Cientistas questionam vacina da Rússia contra covid-19: “dados estranhos”

Carta aberta escrita por 27 cientistas aponta inconsistências nos dados apresentados sobre a vacina "Sputnik V"

Há um mês, o maior problema da vacina da Rússia contra o novo coronavírus era a falta de estudos sobre ela, o que aumentava a desconfiança da comunidade científica. Os resultados preliminares divulgados na última sexta-feira, entretanto, continuam a causar estranheza e desconforto em diversos cientistas.

Em uma carta aberta ao editor da prestigiada revista científica The Lancet, onde os resultados foram publicados, 27 cientistas afirmaram que os dados são incompletos e que a pesquisa tinha alguns “padrões improváveis”. “Enquanto a pesquisa descrita no estudo é potencialmente significativa, a apresentação dos dados levanta várias preocupações que necessitam que consigamos todos os dados para investigar”, explicam os autores da carta.

Os cientistas também afirmam que faltam dados númericos originais na publicação e que “não se pode tirar conclusões em relação à confiabilidade dos dados apresentados, especificamente sobre as aparentes duplicidades detectadas”.

Um dos exemplos das duplicidades encontradas pelos cientistas é que 9 de 9 voluntários parecem ter anticorpos idênticos nos dias 21 e 28 da primeira vacina do Instituto Gamaleya administrada nos voluntários. Na segunda versão testada, os anticorpos de 7 de 9 voluntários também é igual.

A vacina teve duas fases pequenas de 42 dias —  uma delas estudou uma formulação congelada e a outra uma versão desidratada da vacina. O que foi descoberto, segundo o estudo, é que a vacina congelada é melhor para ser produzida em larga escala e preencher os estoques globais, enquanto a segunda opção é melhor para regiões de difícil alcance.

A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus.

É por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima.

Segundo a agência de notícias Reuters, um diretor do instituto que está desenvolvendo a “Sputnik V” afirmou que “os resultados publicados são autênticos e precisos e foram examinados por cinco revisores na The Lancet“.

O grupo de cientistas também escreveram na carta que os autores do estudo “não especificaram características suficientes sobre os pacientes convalescentes usados como um controle para a avaliação da resposta humoral” (resposta do sistema imune mediada por anticorpos). “Como eles foram iguais em diferentes grupos de voluntários? Desde que existem vários pacientes convalescentes no grupo de controle que aparentemente também não possuem anticorpos neutralizantes, é crucial saber quando o plasma foi coletado — para cada paciente, quanto tempo passou para que os sintomas e a negativação do teste acontecesse?”, questionam os autores da carta.

Em entrevista à emissora americana CNBC, o professor e um dos cientistas que assinaram a carta, Enrico Bucci, da Universidade Temple, nos Estados Unidos, afirmou que a falta de dados completos no estudo se deu pela “pressa de publicar coisas importantes” e que “no mundo todo existe uma pressão para que cientistas falem o que estão fazendo antes de estarem prontos”.

Bucci também fez uma comparação entre os resultados preliminares divulgados pela universidade de Oxford e a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca em relação a sua vacina. “Nesse caso os autores disponibilizaram 128 páginas de materiais sumplementares para os pares revisarem. Se você compara os dois estudos, você vê que algo está faltando no russo”, explicou.

No mês passado a Rússia foi o primeiro país a registrar uma vacina contra o coronavírus no mundo, apesar da desconfiança global causada pela falta de estudos que comprovassem a eficácia da proteção.  Também em agosto, o país informou que promoverá uma vacinação em massa já em outubro deste ano. No ínicio desta semana, a vacina russa começou a ser distribuída mesmo sem passar por todos os testes clínicos necessários para a sua aprovação.

Mais de 20 países já fizeram pedidos de mais de 1 bilhão de doses da vacina russa, mesmo com a preocupação da comunidade científica. Segundo o presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Jorge Callado, a “Sputnik V” deve chegar ao Brasil em 2021.

Um movimento parecido está sendo ensaiado pelo presidente americano Donald Trump, que afirmou recentemente que uma vacina contra o vírus pode estar disponível já em outubro. “Teremos em breve essa incrível vacina, com velocidade nunca vista antes”, disse ele. “A vacina será muito segura, muito efetiva, e as pessoas do mundo estarão felizes e voltaremos à prosperidade sem precedentes”, continuou.

Uma possível vacinação já em outubro ou no começo de novembro também foi ventilada em documentos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano. Segundo reportou a imprensa americana, o órgão enviou aos estados uma ordem para que “preparem locais e equipamentos para uma vacinação em massa já no mês que vem”. Se confirmada, a data pode ser antes das eleições presidenciais americanas, em 3 de novembro.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina. Até o momento, nenhuma situação do tipo aconteceu.

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