Ciência

Viver até os 100 anos? 6 mitos sobre longevidade que a ciência quer derrubar

Estudos colocam em xeque crenças sobre suplementos, envelhecimento saudável e hábitos que prometem aumentar os anos de vida

Longevidade: pesquisadores questionam promessas populares de produtos e estratégias voltados a retardar o envelhecimento (Magnific/Reprodução)

Longevidade: pesquisadores questionam promessas populares de produtos e estratégias voltados a retardar o envelhecimento (Magnific/Reprodução)

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 10h43.

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A busca por maneiras de viver mais tem impulsionado o interesse por suplementos, medicamentos e tratamentos que prometem retardar o envelhecimento. Nas redes sociais, recomendações sobre longevidade se multiplicam, mas nem todas encontram respaldo na ciência.

Segundo um relatório de 2026 do XRC Brand Capital Fund, as buscas na internet relacionadas à longevidade quadruplicaram no final de 2025 em comparação com o ano anterior.

Apesar da popularidade do tema, pesquisadores alertam que muitas afirmações sobre antienvelhecimento são imprecisas e que algumas práticas podem representar riscos à saúde.

Em reportagem publicada pelo The New York Times, especialistas em envelhecimento destacaram seis mitos sobre longevidade que devem ser analisados com mais cautela.

1. O objetivo da longevidade é apenas viver mais

Embora a longevidade esteja associada ao aumento da expectativa de vida, esse não é necessariamente o principal objetivo das pesquisas sobre envelhecimento.

Segundo Steven Austad, professor de biologia da Universidade do Alabama em Birmingham, os pesquisadores buscam principalmente ampliar o período em que as pessoas permanecem saudáveis, conhecido como expectativa de vida saudável. Isso significa reduzir os anos vividos com doenças e limitações físicas ou cognitivas, em vez de apenas prolongar a sobrevivência.

Para Austad, o aumento da expectativa de vida pode ser uma consequência de manter as pessoas saudáveis por mais tempo, mas não representa o objetivo central desse campo de pesquisa.

2. As pessoas estão vivendo mais e com mais saúde

O aumento da expectativa de vida não significa, necessariamente, que as pessoas estejam envelhecendo em melhores condições de saúde. Um estudo publicado em 2025 mostrou que, nos Estados Unidos, a expectativa média de vida aumentou aproximadamente seis meses entre 2009 e 2019, enquanto a expectativa de vida saudável diminuiu.

Entre 2010 e 2019, os Estados Unidos foram o único país de alta renda analisado a apresentar redução nesse indicador. Segundo Austad, os avanços da medicina permitiram melhorar o tratamento de doenças como câncer e problemas cardiovasculares. Ao mesmo tempo, outras condições associadas ao envelhecimento, como a demência, passaram a representar desafios cada vez maiores.

Pesquisas também indicam que adultos jovens atualmente apresentam maior probabilidade de desenvolver doenças crônicas do que há uma década. Parte dos especialistas relaciona esse cenário à maior atenção dedicada ao tratamento de doenças, em comparação com a prevenção.

3. Medicamentos e suplementos podem prolongar a vida

Suplementos de NAD+, resveratrol, peptídeos e hormônio do crescimento são frequentemente divulgados como alternativas para retardar o envelhecimento.

No entanto, segundo Aladdin Shadyab, professor associado da Universidade da Califórnia em San Diego, nenhum medicamento ou suplemento demonstrou, até o momento, capacidade de prolongar a vida humana.

Algumas substâncias apresentaram resultados promissores em estudos com vermes e camundongos, mas essas descobertas não significam que os mesmos efeitos ocorram em pessoas.

Um exemplo é o NAD+, uma coenzima envolvida em processos celulares relacionados à produção de energia. A ideia de que seus níveis diminuem com o envelhecimento ajudou a popularizar suplementos destinados a aumentar sua concentração no organismo.

