Barriga de aluguel: prática é regulamentada de maneiras diferentes entre os estados americanos (Oscar Wong/Getty Images)
Redatora
Publicado em 20 de setembro de 2026 às 06h00.
Uma mulher pode receber cerca de US$ 45 mil, aproximadamente R$ 230 mil, pela gestação de um filho de outra pessoa nos Estados Unidos. A barriga de aluguel comercial é permitida em diferentes partes do país, mas as regras variam entre os estados e não existe uma legislação federal única para acompanhar esse mercado.
Uma investigação de um ano da CBS News mostrou que não há fiscalização federal específica capaz de determinar quantas gestantes um mesmo futuro pai pode contratar simultaneamente. Também não existe um levantamento oficial sobre quantos bebês nascem dessa forma no país.
Especialistas ouvidos pela emissora estimam aproximadamente 10 mil nascimentos por ano. Os relatos reunidos pela investigação também mostram diferenças na remuneração, nos contratos e nas informações fornecidas às mulheres sobre as pessoas para quem estão gestando.
O processo costuma começar com agências especializadas, responsáveis por aproximar as mulheres interessadas em gestar dos futuros pais.
Após a seleção, a gestante passa pelo processo de reprodução assistida e recebe no útero um embrião formado para os pais pretendentes. Os direitos parentais são definidos por contrato, enquanto a mulher recebe uma remuneração pela gestação.
As gestantes entrevistadas pela CBS News relataram pagamentos em torno de US$ 45 mil para uma gestação única e inferiores a US$ 70 mil no caso de gêmeos. Os valores ficam abaixo das remunerações de seis dígitos anunciadas em algumas campanhas de recrutamento.
Há, porém, contratos com cifras maiores. Uma mulher identificada como Judy contou à emissora que receberia US$ 120 mil para participar do processo.
A regulamentação da barriga de aluguel varia de acordo com o estado. Não existe uma norma federal que determine quantas gestantes podem ser contratadas por uma mesma pessoa.
Segundo a advogada Melissa Brisman, citada na reportagem, também não há uma exigência nacional para que futuros pais passem por verificações de antecedentes semelhantes às realizadas durante processos de adoção.
A Califórnia se tornou um dos principais destinos para esse tipo de acordo por possuir um ambiente jurídico favorável. O estado também recebe estrangeiros interessados no procedimento.
Já Nova York é apontado pela investigação como o único estado que exige o licenciamento das agências. Segundo Brisman, em grande parte do país, a abertura dessas empresas pode depender apenas de uma estrutura empresarial básica.
A investigação cita o caso do empresário chinês Xu Bo, identificado em documentos obtidos pela CBS News como pai pretendente em contratos de barriga de aluguel.
Relatos mencionados pela emissora afirmam que ele teria mais de 100 filhos nascidos por meio do procedimento nos Estados Unidos. Uma ex-companheira disse que o número poderia chegar a 300.
Xu contesta essas estimativas. Após uma reportagem publicada pelo Wall Street Journal em dezembro de 2025, ele afirmou ter a guarda de 12 crianças nascidas por barriga de aluguel nos EUA.
Judy, uma das mulheres entrevistadas pela emissora, afirmou ter sido informada de que o homem para quem gestaria já havia contratado um número próximo de duas dezenas de outras gestantes. Ela também disse ter tentado conhecê-lo pelo menos cinco vezes, sem sucesso.
Outro problema identificado pela investigação envolve o acesso das mulheres às informações sobre os futuros pais.
Andrea contou ter participado de uma videochamada com um casal apresentado como os pais da criança que gestaria. Após o nascimento, em outubro de 2024, porém, um casal de idosos que ela nunca havia encontrado apareceu no hospital para buscar o bebê.
Mayra Arely Hernandez relatou uma experiência diferente. Ela gestou gêmeos para um casal, mas afirmou ter conhecido os futuros pais apenas no momento do parto. Pelo processo, recebeu US$ 65 mil da agência.
A empresa negou que situações desse tipo ocorram em sua operação. À CBS News, a CEO Carla Maeda afirmou que a agência apresenta diretamente as gestantes aos futuros pais e mantém a comunicação entre as partes durante a gravidez.
A investigação também identificou situações em que diferentes mulheres gestaram simultaneamente para uma mesma família. Um dos casos envolve um casal de Arcadia, na Califórnia, que teve pelo menos 25 crianças por meio de barrigas de aluguel.
Em julho de 2025, Silvia Zhang e Guojun Xuan foram presos sob acusação de colocar crianças em risco. Após a intervenção das autoridades, 21 filhos foram retirados da residência. O casal nega irregularidades.