As pedras no sapato da Argentina com Macri: preços e emprego

Há quase nove meses no poder, o presidente enfrenta dificuldades para retomar o crescimento econômico e vê sua popularidade ceder

São Paulo – O que você faria se de um mês para o outro sua conta de luz aumentasse 14 vezes e o preço da carne dobrasse?

Esse é a realidade dos argentinos desde que Maurício Macri assumiu a presidência do país, em dezembro de 2015.

No mês seguinte, ele deu início a uma retirada de subsídios nas contas de água, luz e gás, que dispararam. O aumento só não foi aplicado à parcela mais pobre da população e aos dois milhões de aposentados.

A medida repentina não foi exatamente uma surpresa, mas 80% dos argentinos preferiam uma mudança mais gradual, segundo pesquisa feita pela consultoria Giacobbe.

Para completar, a liberação da cotação do peso fez a moeda desvalorizar 40% em relação ao dólar, ajudando a levar a inflação anual para perto de 40%.

Agora, depois de quase nove meses de governo, a sua popularidade está abalada. Quando eleito, ele tinha quase 70% de aprovação, hoje esse número está em torno de 60%, segundo o jornal argentino "La Nación".

“O tarifaço de Macri nada mais é do que uma tentativa de recompor a capacidade de arrecadação do estado. Equivocadamente, alguns governos acreditam que estimulando apenas o consumo das famílias, o país irá crescer. O kirchnerismo (2003-2007) fez isso e Macri precisou recuperar o atraso nos impostos de uma forma muito bruta e rápida”, explica o professor de MBA do Insper, Otto Nogami.

Cresce imposto, cai consumo

Somada com uma economia que cresceu apenas 2,2% em 2015, a alta  dos serviços básicos e do custo de vida fizeram as famílias mudarem seus hábitos.

Depois que a média dos aumentos chegou a 700%, a proporção de argentinos que reduziram o consumo de água, luz e gás chegou a 70,7%, segundo a Giacobbe.

O poder de compra também caiu. Em junho o consumo caiu 6,4% e o gasto médio por compra, 26,3%, em relação ao mesmo período do ano passado.

O desafio do desemprego e da pobreza

Uma das pedras no sapato de Macri é o desemprego. No terceiro trimestre de 2015, a população economicamente ativa era composta por 16,8 mi de trabalhadores e pouco mais de 1,3 mi de desempregados. Só nos dois primeiros meses de Macri no poder, 107 mil pessoas perderam o emprego.

E pior: não dá nem para saber se os dados são confiáveis, já que o país enfrenta um grave problemas com os órgãos que medem os números econômicos.

“No governo Kirchner foram desmontadas as instituições que mediam inflação, pobreza e desemprego. Isso fez com que os dados divulgados não fossem confiáveis, muito menos reais”, relembra o professor de economia internacional da FEA-USP, Paulo Feldmann.

No começo desse mês o governo admitiu que nos primeiros 5 meses do ano foram fechados 52 mil postos de trabalho só no setor privado. Desde o início da gestão de Macri, os sindicatos já contabilizam quase 200 mil demissões.

Isso também impactou na pobreza, que atingiu, no primeiro trimestre de 2016, 1,4 milhão de pessoas, aumento de 34,5% em comparação com o mesmo período de 2015, segundo Observatório Social da Pontifícia Universidade Católica da Argentina (UCA).

Um presidente popular, mas não populista

A campanha de Macri gerou uma grande expectativa com seu discurso de abandonar práticas populistas e fazer um governo mais alinhado com a vontade do mercado, aumentando a competitividade da economia.

Na teoria, a proposta encanta – especialmente aos empresários – mas isso não exime o país de enfrentar alguns desafios estruturais e históricos.

Na opinião de Feldmann, o principal deles é retomar a indústria argentina.

 “Não há outra saída econômica. A capacidade industrial do país é baixíssima e hoje eles dependem totalmente de exportação de commodities do setor agrícola, e isso é perigoso porque o preço desses produtos desabou. A Argentina não tem o que vender”.

Na visão de Nogami, o governo precisa principalmente retomar a conversação com os investidores internacionais e reviver a confiança deles na economia do país.

A volta do crescimento

A grande dúvida, da Argentina e de seus parceiros, é saber quando a economia voltará a dar sinais de crescimento.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta para 2017 um crescimento de 2,8% após queda de 1,5% neste ano.

Já os economistas se divergem. Para Feldmann, é difícil dar uma data, já que a principal compradora de produtos da Argentina é o Brasil, que também enfrenta uma crise sem perspectiva de melhorar tão cedo.

“Não vejo um cenário bom nem em 2017. Macri enfrenta problemas muito graves que não serão resolvidos em curto prazo. Não será no ano que vem que o preço das commodities subirá. Uma projeção positiva só virá quando a economia mundial melhorar”, completa.

Nagami consegue projetar uma melhora talvez ainda para este ano. “O próprio resgate da confiança, que deve acontecer em breve, fará com que o empresário local se sinta estimulado em realizar pequenos investimentos e isso aumentará o consumo e o emprego”.

O economista sinaliza que Macri precisa ajudar a resgatar o Mercosul, que atualmente perdeu o controle de seu papel comercial, para contribuir na retomada do crescimento.

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