Petróleo: prisão de Maduro deve ter impacto no curto prazo nos preços do petróleo (Bloomberg/Bloomberg)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 13h45.
A operação conduzida pelo governo do presidente americano Donald Trump na Venezuela, que resultou na captura e prisão de Nicolás Maduro, deve impactar os preços do petróleo no curto prazo, avaliam analistas ouvidos pela EXAME.
Na primeira sessão de 2026, realizada na sexta-feira, 2, o barril do petróleo Brent — referência internacional — caiu 0,16% e fechou a US$ 60,75.
“A situação política na Venezuela sem dúvida causa, ao menos no curto prazo, uma pressão altista nos preços do petróleo”, afirma Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP).
Hoje, a Venezuela lidera o ranking global de reservas provadas de petróleo, com cerca de 303 bilhões de barris — o equivalente a 17% do total mundial.
Apesar disso, o país produz cerca de 700 mil barris por dia e não figura entre os dez maiores produtores do mundo. A Venezuela integra a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Ardenghy afirma que o cenário atual gera insegurança para o mercado internacional de petróleo.
"O fato de ser membro fundador da Opep e contar com reservas gigantescas de petróleo, tidas como as maiores do mundo, adicionam a esta situação geopolítica uma situação de insegurança para o mercado mundial do petróleo", diz.
Na mesma linha, Sergio Araújo, presidente executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), afirma que o setor é muito sensível a eventos geopolíticos e marcado pela especulação e, por isso, haverá movimento nos preços no curto prazo.
“Há muita indefinição ainda, mas a expectativa é de um leve aumento nos preços assim que o mercado abrir na Ásia”, diz Araújo.
Ele avalia ainda que esse impacto inicial deve durar até três dias, até que haja maior clareza sobre a situação política na Venezuela.
“A Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, mas sua participação na comercialização global é baixa. Representa pouco menos de 1% de todo o petróleo negociado no mundo. Então, não há justificativa para grandes impactos nos preços globais”, afirma.
Durante coletiva no sábado, Trump afirmou que os EUA têm grande interesse no petróleo venezuelano e prometeu reativar a infraestrutura do setor no país, danificada após anos de sanções.
O presidente disse que as empresas americanas voltarão a operar na Venezuela, com investimentos em equipamentos e tecnologia.
Questionado se manteria as exportações de petróleo venezuelano, Trump respondeu que sim, e que o volume será ampliado.
Fontes ouvidas pelo portal Politico afirmaram que o governo americano oferece às companhias petrolíferas a recuperação de ativos confiscados em troca de investimentos no setor.
Ardenghy afirma que a volta das petroleiras americanas ao país levará tempo para gerar efeito no mercado.
“Mesmo com aportes pesados, pode demorar anos, considerando o sucateamento da indústria venezuelana”, diz o presidente do IBP.
Atualmente, a Chevron é a única grande companhia americana com operações ativas na Venezuela.
Dan Kawa, economista e especialista em fundos de investimentos, avaliou em análise publicada em seu perfil no X que o controle do setor de petróleo venezuelano pelos EUA pode resultar em mais oferta estrutural do óleo ao mercado global, o que pode resultar em um viés de queda nos preços no médio prazo.
"Ao reduzir riscos políticos, sanções e interrupções recorrentes, parte do prêmio geopolítico embutido no preço do petróleo tende a ser comprimida, com efeito desinflacionário marginal e maior estabilidade para cadeias energéticas alinhadas à órbita americana", disse.
A avaliação de Araújo, da Abicom, é que esse víes vai depender da atuação dos Estados Unidos na região e a relação com o atual ou possível futuro governo venezuelano pode influenciar.
"Poder ser que ocorra alguma influência, mas é muito cedo para qualquer especulação", afirma.
Segundo os analistas, o cenário atual não deve gerar impacto imediato nos preços dos combustíveis no Brasil.
Araújo afirma que, mesmo com uma leve alta esperada no Brent, os reflexos devem ser pontuais e restritos a refinarias privadas.
“Como será um impacto de curta duração, não deve haver repasse de preço ao consumidor no Brasil”, afirma.Ardenghy destaca, porém, que o custo de transporte do petróleo pode sofrer pressões.
“Pode ocorrer aumento no custo de frete e do seguro dos navios que passam próximos à Venezuela, especialmente os que abastecem as refinarias do Texas e da Louisiana”, diz.