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A democracia em uma voz diferente

"Em um país majoritariamente formado por mulheres, no último mês apenas 91 representantes foram eleitas a deputadas federais, compondo 17,7% do total de 513 parlamentares", escreve Daniela Grelin, diretora do Instituto Avon

Daniela Grelin: "Recuperar e integrar, portanto, a voz das mulheres é resgatar a dignidade da atividade política em um contexto em que ela se tornou, não mais uma arena de debate, mas um pugilato em que nenhuma voz é ouvida, pois não há escuta e, portanto, não há diálogo" (PeopleImages/Getty Images)

Daniela Grelin: "Recuperar e integrar, portanto, a voz das mulheres é resgatar a dignidade da atividade política em um contexto em que ela se tornou, não mais uma arena de debate, mas um pugilato em que nenhuma voz é ouvida, pois não há escuta e, portanto, não há diálogo" (PeopleImages/Getty Images)

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Por Daniela Grelin*

28 de novembro de 2022, 08h01

“Tanto o amor quanto a democracia dependem da voz – ter uma voz e também a ressonância que torna possível falar e ser ouvido”, Carol Gilligan.

 

Em seu livro ‘In a Different Voice’, Carol Gilligan, psicóloga e professora da New York University, argumenta que incluir a voz das mulheres na conversa sobre o desenvolvimento humano mudaria o tom e o teor do diálogo, ao integrar a perspectiva das pessoas que detêm pelo menos 50% da experiência. Parece uma obviedade, certo?

Chegamos a acreditar, ou tomar como certo, que as ciências humanas sempre partiram da observação tanto de homens quanto de mulheres, com igual ênfase e ampla perspectiva. Surpreendentemente, no entanto, um exame mais profundo pela mesma autora da metodologia de importantes estudos sobre as teorias de desenvolvimento moral[1] demonstrou que as pessoas do sexo feminino estavam quase sempre ausentes das amostras observadas. Esta ausência consistente da perspectiva feminina que levou ao desenvolvimento de múltiplas teorias que vieram a se tornar a norma do que passamos a conhecer como o desenvolvimento moral do ser humano. O mesmo pode ser dito sobre diferentes disciplinas das ciências humanas, cooperando para um silenciamento tácito das vozes e experiências femininas.

O resulto foi a consolidação gradativa do que sabemos sobre os homens como a norma, enquanto a observação e conhecimento sobre as mulheres foi se constituindo como o desvio da norma, muitas vezes classificada na conta do mistério ou do ‘continente obscuro’ do feminino.

A questão é que ao tornar as experiências masculinas como representativas de 100% da experiência humana, eliminamos ou pelo menos enfraquecemos algumas de suas dimensões essenciais. Cabe perguntar: quais seriam as perspectivas ausentes ou silenciadas? As perdas são múltiplas, mas o aspecto que pretendo destacar é justamente aquele que constitui o prisma estruturante na formação moral da mulher: os relacionamentos. Ao excluir da conversa a voz  feminina, ou a sua escuta, excluímos a ênfase nos relacionamentos, ao mesmo tempo um elemento central da formação moral da mulher, mas também a arena da atividade política. Ora, é justamente no ‘espaço entre’, segundo Hanna Arendt, ou seja, na dimensão dos relacionamentos, da coletividade, pressupondo nossa pluralidade e equidade, que forjamos nossa liberdade e nossas fronteiras ao decidir juntos como prosseguir.

Recuperar e integrar, portanto, a voz das mulheres é resgatar a dignidade da atividade política em um contexto em que ela se tornou, não mais uma arena de debate, mas um pugilato em que nenhuma voz é ouvida, pois não há escuta e, portanto, não há diálogo. Falar e ser ouvido(a), são atividades definidoras da nossa humanidade, arte e ciência que tem se deteriorado à medida em que são substituídas pelo ruído das fake news, o ataque à pessoa e o medo generalizado.

Será que os resultados da última eleição nos sinalizam um resgate da voz das brasileiras? A julgar pelos números, não na medida e na velocidade que desejaríamos. Em um país majoritariamente formado por mulheres, no último mês apenas 91 representantes foram eleitas a deputadas federais, compondo 17,7% do total de 513 parlamentares.

Outra grande plataforma de formação cultural e engajamento coletivo, especialmente no Brasil, nos aguarda com a Copa do Mundo de Futebol. No esporte-paixão, como na política-religião, a participação das mulheres ainda é minoritária e permeada por diferentes formas de ataques e violências, mas vem incluindo de forma gradativa a voz de pioneiras, como árbitras, comentaristas e jogadoras. Nas arquibancadas, bares, salas e quartos em que os brasileiros torcem, vibram e reagem, os jogos costumam ser um deflagrador de episódios de violência contra as brasileiras, como demonstra a pesquisa ‘Violência contra a Mulher e o Futebol’, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Avon, apontando o aumento de 25,9% no registro de B.O. de lesão corporal nos dias de jogos do Campeonato Brasileiro[2].

O desafio à frente, seja no resgate da arte da retórica, da dignidade na política ou do efeito agregador no futebol, está em integrarmos as vozes dissonantes. Para que sejam ouvidas, é necessário que estejam presentes, que ouçam e sejam ouvidas, em seu timbre, volume e ritmos plurais, em sua humanidade essencial.


[1] In a different voice: Psychological theory and women's development.

*Daniela Grelin, é diretora do Instituto Avon