Ciência

O biohacker que quer resolver a endometriose — e está usando a namorada como cobaia

Bryan Johnson documentou a investigação da saúde de Kate Tolo e levou a endometriose, que afeta 190 milhões de mulheres, ao centro do debate

 (Wikimedia Commons/Fundo gerado por IA)

(Wikimedia Commons/Fundo gerado por IA)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 15 de junho de 2026 às 13h22.

Bryan Johnson ficou conhecido por gastar US$ 2 milhões por ano tentando reverter o próprio envelhecimento. Agora, ele quer fazer o mesmo pela saúde feminina, e começou pela namorada.

Em 23 de maio, o empresário e biohacker americano publicou no X uma série de posts documentando o processo de investigação da saúde pélvica de Kate Tolo, sua parceira e cofundadora do Project Blueprint, com quem anunciou o relacionamento em dezembro de 2025.

O gatilho foi uma suspeita de endometriose. "Isso afeta pelo menos 1 em cada 10 mulheres, provavelmente mais", escreveu Johnson no X, antigo Twitter. "Historicamente, era necessária uma cirurgia para diagnosticá-la. Estamos fazendo uma rota não invasiva."
O post teve mais de 32,5 milhões de visualizações.

O que é endometriose — e por que o diagnóstico demora tanto?

Endometriose é uma condição crônica em que tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora do órgão, nas trompas, ovários, bexiga ou intestino.

A doença afeta aproximadamente 190 milhões de mulheres no mundo, segundo a Endometriosis Foundation of America, e é uma das principais causas de histerectomia em mulheres entre 30 e 34 anos.

Os sintomas são amplos e debilitantes. Segundo os dados compartilhados por Johnson, baseados em literatura médica, 90% das pacientes relatam dor pélvica, 50% relatam fadiga severa, entre 26% e 50% relatam infertilidade e 50% sentem dor durante relações sexuais. Muitas também têm dor durante a ovulação, evacuação e micção, além de distensão abdominal severa, conhecida como "endo belly".

O principal problema da endometriose não é apenas o sofrimento que causa, mas o tempo que leva para ser diagnosticada. Historicamente, o diagnóstico definitivo exigia laparoscopia, uma cirurgia com incisões no abdômen.

A demora média entre os primeiros sintomas e o diagnóstico é de 7 a 10 anos, segundo a literatura médica.

O que Johnson está fazendo

A abordagem de Johnson é documentar publicamente o processo de investigação de Tolo usando ultrassom transvaginal avançado, um procedimento não invasivo que pode confirmar a presença de endometriose, embora não possa descartá-la.

"Durante o ultrassom, uma sonda fina é inserida na vagina para criar imagens em tempo real do útero, ovários e estruturas pélvicas adjacentes", explicou Johnson no X. "O técnico procura cicatrizes, cistos ovarianos, aderências e órgãos fundidos por tecido."

A iniciativa faz parte de um projeto mais amplo. Johnson anunciou que pretende investir US$ 2 milhões por ano para tornar Tolo "a mulher mais medida da história", desenvolvendo um protocolo de longevidade específico para o corpo feminino, área que Johnson alega ser historicamente negligenciada pela ciência médica.

Tolo confirmou seu consentimento publicamente. "Amo que o Bryan seja tão apoiador e envolvido com a minha saúde", escreveu ela em resposta ao post do parceiro.

A reação dividida

A iniciativa gerou reações opostas. Parte do público elogiou a visibilidade dada à doença.

"Começou com endometriose e estão construindo silenciosamente o que pode se tornar um dos projetos de medição de saúde feminina mais ambiciosos já feitos", escreveu uma usuária. "Se ele realmente curar a endometriose, nunca mais vou zombar desse homem", escreveu outra, num comentário que viralizou.

Especialistas foram mais cautelosos. "Um ultrassom transvaginal é um procedimento bastante invasivo, especialmente se você tem endometriose", escreveu uma médica no X. "Por favor, deixem isso para especialistas de verdade."

O debate em torno da iniciativa resume a posição peculiar que Johnson ocupa no ecossistema de saúde e tecnologia. Suas ideias são frequentemente ridicularizadas e frequentemente antecipam discussões que a medicina convencional leva anos para absorver.

Se sua investigação sobre endometriose vai gerar algum avanço científico real ou apenas mais conteúdo viral ainda é uma questão aberta. O que já aconteceu é que milhões de pessoas ouviram falar da doença pela primeira vez.

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