade econômica: fortalecer a indústria verde nacional, depender menos de insumos externos e fazer do Brasil um exportador de soluções para a transição aproveitando seus potenciais.
Parte do caminho, porém, já está bem trilhado. O Plano Clima reúne oito planos de mitigação, 16 de adaptação e cinco estratégias transversais, e programas como o AdaptaCidades já avançam para aumentar a resiliência nas cidades. É essa base, mais a promessa de uma indústria verde, que Lula terá de defender diante de um Congresso mais hostil.
A COP31 abre uma sequência de compromissos internacionais depois de meses de campanha pelo Brasil. Há ainda a expectativa de que Lula aproveite a viagem para ir às Filipinas, onde o governo avalia sua participação na abertura da cúpula da Asean, também em novembro.
Em dezembro, estão previstas a Cúpula do Mercosul, em Montevidéu, no dia 4, e a do G20, em Miami, no dia 14, que será o primeiro encontro com Donald Trump após a reeleição.