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A série Machos Alfa e o machismo da vida real do "coach da Campari"

As atitudes misóginas de grupos de homens na internet são retratadas com o devido sarcasmo na boa produção da Netflix

Série Machos Alfa da Netflix: o absurdo com humor (Netflix/Divulgação)

Série Machos Alfa da Netflix: o absurdo com humor (Netflix/Divulgação)

Ivan Padilla
Ivan Padilla

Editor de Casual e Especiais

Publicado em 2 de março de 2023 às 09h57.

Última atualização em 6 de março de 2023 às 11h37.

Quatro amigos brancos e héteros tentam mudar seu comportamento ao se inscrever em um curso de desconstrução do machismo. Até que um deles se cansa do que chama de opressão feminina e decide fazer o contrário: começa a dar aulas de "reconstrução da virilidade". E é um sucesso.

Desculpe a quem estraguei o prazer de descobrir o enredo da série espanhola Machos Alfa, na Netflix desde dezembro. Mas o atrativo principal aqui não é a história, e sim a graça em situações caricatas e absurdas de homens supostamente ameaçados pela emancipação feminina.

A série é muito bem feita e conta com boas atuações. Os episódios são curtos, têm em torno de 30 minutos. Mas uma vez mais a realidade solapa a ficção. O assunto dos últimos dias tem sido o “coach do Campari”, como ficou conhecido Thiago Schütz, dono da página Manual Red Pill Brasil.

Os "cursos" do coach do Campari

Schütz viralizou nos últimos dias nas mídias sociais com falas misóginas. Em um desses discursos ele fala de um hipotético homem que é pressionado por uma mulher a beber cerveja em vez do seu Campari. Mulheres, diz ele, estão sempre testando e querendo mudar o homem.

Ao ser devidamente satirizado por uma atriz  (que sequer menciona seu nome), Schütz a ameaçou de "processo ou bala". Seu discurso de ódio é apresentado como ensinamento. Ele vende cursos em e-books e faz atendimentos em grupo que chegam a 2.000 reais a sessão. Igual à série. Mas muito pior.

O caso do coach do Campari é só um exemplo da chamada "manosphere", espaços virtuais dedicados em tese a falar de direitos masculinos, mas que mal tentam disfarçar ataques às mulheres. São muitos os grupos, como os incels, celibatários voluntários que se dizem rejeitados pelas mulheres.

Protagonismo das mulheres na série

Assisti à série algumas semanas atrás, por sugestão de duas colegas de trabalho, que disseram ter se divertido muito com o escracho em cima de um comportamento masculino vergonhoso. De fato, as situações clichês são apresentadas com um texto afiado e boas interpretações.

Um dos personagens perde o prestigiado cargo de diretor de uma emissora de TV para uma mulher e depois se sente diminuído pelo sucesso profissional da esposa. Outro reluta em abrir a relação, como pede sua companheira, por não se sentir preparado – mas tem um caso de anos.

Um dos atores, Fele Martínez, já participou de filmes emblemáticos do cinema espanhol, como Los Amantes Del Círculo Polar (1998), de Julio Medem, Tesis (1996) e Abre los Ojos (1997), de Alejandro Almenábar, e Fale com Ela (2002) e a Má Educação (2004), de Pedro Almodóvar.

As mulheres dos personagens têm protagonismo na série. Um destaque é a atriz María Hervás, a mulher do diretor de TV demitido, que vira influencer.

É possível rir de situações de ódio e aversão às mulheres na vida real? Se pensarmos na comédia como instrumento de transformação social, como um agente de questionamento das hegemonias, Machos Alfa ajuda a mostrar de forma leve o nonsense dos questionamentos masculinos retratados e se torna um bom programa para o fim de semana.

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