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A culpa não é da chuva: desastre climático em Minas Gerais expõe o gargalo da adaptação no Brasil

Chuvas históricas deixaram ao menos 68 mortos em Juiz de Fora e Ubá e mantêm Minas, SP e Rio em alerta; Para especialistas, a nova realidade climática escancara falhas no planejamento urbano

Juíz de Fora registrou o maior volume de precipitação em 40 anos, com alagamentos generalizados, deslizamentos de encostas e bairros inteiros isolados (Ivan PISARENKO/AFP/Getty Images)

Juíz de Fora registrou o maior volume de precipitação em 40 anos, com alagamentos generalizados, deslizamentos de encostas e bairros inteiros isolados (Ivan PISARENKO/AFP/Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 10h00.

Última atualização em 28 de fevereiro de 2026 às 13h25.

“Não é tragédia, é omissão de planejamento”, destacou o Observatório do Clima após as chuvas históricas em Minas Gerais deixarem ao menos 68 mortos em Juiz de Fora e Ubá e manterem a região em alerta para novos temporais ao longo do fim de semana.

A declaração sintetiza o que documentos técnicos, a ciência e as decisões orçamentárias revelam sobre o pior desastre registrado em Juiz de Fora em quatro décadas.

A cidade, maior município da Zona da Mata mineira e polo regional, foi atingida por volumes recordes de chuva desde a noite de segunda-feira, 23, com impactos que escancararam fragilidades históricas na adaptação climática das cidades brasileiras.

O desastre ocorre em meio a um cenário de alerta extremo em vários estados. Até domingo, 1, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu aviso vermelho de “grande perigo” para acumulado de chuvas em Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, com previsão de mais de 100 milímetros por dia e alto risco de alagamentos e deslizamentos.

Em São Paulo, Ubatuba, no litoral norte, concentra os maiores impactos. No Rio de Janeiro, as áreas mais críticas são Guaratiba, na capital, e Paraty, no sul fluminense.

Desde o início da semana, Juiz de Fora enfrentou um volume excepcional de chuvas. Em apenas três dias, entre 22 e 24 de fevereiro, caíram 229 milímetros, acima da média mensal.

No acumulado do mês, o volume chegou a 579 milímetros, tornando fevereiro de 2026 o mais chuvoso da história local, segundo o Inmet.

O rio Paraibuna, que corta a cidade, ultrapassou em quatro metros sua cota habitual, e a Avenida Rio Branco, principal via urbana, ficou completamente tomada pela água.

Encostas cederam, casas desmoronaram, bairros inteiros foram isolados e centenas de famílias perderam tudo.

Mesmo diante desse cenário dramático, os dados mostram que a tragédia anunciada estava longe de ser imprevisível.

“Dizer que essa chuva não estava sendo prevista é um equívoco. Os relatórios do IPCC alertam há anos para a intensificação de eventos extremos, e Juiz de Fora convive há décadas com alagamentos”, afirma à EXAME, o geógrafo Adriano Liziero.

E deixa claro: “A culpa não é da chuva, é da falta de adaptação e de um modelo urbano que empurra os mais pobres para áreas de risco".

Liuca Yonaha, VP do Instituto Talanoa, diz que os episódios escancaram a dificuldade de transformar dados científicos, alertas técnicos e previsões em políticas públicas estruturantes de adaptação climática.

“O subfinanciamento da adaptação aparece quando percebemos que foram destinados menos recursos aos sistemas de alerta, prevenção e preparação das cidades", destacou à EXAME.

Mas a especialista reforça que adaptar não se resume a isso: envolve também preparar a infraestrutura física, os serviços essenciais e a capacidade institucional para responder antes, durante e depois dos eventos extremos. 

Risco mapeado, desastre anunciado

Levantamentos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que as autoridades já tinham conhecimento claro e detalhado dos riscos extremos de deslizamentos, enxurradas e inundações em Juiz de Fora. 

Em 2023, o órgão produziu um amplo mapeamento para identificar os municípios brasileiros mais suscetíveis a desastres associados às chuvas, com o objetivo de orientar investimentos prioritários do governo federal via Novo PAC, com foco em obras de mitigação, prevenção e preparação das cidades.

O diagnóstico revelou um Brasil altamente vulnerável: 1.942 municípios tinham populações vivendo em áreas de risco, somando 8,9 milhões de pessoas, o equivalente a 6% da população brasileira.

