Ciência

Manuscrito antigo é descoberto após séculos e revela páginas 'perdidas' do Novo Testamento

Documento afetado era o Códice H, uma cópia do século 6 das cartas de São Paulo

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 7 de maio de 2026 às 14h13.

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No século 13, no Mosteiro da Grande Lavra, localizado no monte Athos, na Grécia, um manuscrito antigo foi desmontado. As folhas foram raspadas e reaproveitadas na encadernação de outros livros, uma prática recorrente naquele período devido à limitação de materiais disponíveis e ao reaproveitamento de obras desgastadas, segundo informações da agência alemã Deutsche Welle.

Esse processo de reutilização apagou parcialmente um documento produzido séculos antes, sem que seus responsáveis soubessem o impacto futuro da ação.

O documento afetado era o Códice H, uma cópia do século 6 das cartas de São Paulo, considerada uma fonte relevante para estudos do Novo Testamento. Com o reaproveitamento, parte do conteúdo foi perdida. O efeito colateral dessa prática, no entanto, resultou em marcas químicas que mais tarde permitiriam a recuperação de trechos considerados desaparecidos.

Pesquisadores conseguiram reconstruir 42 páginas do manuscrito a partir de vestígios deixados pela tinta original, sem localizar novos fragmentos físicos.

A investigação foi conduzida por uma equipe internacional liderada por Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, na Escócia. As páginas recuperadas estavam originalmente dispersas em acervos de países como Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França. A reconstrução foi possível devido a marcas residuais deixadas no pergaminho no momento em que o texto foi sobrescrito.

Segundo Allen, "Os produtos químicos da nova tinta causaram um dano por transferência nas páginas opostas". Ele acrescenta: "Isso acabou criando essencialmente uma imagem espelhada do texto na folha vizinha, às vezes deixando vestígios que se estendem por várias páginas, quase invisíveis a olho nu, mas muito claros com as mais recentes técnicas de imagem."

Uso de imagens multiespectrais e validação científica

Para identificar os vestígios, a equipe utilizou imagens multiespectrais, técnica que capta diferentes comprimentos de onda de luz para revelar detalhes não visíveis. O trabalho contou com a colaboração da Early Manuscripts Electronic Library, instituição voltada à digitalização e análise de manuscritos históricos.

Testes de radiocarbono realizados em Paris confirmaram que o pergaminho analisado remonta ao século 6, validando a origem do material.

Entre os conteúdos recuperados estão trechos das cartas paulinas, já conhecidos por estudiosos. O diferencial está em elementos adicionais, como listas antigas de capítulos, que apresentam organização distinta das versões atuais, e anotações feitas por escribas da época. Esses registros oferecem dados sobre práticas de leitura e transmissão de textos religiosos no período.

O Códice H também se destaca por conter o chamado "Aparato de Eutálio", sistema antigo utilizado como apoio ao estudo do Novo Testamento. Esse recurso inclui divisões textuais e referências auxiliares para leitura.

Allen afirmou: "Dado que o Códice H é um testemunho tão importante para a nossa compreensão das escrituras cristãs, ter descoberto qualquer nova evidência — para não falar dessa quantidade — de como ele era originalmente é simplesmente monumental".

O projeto recebeu financiamento do Templeton Religion Trust e do Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido. Uma versão digital do material já está disponível ao público, enquanto uma edição impressa segue em desenvolvimento.

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