Ciência

Por que a Nasa não escolhe mais 'machos alfa' para ir à Lua?

Missão à Lua exige mais do que preparo físico: isolamento, convivência e resiliência viraram prioridade na seleção de astronautas; entenda

Os astronautas Jeremy Hansen, Victor Glover, Reid Wiseman e Christina Koch foram escolhidos para a missão Artemis II, que voará ao redor da Lua (AFP/Reprodução)

Os astronautas Jeremy Hansen, Victor Glover, Reid Wiseman e Christina Koch foram escolhidos para a missão Artemis II, que voará ao redor da Lua (AFP/Reprodução)

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 19h55.

A missão Artemis II, da Nasa, será um marco no retorno da humanidade à Lua. Prevista para levar astronautas além da órbita lunar em uma viagem de cerca de dez dias, a expedição exigirá um tipo de preparo muito diferente do que era considerado ideal nas primeiras décadas da corrida espacial.

Se nos anos 1950 os astronautas eram escolhidos entre pilotos de teste no auge da condição física - perfil associado a figuras hipercompetitivas, apelidadas de “machos alfa”-, hoje o foco das agências espaciais mudou. Em missões longas e isoladas, como as que devem ocorrer na Lua e, no futuro, em Marte, o sucesso depende menos de força individual e mais de equilíbrio emocional, cooperação e capacidade de convivência.

Mais do que preparo físico

Em entrevista à BBC Future, o astronauta Victor Glover, da Nasa, explicou que viver em um compartimento pressurizado com outros três colegas por dez dias exige um tipo de preparo psicológico que vai além da técnica.

Segundo ele, até aspectos básicos da rotina podem virar fonte de estresse em um ambiente sem privacidade, com recursos limitados e sem possibilidade de reabastecimento.

Entre os desafios citados pelo astronauta, estão:

  • Comida e água finitas, que acabam à medida que são consumidas
  • Ausência de privacidade, mesmo para tarefas básicas
  • Confinamento total com os mesmos companheiros
  • Ruídos e desconfortos que afetam o sono e a convivência

A ideia central é que, em missões como a Artemis II, o espaço não é apenas tecnicamente hostil: ele também exige tolerância emocional, autocontrole e resiliência.

Por que o perfil do astronauta mudou desde os anos 1950?

Quando a Nasa selecionou seus primeiros astronautas, os candidatos eram todos homens, pilotos de teste e submetidos a exames intensivos que avaliavam desde capacidade pulmonar até características corporais extremamente específicas.

O objetivo era encontrar o “perfil ideal” para missões curtas, perigosas e inéditas.

Atualmente, porém, o cenário mudou. As futuras missões do programa Artemis devem levar astronautas para períodos prolongados próximos ao polo sul da Lua, com planos de criar estruturas permanentes.

O ambiente lunar, segundo o Glover, terá condições extremas, como:

  • Radiação potencialmente prejudicial
  • Temperaturas extremas
  • Noites que duram cerca de duas semanas
  • Poeira e ausência de ar
  • Distância de dias da Terra, sem resgate imediato

Nesse contexto, ele afirma que ser apenas “forte e competitivo” não é suficiente.

Seleção atual avalia cooperação e saúde mental

Sergi Vaquer Araujo, chefe da equipe de medicina espacial da Esa, afirmou à BBC que selecionar um astronauta é um processo complexo porque não se busca alguém excepcional em apenas um aspecto.

Segundo ele, o objetivo é encontrar alguém que seja “bom em todas as áreas”, o que é raro.

Araujo explica que, embora a exigência física continue alta, as agências passaram a priorizar também:

  • Capacidade cognitiva
  • Equilíbrio emocional
  • Trabalho em equipe

Doenças que podem eliminar candidatos, mesmo altamente qualificados

Apesar da mudança no perfil psicológico, os critérios físicos ainda existem - principalmente porque missões de exploração não têm a mesma estrutura médica disponível na Terra.

Araujo explicou que qualquer doença crônica que possa comprometer o desempenho durante a missão é motivo de desclassificação.

Segundo ele, alguns problemas que podem excluir candidatos incluem:

  • Asma e doenças respiratórias
  • Irregularidades cardíacas
  • Daltonismo

Outras condições crônicas que não podem ser tratadas no espaço

A miopia, por outro lado, pode ser aceitável.

Antártida e habitats simulados ajudam a testar o “perfil ideal”

Além disso, agências espaciais e cientistas usam ambientes extremos na Terra para simular condições semelhantes às do espaço.

Um exemplo é a estação de pesquisa Concordia, na Antártida, onde a cirurgiã britânica Nina Purvis passou o inverno com apenas outras 12 pessoas, em isolamento total.

Com isso, o principal critério para ser escolhido é ser alguém agradável para trabalhar junto, já que o grupo precisa lidar com estresse, monotonia e situações inesperadas.

Purvis também relatou que o tédio é um risco real em ambientes isolados, e descreveu um experimento com práticas de mindfulness e atividades coletivas.

A experiência Lunark: 60 dias em um protótipo de base lunar

Outro exemplo citado pela BBC é a experiência do arquiteto Sebastian Aristotelis, que viveu por 60 dias em um protótipo de habitat lunar chamado Lunark, construído no norte da Groenlândia durante a pandemia.

O ambiente era pequeno, com poucos metros de largura, mas tinha compartimentos internos empilhados para oferecer algum espaço individual. O grupo também criou um sistema de iluminação para simular luz do dia e ajudar a regular o ritmo circadiano.

Aristotelis afirmou que o primeiro dia foi claustrofóbico, mas que, com o tempo, o interior passou a parecer um lar, uma vez que o ambiente externo era extremo e ameaçador.

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