Economia

Banco Central muda comunicado e sinaliza para corte da Selic em março

Copom sinaliza início da flexibilização monetária em março, mas reforça tom cauteloso diante da inflação desancorada e mercado de trabalho resiliente

BC: sinalização clara de início da flexibilização surpreendeu o mercado  (Arthur Menescal/Bloomberg/Getty Images)

BC: sinalização clara de início da flexibilização surpreendeu o mercado (Arthur Menescal/Bloomberg/Getty Images)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 06h00.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano pela quinta vez consecutiva.

A decisão, amplamente antecipada pelo mercado, veio acompanhada de uma mudança relevante na comunicação oficial: a sinalização de que o ciclo de cortes pode começar já em março, caso o cenário siga conforme esperado pelo

Para os analistas ouvidos pela EXAME, a principal novidade do comunicado foi a retirada da menção à necessidade de uma política monetária “significativamente contracionista por um período prolongado” — uma frase que havia sido mantida nas últimas decisões e indicava resistência à ideia de flexibilização no curto prazo.

Ao suprimir esse trecho, o Banco Central abre espaço para uma transição gradual, mas ainda cautelosa, rumo à redução da Selic. A maioria dos economistas esperam um corte de 0,25 ponto da Selic na próxima reunião.

A leitura predominante entre os economistas é de que o BC adotou um tom mais dovish, termo usado para indicar uma postura mais favorável a cortes de juros.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, afirmou que a sinalização foi mais firme do que o mercado esperava, ainda que o diagnóstico macroeconômico não tenha mudado significativamente desde a última reunião.

“O Banco Central deu um passo além. Mesmo com inflação corrente indicando alívio, os riscos seguem presentes”, disse.

Segundo José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, a mudança de tom indica que a autoridade monetária ganhou confiança na efetividade da política atual e vê espaço para reduzir os juros. No entanto, ele pondera que o mercado de trabalho ainda aquecido e a desancoragem das expectativas de inflação para 2026 e 2027 justificam a manutenção do viés contracionista, ainda que menos intenso.

Natalie Victal, da SulAmérica Investimentos, destaca que o Copom reconheceu o cenário-base para corte em março e projetou inflação de 3,2% no horizonte relevante. A economista acredita que há espaço para uma redução de até 50 pontos-base, a depender da combinação entre câmbio, atividade e comportamento dos núcleos inflacionários.

Andrea Bastos, CEO e economista da Buysudebrazil, avalia que o tom foi mais dovish do que nas comunicações anteriores, principalmente pela retirada de expressões como “período bastante prolongado” e “não hesitaremos em retomar o ciclo de alta”.

Para ela, a inclusão da palavra “serenidade” sugere um início de corte mais brando, possivelmente de 25 pontos-base.

“O BC mostra maior confiança no arrefecimento da inflação subjacente, mas segue atento ao cenário geopolítico e aos efeitos sobre a inflação doméstica”, afirmou.

Já Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, aponta que o Banco Central optou por não se comprometer com a magnitude total do ciclo, mantendo margem de manobra diante de incertezas fiscais e da volatilidade cambial. Ela estima que a Selic pode terminar 2026 em 12,5%, com cortes acumulados de até 2,5 pontos percentuais ao longo do ano.

BC adota cautela, mas dá início à transição

A manutenção da Selic em 15% representa a continuidade de uma política monetária ainda restritiva. No entanto, o discurso do Copom passou a enfatizar a possibilidade de transição para um ciclo de cortes em breve, caso os sinais de desinflação se mantenham e o cenário externo não piore.

Apesar da mudança de tom, o Banco Central reforçou a necessidade de “serenidade” no ritmo e na magnitude da flexibilização, destacando os riscos de inflação derivados da resiliência do setor de serviços e da inércia inflacionária ainda presente em alguns núcleos. A preocupação com o horizonte de expectativas — especialmente as de 2026 e 2027, que seguem acima da meta — também foi reiterada.

Entre os riscos monitorados pelo Copom, estão o quadro fiscal doméstico, que pode ganhar maior relevância diante de medidas como a isenção de Imposto de Renda prevista para 2026, e o ambiente geopolítico global com os Estados Unidos, que pode afetar o câmbio e a inflação de forma indireta.

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