Além da força e do condicionamento: cuidado com as articulações pode transformar seu treino (Getty Images)
Colaboradora
Publicado em 3 de março de 2026 às 09h24.
Imagine a situação: uma pessoa começa na academia super animada. Com foco total no treino e na dieta, os resultados aparecem rapidamente. Daí, é natural fazer a correlação de que aumentar a carga e a intensidade dos exercícios vai acelerar de vez os ganhos. Até que surge uma dor insistente no joelho ou na lombar, por exemplo. As cargas abaixam, o exercício perde graça e toda aquela emoção de se sentir cada vez mais próximo do shape dos sonhos dá lugar a uma grande frustração.
Essa história é relativamente comum — a maioria de nós conhece alguém que desistiu da academia ou perdeu um futuro brilhante no esporte devido a uma lesão. O motivo para isso, muitas vezes, é o mesmo: a saúde das articulações fica em segundo plano.
As articulações são os pontos de encontro entre dois ou mais ossos. Elas funcionam como "dobradiças" e "amortecedores" do corpo, permitindo que você dobre o joelho, gire o ombro, agache, corra, salte e levante peso com estabilidade.
Justamente por essa importância, deixar as articulações de fora da lista de prioridades vai muito além de interromper a evolução nos treinos. Pode significar dor crônica, limitações de movimento e queda na qualidade de vida ao longo dos anos, segundo informações da GQ Magazine.
O especialista em coluna e professor emérito da Universidade de Waterloo, no Canadá, Stuart McGill, afirma que as redes sociais criaram essa tendência de buscar desempenho excepcional, que ameaça as articulações de quem não tem todo esse preparo. "São essas pessoas que me procuram com dores nas costas", disse.
McGill reforça que o corpo precisa de estresse para se adaptar e se fortalecer, mas existe um limite — nas palavras dele, um "ponto de inflexão do estresse". "Se esse ponto for ultrapassado, ocorrem microlesões que se acumulam, causando dores lombares persistentes, fraturas por estresse ou lesões nos tendões que podem durar anos", pontuou.
A orientação do especialista é treinar o suficiente para atingir seus objetivos, sem ultrapassar limites desnecessários. A lógica, segundo McGill, é clara: nem facilitar demais o movimento — afinal, é estressando o corpo que ele se desenvolve — e nem exagerar na carga.
Ele adiciona que é importante se atentar ao tipo físico, pois ele influencia diretamente no grau de tolerância ao esforço. Estruturas ósseas maiores, com pulsos mais grossos, por exemplo, podem responder de forma diferente a determinadas cargas quando comparadas a corpos menores. O que fortalece uma pessoa pode gerar dano articular em outra.
Um fator-chave é o fortalecimento do core, que inclui o abdômen e a musculatura estabilizadora da coluna. McGill citou um estudo feito com trabalhadores de linha de montagem de automóveis que levantavam peso repetidamente ao longo do dia: os que tinham a região do core mais resistente conseguiam manter a postura adequada por mais tempo e tinham menos lesões incapacitantes nas costas. Por outro lado, os que tinham a musculatura das costas mais forte se machucavam mais. "Eles perdiam a postura, puxavam a carga com as costas e sofriam crises agudas periódicas", contou o especialista.
Na corrida, uma das principais preocupações é o desgaste dos joelhos. Para o treinador Shane Benzie, autor de A Arte Perdida da Corrida, o problema não é correr muito por longas distâncias, mas a forma como se corre.
"Se você não corre bem, isso pode ser ruim para os seus joelhos", disse Benzie. "Quando você corre, seu corpo recebe cerca de 2,5 vezes o seu peso corporal de impacto. Mas seu corpo está sempre se reconstruindo, dependendo de como você o desgasta. Se você se movimenta bem, os osteoblastos (células de reparo ósseo) que circulam pelo corpo irão reconstruir esses ossos", acrescentou.
Em uma pesquisa com 4 mil corredores, Benzie identificou que 84% aterrissam com o calcanhar e a perna estendida, o que concentra todo o impacto do movimento em um único ponto.
A orientação é buscar uma aterrissagem mais plana, distribuir a carga, pois assim o pé dissipa o impacto de forma mais eficiente. Uma dica para treinar essa melhora é gravar a própria passada, o que pode ajudar a identificar falhas e ajustar o movimento. "Correr é um jogo mental. É reescrever seu software", concluiu Benzie.