Ciência

Como 26 colmeias que escaparam no Brasil mudaram as abelhas das Américas

Episódio ocorrido em 1957 deu início ao cruzamento das linhagens africanas com populações europeias já estabelecidas no país

Abelhas: escape ocorrido em 1957 deu início à dispersão das chamadas africanizadas (Freepik)

Abelhas: escape ocorrido em 1957 deu início à dispersão das chamadas africanizadas (Freepik)

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 12h36.

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A fuga de 26 colônias de abelhas africanas de um experimento realizado no interior de São Paulo, em 1957, desencadeou uma transformação na apicultura brasileira. Seus descendentes cruzaram com abelhas europeias e deram origem às chamadas abelhas africanizadas, que posteriormente se espalharam pelas Américas.

A história começou um ano antes. Entre agosto e dezembro de 1956, o geneticista brasileiro Warwick Estevam Kerr percorreu regiões da África em busca de rainhas mais produtivas e adaptadas ao clima tropical. O objetivo era realizar cruzamentos controlados e selecionar características que pudessem beneficiar a apicultura brasileira.

Durante a expedição, Kerr coletou 133 rainhas. Apenas 47 sobreviveram às primeiras etapas de transporte e adaptação. Após uma nova seleção, 12 foram eliminadas e 35 seguiram para a área de quarentena. Foi nesse grupo que ocorreu o episódio que mudaria o rumo do experimento.

Por que o Brasil trouxe abelhas africanas?

Na década de 1950, as abelhas de origem europeia criadas no Brasil não apresentavam o mesmo desempenho em todas as regiões de clima tropical. Kerr buscava linhagens que combinassem características como produtividade, resistência a doenças e adaptação às altas temperaturas.

A intenção era manter as abelhas africanas sob controle para realizar cruzamentos e selecionar características consideradas úteis para a produção de mel no país.

As colmeias utilizadas no experimento tinham telas excluidoras. As estruturas permitiam a circulação das operárias, mas impediam que as rainhas saíssem devido ao tamanho maior.

Como 26 colônias escaparam do experimento

Em 1957, as telas de proteção foram retiradas sem o conhecimento dos responsáveis pelo projeto. Quando os pesquisadores retornaram, descobriram que 26 das 35 famílias mantidas sob observação haviam enxameado ou migrado.

A partir daquele momento, as abelhas passaram a se reproduzir fora do ambiente controlado e a interagir com populações já estabelecidas no Brasil.

No país, havia abelhas Apis mellifera de origem europeia, introduzidas anteriormente por imigrantes alemães, italianos e portugueses. Os descendentes das linhagens africanas passaram a cruzar naturalmente com essas populações.

Cruzamentos deram origem às abelhas africanizadas

A mistura entre as linhagens resultou nas chamadas abelhas africanizadas. Segundo o material histórico, elas reuniram características das populações africanas e europeias e apresentaram elevada adaptação às condições tropicais. Os novos enxames começaram a estabelecer colônias além da área onde havia sido realizado o experimento.

A dispersão avançou rapidamente. Entre 1957 e 1964, os cruzamentos com abelhas alemãs, italianas e portuguesas já haviam formado uma população diferente daquela existente anteriormente no país.

Nas décadas seguintes, as abelhas africanizadas avançaram por diferentes regiões brasileiras e alcançaram outras partes do continente americano.

Apicultura precisou se adaptar às novas abelhas

A expansão também exigiu mudanças nas práticas utilizadas pelos apicultores. Técnicas desenvolvidas para o manejo de abelhas europeias não apresentavam os mesmos resultados com as populações africanizadas.

Ao longo das décadas, pesquisadores e produtores desenvolveram métodos específicos para lidar com essas abelhas, incluindo adaptações nas práticas de proteção, alimentação e coleta.

Características inicialmente procuradas por Kerr, como adaptação ao ambiente tropical e produtividade, também passaram a fazer parte da apicultura baseada nas populações africanizadas.

O que começou com 133 rainhas coletadas na África acabou, portanto, assumindo uma dimensão muito maior. Depois da sobrevivência e seleção dos exemplares, 35 colônias chegaram à etapa de observação e 26 deixaram o apiário em 1957.

A partir delas e dos cruzamentos com populações europeias já existentes no Brasil, as abelhas africanizadas se espalharam pelo território e, posteriormente, por outras regiões das Américas.

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