Ciência

A caminhada espacial que quase terminou em tragédia e mudou a Nasa

A operação Gemini 9, em 1966, revelou os riscos das primeiras caminhadas espaciais e preparou o caminho para as missões Apollo à Lua

O risco enfrentado por Cernan e a decisão de Stafford marcaram o início de um novo padrão de segurança para caminhadas espaciais (	libre de droit/Getty Images)

O risco enfrentado por Cernan e a decisão de Stafford marcaram o início de um novo padrão de segurança para caminhadas espaciais ( libre de droit/Getty Images)

Publicado em 12 de novembro de 2025 às 06h09.

Última atualização em 12 de novembro de 2025 às 06h14.

Antes da Apollo levar o homem à Lua e da Mercury inaugurar a presença americana no espaço, a Nasa realizou o programa Gemini — uma série de dez missões entre 1965 e 1966 que funcionou como ponte entre a experiência inicial e a conquista lunar. Nesse período de 20 meses, a agência testou as técnicas que tornariam possíveis as viagens mais longas: acoplamentos orbitais, voos de até duas semanas e, sobretudo, as primeiras caminhadas espaciais.

A mais arriscada dessas experiências ocorreu na missão Gemini 9, em junho de 1966, com os astronautas Tom Stafford, comandante, e Gene Cernan, piloto. O objetivo era realizar uma atividade extraveicular (EVA) de longa duração — e testar uma mochila propulsora desenvolvida pela Força Aérea. O plano transformou-se em uma das operações mais perigosas da história da agência, segundo reportagem da Time.

À deriva no espaço

Dois dias após o lançamento, Cernan deixou a cápsula para cumprir uma sequência de tarefas fora da nave. A caminhada exigia que ele se deslocasse por toda a extensão da Gemini, de 5,6 metros, conectado por um cabo de 7,6 metros, chamado pelos astronautas de “cobra”. A falta de gravidade, somada à rigidez do traje pressurizado, tornou a movimentação quase impossível. Cada tentativa de se impulsionar resultava em um movimento oposto, fazendo com que o astronauta girasse descontroladamente.

Stafford, preso ao assento, observava da janela enquanto tentava manter a nave estável sem acionar os propulsores — o que poderia queimar o traje do colega. Do centro de controle em Houston, os médicos registravam o aumento da frequência cardíaca de Cernan, que chegou a 180 batimentos por minuto. A temperatura do traje oscilava entre extremos de calor e frio conforme a espaçonave passava do lado diurno ao noturno da Terra.

Com o visor embaçado e a visão comprometida, Cernan tentou alcançar a Unidade de Manobra de Astronauta (AMU), o equipamento que deveria testar. A iluminação falhou, a comunicação ficou instável e a exaustão o impediu de seguir o plano original. Temendo um acidente, Stafford tomou a decisão de encerrar a operação.

“Não vai dar. Vamos abortar”, comunicou o comandante.

O legado técnico e humano da Gemini 9

A manobra de retorno foi lenta e difícil. Cernan precisou contornar fragmentos metálicos deixados pelo foguete Titan II e encontrar, às cegas, o caminho de volta à escotilha. Segundo a Time, o episódio revelou que os trajes espaciais da época eram inadequados para atividades longas fora da cabine, levando a Nasa a redesenhar completamente os equipamentos antes das missões Apollo.

O risco enfrentado por Cernan e a decisão de Stafford marcaram o início de um novo padrão de segurança para caminhadas espaciais. A partir dali, a agência criou protocolos de emergência e redefiniu os limites fisiológicos de seus astronautas em missões extraveiculares.

A experiência da Gemini 9 foi fundamental para o sucesso das operações lunares posteriores. Gene Cernan, que quase perdeu a vida em 1966, voltaria ao espaço seis anos depois — desta vez como comandante da Apollo 17, a última missão tripulada à superfície da Lua.

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