Animais: fósseis encontrados no Canadá revelam como eram alguns dos primeiros habitantes dos oceanos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 10 de agosto de 2026 às 09h24.
Um sítio fossilífero descoberto no noroeste do Canadá está mudando a forma como os cientistas entendem a origem dos primeiros animais na Terra. Fósseis de cerca de 567 milhões de anos indicam que organismos complexos já eram capazes de se mover, reproduzir-se sexuadamente e desenvolver planos corporais reconhecíveis entre 5 e 10 milhões de anos antes do que apontavam as evidências anteriores.
A descoberta, liderada por pesquisadores do Museu Americano de História Natural e da Universidade de Dartmouth, foi publicada na revista Science Advances e revela uma das comunidades de organismos do período Ediacarano mais antigas e diversas já encontradas.
Os fósseis pertencem à chamada biota ediacarana, um conjunto de organismos de corpo mole que viveu nos oceanos antes da Explosão Cambriana, período marcado pela rápida diversificação da vida animal.
Até então, as evidências indicavam que características consideradas típicas dos animais — como locomoção, reprodução sexuada e planos corporais organizados — haviam surgido milhões de anos depois.
No novo sítio, porém, esses sinais aparecem em organismos que viveram há cerca de 567 milhões de anos, antecipando importantes marcos da evolução animal. Segundo os pesquisadores, a descoberta amplia a compreensão sobre a transição de um planeta dominado por microrganismos para o surgimento das primeiras formas de vida animal complexa.
Como esses organismos não possuíam conchas, esqueletos ou qualquer outra estrutura rígida, sua preservação dependia de condições geológicas extremamente raras. Foi justamente isso que tornou o novo sítio fossilífero tão importante.
Os pesquisadores identificaram mais de 100 fósseis, incluindo representantes de seis grupos nunca antes encontrados na América do Norte.
O sítio fica nas montanhas Mackenzie, nos Territórios do Noroeste do Canadá, em uma área localizada nas terras tradicionais dos povos Sahtú Dene e Métis, que participaram da pesquisa autorizando o acesso à região.
Entre os organismos encontrados estão espécies que representam alguns dos primeiros exemplos conhecidos de comportamentos considerados fundamentais para a vida animal.
A Dickinsonia, por exemplo, tinha corpo achatado e se deslocava lentamente pelo fundo marinho em busca de alimento. Já a Funisia fornece uma das evidências fósseis mais antigas de reprodução sexuada. Os pesquisadores acreditam que ela liberava espermatozoides e óvulos na água de forma semelhante ao que ocorre atualmente com os corais.
Outro destaque é a Kimberella, considerada por muitos cientistas uma parente primitiva dos moluscos. Ela utilizava um "pé musculoso" para se locomover e raspar alimento do fundo do oceano, podendo representar um dos bilaterianos mais antigos já identificados — grupo que reúne mais de 99% das espécies animais atuais, incluindo os seres humanos.
Os pesquisadores também encontraram fósseis de Eoandromeda, organismo que pode representar um ancestral das atuais águas-vivas-de-pente.
Além da idade dos fósseis, outro aspecto chamou a atenção da equipe. As evidências indicam que esses organismos viviam em águas profundas, contrariando a hipótese predominante de que os primeiros animais complexos surgiram em ambientes costeiros rasos.
Segundo os autores, a estabilidade do oceano profundo, com menor variação de temperatura e oxigênio, pode ter criado condições favoráveis para o surgimento e a diversificação das primeiras formas de vida animal.
Se novos estudos confirmarem essa hipótese, os cientistas poderão rever onde ocorreu uma das etapas mais importantes da evolução da vida na Terra.