Nesse ranking, Juiz de Fora aparece como a 9ª cidade do país com mais moradores em áreas de risco: cerca de 129 mil pessoas ou quase um quarto da população local.

Ubá, também duramente atingida pelas chuvas, tinha 7,4 mil moradores vivendo em áreas de risco.

Gargalos na prevenção

Apesar desse histórico, os recursos públicos destinados à prevenção caminharam na direção oposta.

Sob a gestão do governador Romeu Zema (Novo), o investimento estadual em ações de mitigação e prevenção contra os impactos das chuvas despencou 96%, frisou uma análise do Instituto Talanoa.

O valor caiu de R$ 135 milhões em 2023 para apenas R$ 6 milhões em 2025, conforme dados do Portal da Transparência de Minas Gerais.

A retração também aparece nos valores efetivamente pagos: em 2024, o Estado desembolsou R$ 41,1 milhões em ações de combate e resposta aos danos provocados pelas chuvas.

Em 2025, esse montante despencou para R$ 5,8 milhões: uma redução superior a 85%, em um momento de intensificação dos eventos climáticos extremos.

Para o Observatório do Clima, o efeito dessa escolha orçamentária é direto: "explicita, uma vez mais, o que ocorre quando governos não investem em adaptação aos efeitos severos das mudanças climáticas.

++ Leia mais: Desastres climáticos no Brasil crescem 2,5 vezes em quatro anos, aponta estudo

Segregação socioespacial: o desastre é também social

Além do déficit estrutural de planejamento e investimento, o que aconteceu em Minas Gerais expõe uma face recorrente dos desastres climáticos no Brasil: a desigualdade e (in)justiça climática.

Para Adriano, também especialista em riscos socioambientais, não se tratam de desastres naturais, mas sim de um "desastre social, produzido pela forma como ocupamos o espaço urbano e empurramos a população mais pobre para áreas de risco”, afirma.

Ele reforça que a própria geografia da Zona da Mata, marcada por morros e encostas íngremes, combinada à ocupação desordenada e à retirada da vegetação, cria um ambiente altamente suscetível a deslizamentos.

“A água passa a escoar com muito mais velocidade, intensifica os processos erosivos e facilita os deslizamentos. São áreas ocupadas por moradias, onde vivem populações vulneráveis, que acabam perdendo tudo", explica.

Segundo o geógrafo, as cidades brasileiras reproduzem historicamente um padrão de segregação socioespacial, no qual a população de menor renda é empurrada para áreas ambientalmente frágeis, enquanto regiões mais seguras concentram infraestrutura e investimentos.

“Quando olhamos quem perde tudo, são quase sempre os mais pobres. É um retrato claro da desigualdade urbana no Brasil”, ressalta.

A lacuna da adaptação

Na prática, a adaptação climática exige três frentes simultâneas, explica o Instituto Talanoa: infraestrutura resiliente, capaz de suportar eventos extremos; capacidade institucional para resposta rápida e eficiente; e aprendizado contínuo após cada desastre.

Sem isso, a resposta chega sempre tarde, quando o cenário já é de perdas humanas, sociais e econômicas.

Dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), classificam Juiz de Fora e Ubá como municípios com capacidade adaptativa muito alta, considerando renda, governança, gestão de riscos e políticas públicas. Na prática, porém, esse potencial não se traduz em medidas de proteção real da população.

Nesse contexto, o programa federal AdaptaCidades, voltado ao fortalecimento institucional dos municípios, é visto como um avanço.

No entanto, entraves burocráticos e políticos limitaram sua adesão, e a lista final, que será atualizada apenas em abril, não inclui municípios como Juiz de Fora, Ubá ou Matias Barbosa.

O custo da inação

Especialistas são unânimes: a adaptação climática é uma necessidade econômica, social e humanitária.

Um estudo inédito do BCG e WEF divulgado em 2025 apontou que desastres climáticos já causaram mais de US$ 3,6 trilhões (cerca de R$ 21 trilhões) em prejuízos. Além disso, as mudanças climáticas podem reduzir PIB global em 22% até 2100.

Sem planejamento urbano, infraestrutura resiliente e investimento contínuo em prevenção, cidades, empresas, serviços públicos e cadeias produtivas estão vulneráveis aos impactos da nova realidade do clima, ampliando prejuízos bilionários, desigualdades e perdas humanas.

Juiz de Fora não é exceção, e sim o retrato de um país que já dispõe de políticas, dados, tecnologia, ciência e sistemas de alerta, mas ainda caminha lentamente em ações concretas frente à crise do clima.

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