Vacinas contra covid: mundo passa de escassez para excesso de imunizantes

A indústria global de vacinas enfrenta uma demanda em declínio, e países como Índia e Indonésia, que investiram na produção de doses, agora lutam com excesso de oferta
 (Fernando Brito/MS/Agência Brasil)
(Fernando Brito/MS/Agência Brasil)
Por BloombergPublicado em 29/03/2022 14:38 | Última atualização em 29/03/2022 14:57Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Por Chris Kay, Malavika Kaur Makol e James Paton, da Bloomberg

Após correr para aumentar a capacidade e atender a pedidos aparentemente insaciáveis de vacinas contra a covid-19, a indústria global de vacinas enfrenta uma demanda em declínio.

A tendência pode conter as vendas de gigantes farmacêuticos, da Pfizer à AstraZeneca, e também criar novos problemas para fabricantes locais, da Índia à Indonésia, que construíram uma capacidade gigantesca para fabricar doses, mas agora estão lutando com o excesso de oferta.

Mesmo que os reforços provavelmente mantenham viva a demanda por vacinas de covid em todo o mundo, a escassez desesperada que existia durante grande parte do ano passado diminuiu.

“A oferta está excedendo a demanda em grande parte do mundo, mesmo com muitos países aplicando doses de reforço”, disse Scott Rosenstein, consultor de saúde para o Grupo Eurasia.

Enquanto isso, um número crescente de fabricantes está entrando no mercado.

Mais de 9 bilhões de doses podem ser produzidas em 2022, mas a demanda por vacinas pode cair para cerca de 2,2 bilhões a 4,4 bilhões de doses por ano em 2023, de acordo com a empresa de análise Airfinity.

O presidente executivo da Moderna disse em uma teleconferência que o governo dos EUA ainda não fez pedidos para 2022, sugerindo espaço para crescimento se o país comprar uma grande quantidade de doses para reforço.

A AstraZeneca preferiu não comentar. A Pfizer não abordou diretamente questões sobre a demanda de vacinas, dizendo em comunicado que há capacidade suficiente para vacinar o mundo em 2022, mas ainda existem barreiras ao acesso. Moderna não forneceu comentários adicionais.

Mais suprimentos

O problema é particularmente grave na Índia, sede da maior indústria de vacinas do mundo, que está enfrentando o excesso de oferta doméstica e global.

A Biological E., uma grande fabricante com sede em Hyderabad, investiu cerca de 15 bilhões de rúpias (US$ 195 milhões) para dobrar a capacidade durante a pandemia para cerca de 4 milhões de doses de vacina por dia. No entanto, com a maioria dos adultos totalmente imunizados e o governo sem mostrar urgência em aplicar doses de reforço, é incerto quantas doses mais serão compradas.

O Serum Institute of India, principal fornecedor do país que produziu 2 bilhões de vacinas contra a covid no ano passado, interrompeu a fabricação em dezembro após falta de pedidos, disse o CEO Adar Poonawalla em um painel em janeiro. A Serum não respondeu às perguntas e aos pedidos de comentários sobre os níveis da empresa de produção de vacinas contra a covid.

“Uma das grandes questões a seguir será o que fazer com toda essa capacidade de fabricação de vacinas à medida que a demanda diminui”, disse Rosenstein. “Provavelmente não há demanda suficiente por outras vacinas para que isso seja uma opção viável para todas essas fábricas.”

Tecnologia de mRNA

Outros fornecedores indianos de vacinas também estão buscando oportunidades inovadoras de imunização além da covid.

“Acreditamos que não apenas as vacinas da covid-19, mas vacinas contra a gripe, as pneumocócicas, as destinadas a outras doenças negligenciadas começarão a se tornar oportunidades muito importantes”, disse Kiran Mazumdar Shaw, presidente da Biocon, à Bloomberg Television no início deste mês.

Enquanto isso, alguns desenvolvedores estão jogando a toalha. A Kalbe Farma da Indonésia interrompeu o trabalho em uma vacina contra a covid com a Genexine da Coreia do Sul neste mês, citando estoques abundantes. Agora pretende usar a tecnologia do DNA para outros tipos de vacina.

Empresas provavelmente continuarão vendo a demanda por reforços enquanto buscam vacinas aprimoradas superiores aos produtos iniciais. Parece que a covid está evoluindo para o que provavelmente será uma doença endêmica, o que significa que provavelmente veio para ficar, disse Gary Dubin, presidente da unidade de vacinas da Takeda Pharmaceutical.

Ainda assim, permanecem dúvidas sobre se reforços regulares serão necessários e com que frequência, e se variantes em potencial “podem mudar rapidamente o quadro”, disse ele.

— Com a colaboração de Robert Langreth.