Estudo revela como a atividade cerebral de bebês ajuda a entender o desenvolvimento humano (Halfpoint Images/Getty Images)
Redatora
Publicado em 3 de março de 2026 às 12h17.
A atividade cerebral de bebês pode revelar como o cérebro humano se organiza nos primeiros anos de vida.
Um estudo publicado na revista Imaging Neuroscience mapeou (quase em tempo real) a dinâmica neural de crianças entre 3 meses e 2 anos, identificando padrões que podem auxiliar na detecção precoce de alterações no neurodesenvolvimento.
A pesquisa envolveu cientistas do Brasil, da África do Sul e dos Estados Unidos e analisou mais de 800 crianças por meio de eletroencefalograma (EEG), exame que registra a atividade elétrica cerebral.
Os resultados da pesquisa mostraram que bebês muito pequenos já apresentam redes neurais semelhantes às observadas em adultos.
Isso sugere que a arquitetura funcional básica do cérebro está presente desde o início da vida, embora continue passando por ajustes e refinamentos ao longo do crescimento.
Durante o monitoramento, os pesquisadores observaram que o cérebro infantil alterna rapidamente entre diferentes padrões de atividade, mesmo em momentos de repouso.
Esses padrões transitórios foram classificados como microestados do EEG — breves configurações elétricas que representam diferentes redes funcionais do cérebro, como sistemas ligados à atenção, à visão e à audição.
A rápida sucessão desses microestados reflete a capacidade do cérebro de alternar entre funções em frações de segundo.
Esse mecanismo pode explicar como bebês conseguem processar estímulos, reagir ao ambiente e aprender novas habilidades de forma contínua.
Além de ampliar o entendimento científico sobre o cérebro humano, o mapeamento da atividade cerebral infantil pode contribuir para identificar sinais de desvio no neurodesenvolvimento.
Segundo especialistas, traçar curvas esperadas de maturação neural ajuda a identificar trajetórias fora do padrão. Alterações persistentes podem funcionar como marcadores de risco para condições relacionadas ao neurodesenvolvimento.
Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que o EEG isoladamente não é suficiente para estabelecer diagnósticos. A avaliação clínica completa e o acompanhamento contínuo são essenciais para interpretar corretamente os sinais observados.
Ao identificar que diferentes redes cerebrais amadurecem em ritmos próprios, o estudo propõe uma nova forma de olhar para o desenvolvimento infantil: em vez de considerar apenas atraso ou normalidade, é possível analisar trajetórias específicas de cada sistema funcional.
Essa abordagem pode, no futuro, permitir intervenções mais precisas, direcionadas a áreas específicas do desenvolvimento cerebral que apresentem maior vulnerabilidade.