Uma enorme fenda está se formando na plataforma de gelo da Antártida (AFP)
Redatora
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 06h13.
Uma nova técnica de mapeamento revelou uma paisagem subterrânea escondida sob quilômetros de gelo na Antártida. O estudo, publicado na revista Science, identificou cadeias de montanhas, vales e canais que permaneciam invisíveis devido à espessura da camada congelada.
Segundo os autores, a descoberta pode aprimorar previsões sobre o comportamento das geleiras e o impacto das mudanças climáticas no continente.
Para elaborar o novo mapa, os pesquisadores combinaram dados ópticos e de radar obtidos por satélite com modelos físicos que simulam o fluxo do gelo. A metodologia se baseia na forma como o gelo é perturbado ao passar sobre formações rochosas, permitindo inferir a topografia subglacial a partir de variações observadas na superfície.
Antes do novo método, o levantamento da paisagem subglacial dependia de missões aéreas e terrestres com radar, realizadas em trechos separados e com grande distância entre as rotas de medição. O estudo explica que o resultado era um retrato fragmentado do continente, deixando áreas inteiras sem dados.
A pesquisadora Helen Ockenden, autora principal do estudo, disse à BBC que a diferença entre as técnicas é comparável a trocar “uma imagem de baixa resolução por uma imagem digital ampliada”, permitindo enxergar detalhes que antes não eram detectados.
O novo mapeamento oferece resolução inédita na chamada mesoescala — faixa de 2 a 30 quilômetros — e expõe estruturas que métodos anteriores não conseguiam identificar.
De acordo com o estudo, o leito rochoso da Antártida é mais variado do que se supunha. O mapa mostra vales, planícies e longos canais atribuídos à drenagem subglacial. Algumas feições sugerem sistemas fluviais antigos preservados sob o gelo, anteriores à formação da calota antártica.
De acordo com os pesquisadores, o novo método não substitui totalmente levantamentos por radar — utilizados para observar estruturas muito pequenas —, mas ajuda a reduzir lacunas em áreas remotas e a orientar futuras campanhas científicas sobre onde concentrar esforços.
Entender a topografia subglacial é fundamental para prever como as reservas de gelo da Antártida podem reagir ao aumento da temperatura global. O movimento das geleiras depende da interação entre o leito rochoso, a água subglacial e a água do mar.
Um dos pontos de atenção é a geleira Thwaites, que estudos anteriores associaram a riscos de elevação do nível do mar. A região tem mostrado sinais de exposição à água quente do oceano, o que acelera o derretimento. Projeções indicam que o processo pode contribuir para mudanças no nível do mar nas próximas décadas e séculos.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já classifica a Antártida como uma das principais incertezas em modelos climáticos globais. Segundo os pesquisadores, o novo mapeamento fornece informações para reduzir essa margem e melhorar projeções sobre a taxa de perda de gelo.