Economia

E se a alta de juros aumentar ao invés de conter a inflação?

Economistas alertam que Brasil está sob dominância fiscal, quando gastos fogem do controle e aumento de juros alimenta ao invés de combater a inflação


	Dinheiro preso: sob dominância fiscal, controle da inflação fica complicado
 (Marcos Santos/USP Imagens)

Dinheiro preso: sob dominância fiscal, controle da inflação fica complicado (Marcos Santos/USP Imagens)

João Pedro Caleiro

João Pedro Caleiro

Publicado em 14 de janeiro de 2016 às 14h35.

São Paulo - Já há evidências de que o Brasil esteja em situação de dominância fiscal, diz um relatório do banco inglês Barclays lançado no início da semana.

Dominância fiscal é quando "o Estado não consegue gerar receita suficientes para financiar seus gastos. Nesse caso, é necessário imprimir papel. A receita da impressão do papel, chamada de senhoriagem, fecha a conta", na definição do economista Samuel Pessôa.

Em outras palavras, é quando a política fiscal está tão fora de controle que, no limite, neutraliza a ação da política monetária. Neste caso, o aumento de juros pelo Banco Central pode não apenas desancorar as expectativas de inflaçãomas até piorá-las.

"Se os participantes do mercado percebem a monetização da dívida como um risco verdadeiro, as expectativas de inflação tendem a ser conduzidas principalmente pelas considerações fiscais, até porque juros mais altos pioram o resultado fiscal", diz o relatório assinado por Andres Jaime Martinez, Juan Prada e Bruno Rovai.

O setor público registrou déficit primário de R$ 39,5 bilhões de janeiro a novembro de 2015 (ou 0,73% do PIB), enquanto o déficit nominal, que também inclui o pagamento de juros, foi de R$ 549 bilhões nos 12 meses até novembro (ou impressionantes 9,3% do PIB).

Já a inflação fechou 2015 em 10,67%, maior taxa desde 2002, e a previsão do Boletim Focus é que ela encerre 2016 em 6,93% (ainda acima do teto da meta) e 2017 em 5,20% (ainda acima do centro).

Expectativas

Estas projeções não param de piorar, mostrando que o mercado desconfia do sucesso do ajuste fiscal e da convergência da inflação para o centro da meta em um futuro próximo.

O Banco Central discorda: "É importante ter claro que o Brasil não está numa situação de dominância fiscal", disse em meados de dezembro seu presidente, Alexandre Tombini.

O debate começou na segunda metade de 2015, na medida em que o aprofundamento da recessão piorava as expectativas de arrecadação e a crise política dificultava cada vez mais soluções como corte de gastos e altas de impostos.

O alerta da dominância fiscal veio de economistas de linhas muito diferentes como o heterodoxo Luiz Gonzaga Belluzzo, o ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore, e Monica de Bolle, do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Para EXAME.com, o economista Fábio Giambiagi diz que apesar de não ter uma posição "categórica" sobre o assunto, não acredita que o país tenha chegado ao cenário de dominância fiscal, ainda que esteja muito mais próximo dele do que antes.

No curto prazo, o diagnóstico importa porque vai definir até que ponto chega a alta de juros pelo Banco Central, que realiza seu primeiro encontro do ano na semana que vem.

O mercado aposta em três altas consecutivas, levando a Selic dos atuais 14,25% para 15,5% em abril, enquanto o Barclays duvida:

"O BC vai entregar altas meramente simbólicas, na melhor das hipóteses, já que o aperto monetário não apenas se tornou menos efetivo mas também agrava as dinâmicas negativas da dominância fiscal sobre o crescimento e a própria inflação".

Veja na íntegra um debate realizado em novembro no Insper sobre o tema:

yt thumbnail
Acompanhe tudo sobre:Ajuste fiscalBanco Centralbancos-de-investimentoBarclaysEmpresasEmpresas inglesasInflaçãoJurosMercado financeiroPolítica fiscal

Mais de Economia

Governo sobe previsão de déficit de 2024 para R$ 28,8 bi, com gastos de INSS e BPC acima do previsto

Lula afirma ter interesse em conversar com China sobre projeto Novas Rotas da Seda

Lula diz que ainda vai decidir nome de sucessor de Campos Neto para o BC

Banco Central aprimora regras de segurança do Pix; veja o que muda

Mais na Exame