Ciência

E se a versão de você que ganhou na loteria realmente existir?

Em artigo publicado na Popular Mechanics, o físico Vlatko Vedral, de Oxford, discute como a mecânica quântica sugere múltiplas versões simultâneas da realidade

Gato de Schrödinger: morto ou vivo? Resposta pode ser as duas coisas (Imagem gerada por IA)

Gato de Schrödinger: morto ou vivo? Resposta pode ser as duas coisas (Imagem gerada por IA)

Publicado em 12 de maio de 2026 às 05h01.

A sensação é frequente: uma xícara quebrada, uma camisa manchada, uma decisão tomada. Parece óbvio que a vida vai sendo moldada a cada gesto. Mas e se for exatamente o contrário?

Essa é a provocação central de um artigo publicado pela revista Popular Mechanics, escrito por Vlatko Vedral, físico de Oxford, que usa sua própria adolescência — e um amplificador queimado num show de rock — para explicar um dos conceitos mais desconcertantes da mecânica quântica.

O efeito observador, mal compreendido

A física quântica ensina que partículas como elétrons e fótons existem em superposição, ou seja, em múltiplos estados ou lugares ao mesmo tempo, até que uma observação seja feita.

No momento da observação, essa superposição "colapsa" para uma única posição detectável. Daí surgiu a noção popular de que o observador cria a realidade ao olhar para ela.

Vedral chama esse entendimento de "impressão superficial, muito distante do que a física nos diz sobre o que a realidade realmente é", segundo a Popular Mechanics.

Bob, o fóton e as duas realidades

Para explicar o argumento correto, o texto usa um experimento mental simples. Um fóton atinge os óculos escuros de uma pessoa chamada Bob.

Pela mecânica quântica, após interagir com a superfície das lentes, o fóton entra em superposição: ele é simultaneamente transmitido (entra no olho de Bob, gerando um impulso nervoso) e refletido (quica para longe, sem nenhuma resposta neurológica em Bob).

Ambas as realidades existem ao mesmo tempo, segundo Vedral, mas Bob consciente só experimenta uma delas.

O ponto central do argumento: o Bob que vê o fóton pode se perguntar por que acabou nesse universo, e não no outro. Mas essa pergunta parte de uma premissa errada.

"A situação é, na verdade, o contrário: o fóton que entrou no olho de Bob levou Bob a ser essa pessoa, diferente do Bob no ramo onde o fóton foi refletido", escreveu. "É a observação do fóton que afeta Bob."

Quando as pessoas interagem com o mundo externo — que existe em uma multiplicidade de estados — a mudança crucial acontece em nelas mesmas, não no mundo. É a realidade que afeta a pessoa, não o inverso.

A interferência entre realidades

Há ainda um passo mais radical na argumentação. Os resultados de outras realidades também podem afetar Bob — mesmo aquelas que ele não vivenciou conscientemente. O mecanismo proposto é a interferência quântica: criar uma superposição e depois revertê-la.

Na prática, isso seria extremamente difícil de realizar, mas, segundo Vedral, se a mecânica quântica é universal, deveria ser possível com recursos suficientes.

O experimento mental envolve uma terceira personagem, a física Alice, que controla o experimento em que Bob e o fóton ficam entrelaçados.

Se Alice reverter perfeitamente o processo de entrelaçamento, Bob e o fóton retornam ao estado inicial, antes de qualquer observação. Para que isso seja possível, as duas alternativas precisam ter existido e sido perfeitamente superpostas em estado entrelaçado. Caso contrário, o estado final não seria idêntico ao inicial.

Segundo Vedral, isso demonstra que os elementos de realidade codificados em objetos quânticos são fundamentais, e que o ser humano — nesta realidade e em outras — é moldado cada vez que os observa.

O gato de Schrödinger

O experimento mental do gato de Schrödinger (aquele em que um gato existe simultaneamente vivo e morto dentro de uma caixa fechada, até que alguém a abra) é o modelo que sustenta toda essa discussão.

Para Vedral, "a relação entre Bob e o fóton é o bom e velho estado do gato de Schrödinger — ou um estado no qual um gato existe, morto ou vivo, em duas realidades", segundo o físico.

No texto, Vedral escreve que, "sem muito exagero, é justo dizer que todos os experimentos quânticos são versões mais ou menos complicadas do de Schrödinger."

Em um ramo, o fóton passa pelas lentes e Bob vê a luz. No outro, é refletido e Bob não percebe nada.

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Ambos os Bobs existem simultaneamente, cada um convicto da sua própria realidade. E, como Vedral argumenta, as outras realidades continuam existindo e podem, em princípio, interferir nesta.

O show de rock e a pergunta que não vai embora

Vedral retorna à memória pessoal para encerrar. Adolescente, tocava em uma banda e foi convidado para um show importante.

Forçou o amplificador Marshall ao máximo e queimou um fusível bem na hora errada. Seus companheiros tocaram sem ele enquanto ele se perguntava por que havia parado nesse universo tão infeliz.

Anos depois, ao aprender física quântica, percebeu que a pergunta estava errada desde o início. A outra realidade — aquela em que o amplificador não queimou, segundo ele— também existe. E, como no caso do gato de Schrödinger, afetam a realidade em que ele está inserido.

Isso significa que, para Vedral, em algum outro universo alguém acertou os números da Mega da Virada, enquanto, neste, isso jamais aconteceu.

A pergunta que diz tirá-lo do sono: como alguém saberia se duas realidades já se fundiram?

Talvez, assim como no caso de Bob, as realidades já tenham se cruzado inúmeras vezes — e simplesmente não tenhamos como perceber.

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