Entretanto, um estudo publicado em maio de 2026 na revista científica Nature Metabolism identificou que os níveis de NAD+ no sangue permanecem estáveis em idades avançadas, colocando em dúvida os possíveis benefícios dessa suplementação.

Algumas intervenções também podem apresentar riscos. Uma revisão de ensaios clínicos apontou que o uso do hormônio do crescimento humano (HGH) em adultos mais velhos saudáveis pode aumentar a ocorrência de dores articulares, inchaço e síndrome do túnel do carpo.

4. Mulheres vivem mais e permanecem saudáveis por mais tempo

As mulheres vivem, em média, cerca de cinco anos a mais do que os homens. Essa diferença, porém, não significa que passem mais tempo em boas condições de saúde.

Segundo Pankaj Kapahi, pesquisador do Instituto Buck, na Califórnia, as mulheres frequentemente passam uma proporção maior da velhice convivendo com doenças e incapacidades.

Após a menopausa, diferentes aspectos da saúde feminina podem apresentar declínio. Mulheres mais velhas também têm maior risco de desenvolver determinadas condições, como doenças autoimunes, artrite e Alzheimer.

Uma das possíveis explicações para as diferenças observadas está na própria produção científica. Historicamente, as pesquisas sobre envelhecimento se concentraram mais nos homens, tendência que ainda aparece em estudos recentes.

Viviana Perez Montes, diretora da divisão de biologia do envelhecimento do Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos, também aponta que muitos compostos capazes de aumentar a expectativa de vida em estudos com animais apresentam resultados mais expressivos em machos do que em fêmeas. As razões para essa diferença ainda não são conhecidas.

5. Perder peso é sempre benéfico para a longevidade

A perda de peso costuma ser associada a benefícios para a saúde, mas seus efeitos sobre a longevidade podem variar conforme a idade. Embora alguns estudos tenham identificado uma relação entre emagrecimento e menor risco de morte, outros não encontraram os mesmos resultados, sobretudo entre pessoas com mais de 65 anos.

Em uma pesquisa publicada em 2023, Shadyab e seus colegas analisaram mulheres entre 61 e 81 anos e observaram que tanto a perda de peso intencional quanto a não intencional estavam associadas a menores chances de sobrevivência até os 90 anos. Essa relação foi identificada independentemente do peso inicial ou do índice de massa corporal (IMC) das participantes.

Uma metanálise de 2021, que reuniu 30 estudos, também encontrou associação entre a perda de peso em pessoas com 65 anos ou mais e um risco de morte 59% maior.

Os pesquisadores ainda investigam as razões para esses resultados. Uma das hipóteses é que o emagrecimento em idades avançadas provoque uma perda proporcionalmente maior de massa muscular e óssea, em comparação com a redução de gordura corporal.

As descobertas indicam que os efeitos da perda de peso observados em adultos mais jovens não necessariamente se repetem entre pessoas idosas.

6. Hábitos saudáveis garantem viver até os 100 anos

Manter uma alimentação equilibrada, praticar exercícios e evitar o tabagismo são medidas associadas à prevenção de doenças. No entanto, esses hábitos não garantem que uma pessoa alcance os 100 anos.

Segundo pesquisas recentes citadas pelos especialistas, a genética pode responder, em média, por cerca de metade das diferenças na expectativa de vida, enquanto fatores ambientais e comportamentais contribuem para a outra metade. Entre pessoas que chegam aos 95 anos ou mais, a influência genética parece ser ainda maior.

Sofiya Milman, professora de estudos sobre longevidade humana do Albert Einstein College of Medicine, explica que pesquisas com indivíduos excepcionalmente longevos não identificaram necessariamente hábitos mais saudáveis em comparação com pessoas que viveram menos.

Os estudos consideraram fatores como peso corporal, alimentação, atividade física, consumo de bebidas alcoólicas e tabagismo. De acordo com a pesquisadora, os resultados sugerem que a longevidade excepcional não pode ser explicada apenas pelas escolhas individuais relacionadas ao estilo de vida.

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