Zond 5: missão soviética foi a primeira a orbitar a Lua com terráqueos (NASA/Reprodução)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 9 de abril de 2026 às 15h45.
A missão Artemis II partiu da Flórida para o espaço há uma semana. Ela é a primeira viagem americana tripulada à Lua desde o fim do programa Apollo, em 1972, e tem um trajeto de volta ao redor do satélite, sem pouso lunar.
Apesar do futurismo envolvido na exploração espacial, o feito da Artemis já foi alcançado há quase 60 anos por dois jabutis soviéticos.
Em setembro de 1968, a missão Zond 5 acabava de ganhar um lugar na história da corrida espacial. Sem cosmonautas, muito menos astronautas, uma arca biológica foi enviada ao espaço para descobrir se organismos vivos sobreviveriam a uma ida e volta pela Lua.
Além dos dois répteis, moscas, vermes, plantas e bactérias também foram enviados.
O plano soviético para chegar à Lua atuava em duas frentes.
Enquanto o programa N1 trabalhava num foguete gigante capaz de pousar um cosmonauta na superfície lunar, o programa Zond tinha uma ambição mais modesta, mas não menos arriscada. A ideia era enviar cosmonautas numa volta ao redor da Lua sem pousar.
Para isso, precisavam primeiro saber o que uma viagem dessas fazia com organismos vivos, por isso a arca.
A bordo da Zond 5 estavam os dois jabutis da espécie Testudo horsfieldii, nativos dos estepes russos. No assento do piloto, um manequim com sensores de radiação completava a tripulação, que mais parece o elenco de uma animação cômica.
A nave decolou em 15 de setembro de 1968 e, três dias depois, passou a 1.950 quilômetros acima da face oculta da Lua antes de iniciar o retorno.
A cerca de 90.000 quilômetros da Terra, a missão fotografou o planeta e criou imagens então inéditas daquele ângulo.
A viagem de volta foi turbulenta. Um mecanismo foi contaminado durante o trajeto, sensores estavam mal instalados e um erro no sistema de navegação impediu o pouso planejado em território soviético, segundo o pesquisador Brian Harvey, autor do livro "Exploração Lunar Soviética e Russa".
A cápsula caiu no Oceano Índico em 21 de setembro e foi recuperada por marinheiros soviéticos, que a levaram até Mumbai. De lá, um cargueiro Antonov-12 a devolveu o "elenco" a Moscou.
Quando os técnicos abriram a cápsula, as tartarugas estavam vivas.
Haviam perdido cerca de 10% do peso corporal e mostravam sinais de exaustão, mas estavam em bom estado de saúde, segundo a NASA. Tornaram-se assim os primeiros seres vivos a orbitar a Lua e retornar à Terra.
Ambas foram depois sacrificadas para estudos científicos. A cápsula está hoje em exposição no Museu RKK Energiya, em Korolev, na Rússia.
Do lado de fora da URSS, a missão gerou mais confusão do que celebração.
O radioastrônomo Bernard Lovell, do Observatório Jodrell Bank, em Manchester, captou transmissões com o que pareciam ser vozes humanas vindas da nave e levantou a hipótese de que os soviéticos haviam mandado um cosmonauta secreto ao redor da Lua.
A resposta de Moscou veio rápida e seca. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores classificou os relatos de "boato" ao New York Times, em 18 de setembro de 1968.
Lovell não cedeu. "Não há dúvida alguma de que uma sonda russa estava próxima da Lua às 6h de hoje. Isso é um fato absolutamente concreto", respondeu ao jornal.
A explicação viria depois: as transmissões eram gravações de teste, incluindo a voz do cosmonauta Valeri Bykovsky.
A Zond 5 não surgiu do nada. Era o produto de uma década em que a União Soviética havia transformado o espaço em palco de demonstração de poder e acumulado uma série de primeiros históricos.
Tudo começou em 1957, com o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da história. Semanas depois, a cadela Laika foi ao espaço a bordo do Sputnik 2, mas morreu em órbita devido ao superaquecimento da cápsula.
O salto para os humanos veio em 12 de abril de 1961, com Yuri Gagarin.
Filho de trabalhadores rurais de uma fazenda coletiva próxima a Moscou, Gagarin havia descoberto a aviação na adolescência, tornado-se piloto militar e sido selecionado entre 20 candidatos para o programa espacial.
A bordo da Vostok 1, Gagarin orbitou a Terra durante 108 minutos a 27.400 quilômetros por hora, atingindo 327 quilômetros de altitude.
Ele nunca mais voaria ao espaço. Após a morte do cosmonauta Vladimir Komarov em 1967, quando o paraquedas da Soyuz 1 falhou no pouso numa missão para a qual Gagarin era reserva, a URSS decidiu que não podia se dar ao luxo de perder seu maior cosmonauta.
Em março de 1968, Gagarin morreu aos 34 anos quando seu avião de treinamento caiu na Base Aérea de Chkalovsky. Seis meses depois, duas tartarugas fariam o que ele nunca pôde: orbitar a Lua.
Em Washington, as sucessivas conquistas do programa espacial soviético eram lidos como um sinal de alerta.
A resposta veio em dezembro de 1968, três meses após a missão das tartarugas. A Apollo 8 levou Frank Borman, James Lovell e William Anders em órbita lunar, os primeiros humanos a ver a Lua de perto.
Foi de lá que Anders fotografou a Earthrise, a imagem da Terra nascendo sobre o horizonte lunar que se tornaria uma das fotografias mais reproduzidas da história.
O capítulo final da corrida foi escrito em julho de 1969. Em 20 de julho, Neil Armstrong e Buzz Aldrin pousaram na superfície da Lua com a Apollo 11, realizando o que o programa soviético nunca chegou a tentar com uma tripulação.