Ciência

Por que o Partenon é curvo? Matemático contesta explicação de 2 mil anos

Análise matemática coloca em xeque a teoria de que detalhes arquitetônicos do templo grego foram projetados para corrigir ilusões de ótica

Partenon: templo de Atenas é conhecido por sutis curvaturas em sua base e colunas (unsplash)

Partenon: templo de Atenas é conhecido por sutis curvaturas em sua base e colunas (unsplash)

Publicado em 20 de setembro de 2026 às 05h15.

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As pequenas curvas do Partenon, em Atenas, são frequentemente apontadas como exemplos da precisão dos antigos arquitetos gregos. Há séculos, uma explicação sustenta que essas alterações teriam sido projetadas para corrigir ilusões de ótica e fazer o templo parecer perfeitamente reto. Um novo estudo, porém, coloca essa interpretação em dúvida.

Após analisar matematicamente os efeitos visuais atribuídos ao monumento, Alain Goriely, professor da Universidade de Oxford, concluiu que algumas dessas supostas ilusões não têm evidências que sustentem sua existência, enquanto outras seriam praticamente imperceptíveis nas condições reais de observação.

A pesquisa foi publicada na revista científica Royal Society Open Science. O trabalho também investigou como uma explicação registrada séculos depois da construção do Partenon acabou se consolidando e sendo reproduzida ao longo do tempo.

De onde surgiu a teoria sobre as ilusões do Partenon?

O Partenon foi construído na Acrópole de Atenas, mas uma das explicações mais conhecidas para suas características arquitetônicas apareceu cerca de 400 anos depois.

Ela foi registrada pelo arquiteto e engenheiro romano Vitrúvio, no século I a.C. Seus escritos relacionavam algumas das curvas presentes na arquitetura grega à necessidade de compensar distorções provocadas pela percepção humana.

Segundo Goriely, essa interpretação foi posteriormente incorporada a livros de arquitetura e passou a ser apresentada como uma explicação estabelecida para o projeto do templo.

O matemático decidiu então verificar se os efeitos visuais atribuídos ao monumento realmente ocorreriam da maneira descrita.

Matemática coloca explicação à prova

Um dos principais pontos analisados foi o estilóbato, a base sobre a qual ficam as colunas. Em vez de ser completamente horizontal, a estrutura forma um arco suave que se eleva cerca de 6 centímetros no centro.

A explicação tradicional afirma que essa curvatura compensaria uma ilusão capaz de fazer uma longa linha horizontal parecer afundar na região central. Goriely, porém, não encontrou evidências de que esse efeito visual ocorra da forma proposta.

Outra hipótese relaciona a arquitetura do templo à chamada ilusão de Hering. Nesse fenômeno, linhas paralelas em uma superfície bidimensional podem parecer curvas quando são atravessadas por outras linhas.

O efeito se torna mais forte quando essas linhas se cruzam em ângulos agudos. No Partenon, as colunas são verticais demais para produzir essa configuração. O pesquisador também afirma que não há evidências de que a mesma ilusão funcione em uma estrutura tridimensional como o templo.

Curvatura das colunas também desafia explicação tradicional

Outra característica examinada foi a êntase, nome dado à discreta curvatura das colunas. Uma interpretação difundida afirma que essa protuberância teria sido adicionada para evitar que as estruturas parecessem estreitas demais na região central.

A análise também não encontrou evidências para essa suposta distorção visual. Há ainda uma questão de escala: nas colunas do Partenon, a protuberância é de apenas 18 milímetros.

Segundo a análise, uma diferença dessa magnitude seria praticamente imperceptível nas distâncias em que o monumento normalmente é observado.

Se não eram ilusões de ótica, por que o Partenon tem curvas?

O estudo não determina qual foi a verdadeira intenção dos arquitetos responsáveis pelo templo. Goriely apresenta, porém, outras possibilidades para explicar algumas de suas características.

A elevação no centro da base, por exemplo, poderia ter ajudado a impedir o acúmulo de água da chuva. Já a curvatura das colunas poderia ter sido adotada por razões estéticas, tornando suas formas mais orgânicas e visualmente agradáveis.

Essas possibilidades não comprovam por que as estruturas foram construídas dessa maneira. Elas mostram que as chamadas correções ópticas não são a única interpretação possível para as escolhas arquitetônicas.

Como uma explicação atravessou mais de 2 mil anos

Goriely também discute por que a interpretação atribuída a Vitrúvio continuou sendo reproduzida durante tantos séculos. Uma possibilidade levantada pelo pesquisador é a própria percepção da Grécia Antiga como uma civilização marcada por grande conhecimento e engenhosidade, o que teria contribuído para tornar convincente a ideia de sofisticadas correções visuais.

Frank Salmon, professor de história da arquitetura clássica da Universidade de Cambridge, afirmou ao The Guardian que alguns especialistas já demonstravam cautela em relação às explicações de Vitrúvio.

Segundo ele, há limitações em utilizar um texto romano escrito séculos depois como referência para explicar práticas arquitetônicas gregas mais antigas. O problema é agravado pela perda de muitos dos textos gregos sobre arquitetura que poderiam oferecer outras evidências sobre as técnicas empregadas na época.

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