Ratos-cantores: espécies exibem padrão de 'conversa' que pode ajudar a explicar origem da linguagem humana (Getty Images)
Redatora
Publicado em 10 de maio de 2026 às 06h18.
Mudanças cerebrais associadas à vocalização humana também podem ajudar a explicar por que alguns ratos conseguem “conversar” de forma organizada. Um estudo publicado na revista Nature identificou semelhanças entre o cérebro humano e o de uma espécie conhecida como rato-cantor de Alston, sugerindo que a base biológica da linguagem pode ser mais comum entre mamíferos do que se imaginava.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Cold Spring Harbor Laboratory, que investigaram como esses roedores produzem vocalizações complexas e coordenadas.
Os ratos-cantores de Alston, encontrados na América Central e do Sul, emitem sequências de sons que podem durar vários segundos e seguem um padrão organizado, semelhante a uma conversa. Um dos aspectos mais curiosos é que eles respeitam o “turno de fala”, evitando sobrepor seus cantos aos de outros indivíduos.
Esse comportamento chamou a atenção dos cientistas, que passaram a investigar quais estruturas cerebrais permitem esse tipo de comunicação.
Ao comparar o cérebro dos ratos-cantores com o de espécies próximas que não apresentam esse padrão, os pesquisadores identificaram uma diferença relevante: os animais “cantores” têm cerca de três vezes mais conexões neurais entre o córtex motor e áreas associadas à vocalização.
Segundo a equipe, não se trata de uma transformação radical, mas de uma expansão de circuitos já existentes — um tipo de adaptação que também é apontado como importante na evolução da linguagem humana.
Os resultados indicam que habilidades complexas, como a comunicação organizada, podem surgir a partir de alterações relativamente sutis no cérebro.
A descoberta desafia a ideia de que comportamentos sofisticados dependem de estruturas totalmente novas. Em vez disso, a evolução pode atuar ampliando e reorganizando circuitos neurais já presentes em diferentes espécies.
Os resultados reforçam a hipótese de que a linguagem humana pode ter surgido a partir de adaptações graduais em sistemas neurais compartilhados com outros animais. Para os pesquisadores, compreender essas semelhanças ajuda a explicar como características como a alternância de "turnos na fala" e a flexibilidade vocal evoluíram ao longo do tempo.
Além de ampliar o entendimento sobre a linguagem, o estudo abre novas possibilidades para investigar a base neural de comportamentos complexos em animais. O método utilizado permite mapear conexões cerebrais com alta precisão, contribuindo para entender como pequenas variações estruturais influenciam funções como comunicação vocal, aprendizado e interação social entre diferentes espécies.