Ciência

Estudo identifica 'ponto fraco' de bactéria encontrada em produtos da Ypê

Bactéria é considerada pela OMS uma das 15 mais perigosas do mundo devido à resistência a antibióticos

Pesquisa revela mecanismo de resistência da bactéria ligada ao caso Ypê (Freepik)

Pesquisa revela mecanismo de resistência da bactéria ligada ao caso Ypê (Freepik)

Yasmim Faria
Yasmim Faria

Colaboradora

Publicado em 23 de maio de 2026 às 15h07.

Uma equipe internacional de cientistas identificou o mecanismo molecular que permite à bactéria Pseudomonas aeruginosa resistir à ação de antibióticos, em uma descoberta que pode abrir caminho para novos tratamentos contra infecções hospitalares causadas por superbactérias.

O estudo, publicado na revista científica Journal of the American Chemical Society, foi conduzido por pesquisadores do Instituto Blas Cabrera de Química Física (CSIC), na Espanha, e da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

A Pseudomonas aeruginosa ganhou atenção recente no Brasil após ser identificada em produtos da Ypê proibidos pela Anvisa. A bactéria é considerada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) uma das 15 mais perigosas do mundo por sua elevada resistência aos tratamentos atuais.

'Calcanhar de Aquiles' da bactéria

Os pesquisadores descobriram que a bactéria utiliza uma espécie de "rebite molecular" para conectar sua membrana externa protetora à parede celular. Essa estrutura cria uma dupla barreira capaz de bloquear a ação de medicamentos, incluindo antibióticos como a penicilina.

Embora já se soubesse que bactérias Gram-negativas possuíam esse sistema de proteção, o mecanismo exato ainda era desconhecido.

De forma explicativa, a Pseudomonas aeruginosa tem uma parede interna e uma "casca" externa, que dificulta a entrada dos antibióticos. Para que essa proteção fique firme, a bactéria usa uma espécie de "rebite" microscópico para prender uma camada na outra.

O estudo identificou a proteína responsável por esse processo, chamada PA2854, e detalhou passo a passo como ocorre a ligação entre a membrana e a parede celular bacteriana.

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Ao reproduzir o mecanismo em laboratório, os cientistas conseguiram bloquear a formação desse "rebite", enfraquecendo a proteção da bactéria e tornando-a mais vulnerável aos medicamentos.

"Nossos resultados abrem caminho para o desenvolvimento de novas estratégias antimicrobianas que visam precisamente interferir nesse processo e tornar a membrana mais permeável aos medicamentos", afirmou Juan Hermoso, um dos líderes da pesquisa.

Combate a superbactérias

Para observar o mecanismo em nível atômico, os pesquisadores utilizaram técnicas de cristalografia de raios X de alta intensidade nos síncrotrons ALBA, em Barcelona, e ESRF, em Grenoble.

Segundo os cientistas, o mecanismo de ancoragem identificado não é exclusivo da Pseudomonas aeruginosa e também está presente em outros patógenos Gram-negativos. Isso aumenta o potencial da descoberta para o desenvolvimento de novas terapias contra bactérias multirresistentes.

A Pseudomonas aeruginosa é encontrada no solo, na água e em ambientes úmidos e costuma estar associada a infecções hospitalares. O microrganismo pode causar desde quadros leves, como otites, até doenças graves, incluindo pneumonia e infecções pulmonares severas.

A resistência aos antibióticos é considerada uma das principais ameaças à saúde pública global e já está associada a milhões de mortes por ano em todo o mundo. Cientistas alertam que o avanço das superbactérias pode comprometer a eficácia de tratamentos atuais e dificultar o combate a infecções comuns.

*Com informações da EFE

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