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A diplomacia circular é uma perspectiva para aqueles que ainda acreditam na transição (Freepik)
Redação Exame
Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 11h00.
Última atualização em 8 de fevereiro de 2026 às 11h14.
*Por Beatriz Luz
Sabemos que a diplomacia é, em grande parte, uma habilidade desenvolvida para possibilitar o diálogo pacífico entre nações e pessoas com interesses distintos.
No entanto, os acontecimentos deste início de 2026 nos alertam sobre graves rupturas na ordem global e no fazer diplomático, colocando à prova não só o multilateralismo, mas também o compromisso urgente com pautas climáticas, ambientais e sociais.
Precisamos de uma diplomacia que seja circular, em um momento que traz à tona egos, disputas e jogos de poder lineares, insustentáveis no longo prazo.
O século XXI nos confronta com desafios que não reconhecem fronteiras: da escassez de recursos aos eventos climáticos extremos, das desigualdades às disputas que comprometem o nosso senso de humanidade, estamos vendo rupturas que ameaçam a ética, a justiça, as relações e o tecido civilizatório.
No Relatório de Riscos Globais 2026, do Fórum Econômico Mundial, os conflitos geoeconômicos figuram como o maior risco mundial da atualidade. E, assim, a perspectiva coletiva de combate às mudanças climáticas fica, novamente, para depois.
Soa quase ingênuo escrever sobre uma nova forma de diplomacia, em que a reciprocidade substitui a defesa de interesses de nações e a colaboração prevalece sobre a competição.
Principalmente agora, quando o tradicional encontro de lideranças globais em Davos virou palco para ameaças e confrontos, deixando a agenda de sustentabilidade e integração às margens do encontro. Enquanto, da Venezuela à Groenlândia, vemos a ordem multilateral que conhecemos padecer.
A diplomacia circular é uma perspectiva para aqueles que ainda acreditam na transição — seja um país, um governo, um líder, uma empresa, uma organização, um grupo, um indivíduo.
É algo que exige cooperação estruturada em vez de competição predatória, a fim de sair de uma lógica linear, baseada em um olhar pontual de escassez e disputa, para uma lógica circular, fundamentada em uma fronteira de análise ampliada, com corresponsabilidade e novas contas de investimento e retorno.
A corrida por recursos estratégicos, o domínio sobre o petróleo, os tarifaços, entre tantas outras posturas baseadas em ameaças, noção de superioridade e uso da força, são condutas "lineares".
E, assim como acontece no modelo linear de produção e consumo, uma hora causa esgotamento.
Ou sucumbimos à desesperança e ao terror geopolítico, ou resistimos juntos, trazendo novas práticas, posturas e valores para a discussão.
A diplomacia circular propõe uma alternativa a esse ganha-perde, sendo um caminho com novos arranjos comerciais, reciprocidade, modelos viáveis para ganho de escala, desenvolvimento tecnológico que aproxima a ciência do mercado, hubs que unem diferentes setores e um equilíbrio possível entre acordos Norte-Sul.
A vida do planeta e das pessoas deve estar no centro da discussão, demandando um redesenho completo do sistema produtivo e dos modelos de competitividade.
Uma nova bússola precisa guiar a tomada de decisão de empresas, governos e países, na qual a colaboração não é escolha; é condição de sobrevivência.
O Brasil das riquezas naturais, da diversidade sociocultural, da criatividade, do diálogo e da mobilização é o Brasil que pode tomar essa frente.
Um Brasil que não se resume à política, mas que sabe o valor do seu coletivo.
Na COP30, o embaixador André Corrêa do Lago reforçou bastante que herdamos de etnias indígenas o conceito de mutirão ("motirõ", em tupi-guarani) — um pacto comunitário em que todos se unem para construir, colher e cuidar uns dos outros.
Se está difícil debater diplomacia, oferecer o recurso da diplomacia circular soa ainda mais subversivo dentro do atual contexto global.
E talvez esteja aí a sua importância, como ferramenta crucial em tempos bárbaros.
Temos grande potencial de produzir soluções para um mundo melhor. Este é o momento ideal para compartilhar informações, inovações, incentivos e colaboração, de modo a permitir a construção de um novo posicionamento politicamente viável e economicamente possível.
Um basta à linearidade predatória dos egocentristas.
Que esteja mais viva do que nunca, em nossas ações e pensamentos, a essência resiliente, colaborativa e transformadora da circularidade.
*Beatriz Luz é presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular