Alzheimer: pesquisadores investigaram o papel do sistema imunológico na neurodegeneração (Freepik)
Redatora
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 10h48.
Uma resposta imunológica que contribui para os danos associados à doença de Alzheimer pode começar fora do cérebro. Um estudo da WashU Medicine identificaram uma via que se inicia nos linfonodos e parece preparar células de defesa para migrar ao sistema nervoso, onde participam da neurodegeneração.
Em experimentos com camundongos, o bloqueio desse mecanismo reduziu de forma acentuada os danos cerebrais e preservou as funções cognitivas. Os resultados, publicado na revista científica Nature Neuroscience, apontam para um possível alvo de futuras terapias contra o Alzheimer e outras doenças associadas à proteína tau.
Há anos, pesquisadores observam grande quantidade de células T no cérebro de pessoas com Alzheimer. Embora existam evidências de que elas contribuam para a degeneração dos neurônios, ainda não estava claro onde eram ativadas nem o que desencadeava sua migração para o cérebro.
Para investigar essa questão, cientistas da Universidade de Washington em St. Louis analisaram o papel das chamadas células dendríticas clássicas tipo 1 (cDC1). Essas células ajudam determinados linfócitos T a identificar os alvos moleculares que devem atacar.
Poucas cDC1 são encontradas no cérebro. Além disso, aquelas presentes no órgão não pareciam interagir com as células T que surgiam após o desenvolvimento dos emaranhados de tau. As evidências levaram os pesquisadores a investigar se a ativação das células T ocorria fora do cérebro, especialmente nos linfonodos.
Para testar essa possibilidade, a equipe eliminou as células dendríticas dos linfonodos e de outros tecidos de camundongos que desenvolveriam emaranhados de tau e neurodegeneração.
O resultado foi expressivo. O aumento de células T no cérebro, especialmente das células T CD8, praticamente desapareceu. A neurodegeneração associada também foi fortemente reduzida. Apesar disso, a quantidade de emaranhados da proteína tau permaneceu praticamente inalterada.
Os animais também preservaram suas habilidades cognitivas. O resultado sugere que reduzir a atividade das células T pode proteger contra parte dos danos cerebrais mesmo quando os emaranhados de tau continuam presentes.
Os pesquisadores ainda não sabem qual sinal faz as células dendríticas ativarem as células T. Uma das hipóteses é que os danos relacionados à proteína tau provoquem a liberação de materiais das células cerebrais. Esse material poderia chegar aos linfonodos do pescoço, onde seria reconhecido pelas células dendríticas.
Elas, então, poderiam apresentá-lo como alvo às células T. Depois de ativadas, essas células migrariam para o cérebro e contribuiriam para a neurodegeneração.
O mecanismo ainda precisa ser esclarecido, e os pesquisadores agora buscam identificar o sinal responsável por essa resposta.
Uma das implicações do estudo é que parte dessa via imunológica ocorre fora do cérebro, o que pode oferecer alvos mais acessíveis para futuras terapias.
A barreira hematoencefálica representa um obstáculo para tratamentos destinados ao sistema nervoso central, porque controla a passagem de substâncias do sangue para o cérebro.
Segundo os pesquisadores, existem diferentes formas de manipular células T já estudadas e utilizadas no tratamento de outras doenças. Essas estratégias, porém, ainda precisam ser investigadas no contexto das doenças neurodegenerativas.
A equipe agora testa se interferir na atividade das células dendríticas durante a meia-idade, período em que os emaranhados de tau começam a surgir no modelo experimental, produz proteção semelhante.
Os cientistas também buscam identificar o sinal específico que direciona as células T ao cérebro. Se encontrado, esse mecanismo poderá representar outro alvo para futuras pesquisas.
Apesar dos resultados, os cientistas destacam que o estudo foi realizado em camundongos. Por isso, ainda será necessário determinar se essa mesma via desempenha papel semelhante na doença de Alzheimer em humanos e se sua interrupção pode trazer benefícios terapêuticos.