Enxaqueca: Estudos mostram que sinais iniciais surgem muito antes dos sintomas mais conhecidos (MaximFesenko/Thinkstock)
Redatora
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 07h02.
A enxaqueca é uma condição neurológica complexa que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. Embora seja frequentemente associada apenas à dor de cabeça, pesquisas recentes indicam que as crises envolvem múltiplos sistemas do corpo e começam muito antes do surgimento da dor.
De acordo com informações da BBC, estudos mostram que a enxaqueca deve ser entendida como um transtorno crônico, com episódios que representam a intensificação de alterações já em curso no cérebro.
Além da dor, as crises podem incluir náusea, sensibilidade à luz e ao som, fadiga intensa, alterações visuais e dificuldades de concentração.
Segundo neurologistas ouvidos pela reportagem, o termo “enxaqueca” não deve ser usado como sinônimo de dor de cabeça. O mais adequado é falar em transtorno de enxaqueca, no qual a dor é apenas um dos sintomas possíveis. As crises podem ocorrer de forma secundária, quando há menos de 15 dias de dor por mês, ou crônica, quando esse número é maior.
A condição costuma atingir pessoas em idade produtiva, entre os 20 e 50 anos, e está associada a impactos significativos na qualidade de vida, no desempenho profissional e na saúde mental.
Durante décadas, fatores como chocolate, queijo, café, vinho, perfumes, luz intensa e estresse foram apontados como gatilhos da enxaqueca. No entanto, evidências recentes sugerem que muitos desses elementos podem ser sintomas precoces, e não causas diretas.
Na fase inicial da crise, chamada de fase premonitória, o cérebro já apresenta alterações que aumentam a sensibilidade a estímulos externos. Isso faz com que o paciente perceba cheiros, sons ou luzes de forma mais intensa, criando a impressão de que esses fatores provocaram a dor.
Pesquisas com gêmeos e grandes estudos genéticos indicam que a enxaqueca tem um forte componente hereditário. Estima-se que fatores genéticos estejam envolvidos em cerca de 30% a 60% dos casos.
Análises do DNA identificaram dezenas de regiões genéticas associadas à enxaqueca, muitas delas relacionadas à regulação dos vasos sanguíneos, à comunicação entre neurônios e ao funcionamento de áreas específicas do cérebro. Esses achados ajudam a explicar por que a condição pode ocorrer em diferentes membros da mesma família.
Uma das principais hipóteses para explicar a enxaqueca envolve um fenômeno conhecido como depressão cortical alastrante. Trata-se de uma onda elétrica lenta e anormal que se propaga pelo córtex cerebral, alterando temporariamente a atividade dos neurônios.
Essa onda está associada a sintomas como aura visual, sensibilidade à luz e alterações cognitivas. Estudos recentes conseguiram observar esse processo em tempo real, reforçando a ideia de que a enxaqueca começa como uma disfunção elétrica no cérebro.
Apesar de ter origem cerebral, a dor da enxaqueca não surge diretamente no cérebro. Ela é percebida nas meninges, membranas que envolvem o órgão e são ricas em terminações nervosas e células do sistema imunológico.
Quando essas estruturas são ativadas, ocorre a liberação de substâncias inflamatórias que estimulam o nervo trigêmeo, responsável pela dor sentida:
Um dos maiores avanços recentes na compreensão da enxaqueca envolve o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP). Essa molécula atua na transmissão da dor e na inflamação e aparece em níveis elevados em pessoas com enxaqueca.
A descoberta levou ao desenvolvimento de medicamentos específicos que bloqueiam a ação do CGRP. Estudos clínicos mostram que esses tratamentos podem reduzir significativamente a frequência das crises e, em alguns casos, eliminá-las completamente.
Especialistas afirmam que não existe uma única causa para a enxaqueca. A condição resulta da interação entre fatores genéticos, alterações elétricas no cérebro, inflamação, hormônios e estímulos ambientais.
Por isso, a enxaqueca é cada vez mais vista como uma doença sistêmica, que exige abordagens personalizadas.