Ciência

O que é síndrome de Cotard, condição rara que faz pessoa acreditar que está morta?

Delírios podem envolver a sensação de não existir ou não ter órgãos; quadro pode estar associado à depressão e à esquizofrenia

Síndrome de Cotard: pacientes podem desenvolver delírios relacionados à própria existência (Imagem gerada por IA/EXAME)

Síndrome de Cotard: pacientes podem desenvolver delírios relacionados à própria existência (Imagem gerada por IA/EXAME)

Publicado em 27 de setembro de 2026 às 05h10.

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Uma pessoa pode estar viva, conversar e realizar atividades cotidianas e, ainda assim, acreditar que está morta, não existe ou perdeu seus órgãos. Essas crenças fazem parte da síndrome de Cotard, uma condição neuropsiquiátrica rara caracterizada por delírios de negação relacionados ao próprio corpo e, em alguns casos, por ideias de imortalidade.

Um caso registrado no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) mostra como a condição pode se manifestar. Em 2012, um homem de 66 anos com depressão grave e sintomas psicóticos afirmou aos médicos que era um “morto-vivo” e que seus órgãos haviam se transformado em pedra.

Até dois anos antes da internação, ele não tinha histórico de problemas psiquiátricos. O quadro começou após o paciente ser enganado por um cliente, segundo o relato publicado na revista Debates em Psiquiatria, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP),

Apesar do nome, a síndrome de Cotard não é classificada como um diagnóstico independente no DSM-5 nem na Classificação Internacional de Doenças. Na literatura médica, o quadro é associado principalmente a delírios niilistas, nos quais a pessoa pode acreditar que ela própria, partes de seu corpo ou sua existência deixaram de existir.

O que é a síndrome de Cotard?

O nome vem do neurologista francês Jules Cotard, que descreveu o quadro no século XIX. Um dos primeiros casos envolvia uma mulher que acreditava não possuir cérebro, nervos ou órgãos internos e apresentava ideias de imortalidade.

A síndrome é rara e os dados sobre sua prevalência são limitados. Um estudo realizado em uma população psicogeriátrica de Hong Kong encontrou a condição em 3,2% dos idosos com depressão grave analisados. Já uma pesquisa com 346 pacientes com esquizofrenia identificou três casos, o equivalente a 0,87%.

A condição já foi descrita em associação com diferentes transtornos psiquiátricos e doenças neurológicas. A literatura registra casos relacionados principalmente à depressão grave, mas também à esquizofrenia e a outras condições médicas e neurológicas.

Por que uma pessoa acredita que está morta?

A manifestação mais conhecida é justamente a crença de que a própria pessoa morreu ou deixou de existir. Mas os delírios podem assumir diferentes formas.

Alguns pacientes acreditam que perderam partes do corpo, órgãos, sangue ou até a própria alma. Outros apresentam ideias de imortalidade, apesar de simultaneamente acreditarem que estão mortos ou não existem.

Um caso descrito na literatura médica envolveu uma mulher filipina de 53 anos que dizia estar morta e sentir cheiro de carne em decomposição. Ela chegou a pedir que fosse levada a um necrotério para ficar junto de outras pessoas mortas.

Uma pesquisa publicada no Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences analisou 12 adultos identificados com delírios de Cotard. Oito afirmavam que haviam morrido e quatro acreditavam estar morrendo. Entre os oito primeiros, três diziam ter sido mortos por profissionais de saúde.

Síndrome pode fazer paciente parar de comer

Os delírios também podem interferir diretamente em comportamentos básicos. A recusa alimentar aparece em diferentes relatos clínicos da síndrome. Há pacientes que reduzem ou interrompem a alimentação em meio a delírios relacionados à inexistência do próprio corpo ou à crença de que determinados órgãos deixaram de funcionar.

No caso brasileiro acompanhado pela UFPE, o paciente também apresentou recusa total de alimentos e líquidos durante a evolução do quadro.

A intensidade e a combinação dos sintomas variam entre os pacientes. Por isso, os relatos clínicos podem envolver desde alterações na percepção do próprio corpo até a convicção de que a própria existência terminou.

Como a síndrome de Cotard é tratada?

Não existe um tratamento único para todos os casos. A abordagem depende da doença ou do transtorno associado ao aparecimento dos delírios. A literatura descreve o uso de terapia eletroconvulsiva (ECT), antidepressivos e antipsicóticos.

A terapia eletroconvulsiva aparece com frequência em relatos de pacientes com síndrome de Cotard, sobretudo quando o quadro está associado à depressão grave. Há casos publicados de remissão dos delírios após o procedimento.

Esse foi o tratamento adotado no paciente acompanhado pela UFPE em 2012. Após oito sessões de terapia eletroconvulsiva, ele apresentou remissão dos sintomas e recebeu alta depois de um mês e sete dias de internação.

Medicamentos antidepressivos e antipsicóticos também são descritos na literatura, isoladamente ou em combinação. A escolha do tratamento depende das características clínicas e da condição psiquiátrica ou médica associada à síndrome.

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