Fóssil de Dickinsonia: organismo que viveu há cerca de 567 milhões de anos (Wikimedia Commons)
Repórter
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 12h23.
Como um animal conseguia se alimentar sem ter boca ou sistema digestivo? Fósseis encontrados nas Montanhas Mackenzie, no norte do Canadá, ajudam a responder à pergunta e revelam que algumas formas de vida já se movimentavam pelo fundo do mar há cerca de 567 milhões de anos.
Os pesquisadores identificaram mais de 100 fósseis preservados nas rochas, incluindo organismos do período Ediacarano. As amostras são entre 5 milhões e 10 milhões de anos mais antigas que outros registros importantes de organismos semelhantes.
O conjunto inclui seis grupos de organismos que ainda não haviam sido documentados na América do Norte. Como os animais tinham corpos moles, a preservação só foi possível graças ao soterramento rápido dos organismos no fundo do mar.
Entre os fósseis está a Dickinsonia, um organismo achatado e segmentado que não se encaixa facilmente em nenhum grupo de animais atuais. O registro fóssil, porém, apresenta evidências de que a criatura se deslocava pelo solo marinho.
Os pesquisadores associam esse movimento à alimentação. A Dickinsonia teria deslizado sobre tapetes microbianos que cobriam o fundo do oceano e absorvido matéria orgânica pela parte inferior do corpo.
Marcas encontradas em fósseis anteriores já haviam sido interpretadas como possíveis rastros de alimentação. A hipótese é que contrações coordenadas permitiam ao organismo avançar enquanto aproveitava os microrganismos presentes no substrato.
O material também inclui Kimberella, organismo associado a um dos primeiros registros de locomoção ativa. A criatura tinha uma estrutura semelhante a um pé muscular e é considerada por alguns pesquisadores um parente distante dos moluscos.
Outro organismo encontrado foi a Funisia, que vivia em grandes agrupamentos. A organização dessas comunidades pode indicar um comportamento reprodutivo coordenado, possivelmente relacionado à liberação de células reprodutivas na água.
Os fósseis sugerem, portanto, que o fundo do mar já abrigava organismos com diferentes formas de alimentação, locomoção e reprodução muito antes da explosão de diversidade animal registrada posteriormente.
O local da descoberta também chama atenção. Fósseis do período Ediacarano costumam estar associados a ambientes marinhos rasos, enquanto as rochas analisadas no Canadá representam um antigo talude continental, em águas mais profundas.
A descoberta não demonstra que os primeiros comportamentos complexos dos animais surgiram no oceano profundo. Ela, porém, amplia os ambientes que podem ser considerados pelos cientistas ao investigar a origem da vida animal complexa.
A capacidade de se deslocar e obter alimento sem estruturas semelhantes às dos animais atuais mostra que comportamentos complexos já existiam em organismos muito diferentes das espécies conhecidas hoje.
Os pesquisadores ainda precisam interpretar com cautela os rastros preservados nas rochas, já que reconstruir comportamentos de organismos de centenas de milhões de anos é uma tarefa limitada pelas evidências disponíveis.