Uma catedral alemã do som

Rafael Kato

Em uma prova de seu vestibular, a USP perguntou certa vez quem foram os responsáveis pela construção das catedrais medievais. A resposta era que se tratava de uma obra de artesãos livres e remunerados, uma vez que seria impossível encontrar uma única mente capaz de planejar, construir e decorar um tipo de edifício que se arrastava por séculos — a Notre-Dame de Paris, por exemplo, começou a ser construída em 1163 e terminou apenas em 1345 —, era modificado para atender os gostos de quem estava no poder, estourava o orçamento inicial previsto, exigindo maiores contribuições do povo, mas que, ao final, maravilhava seus visitantes. A Elbphilharmonie, a moderna sala de concertos inaugurada em Hamburgo no último dia 11, é, por quase todas as características, uma catedral na Alemanha do século 21.

Com a diferença de que seus autores são conhecidos — o escritório suíço de arquitetura Herzog & de Meuron, famosos pelo projeto do estádio Ninho de Pássaro, em Pequim —, todas as outras definições estão lá: o atraso, os custos elevados, a necessidade de novo financiamento e o poder de embasbacar quem a visita. Prevista para 2010, a Elbphilharmonie ficou pronta apenas em 2017 com um estouro no orçamento de 700 milhões de euros (o custo total foi de 860 milhões), exigindo novo aporte da prefeitura da cidade. Após ser inaugurada, não há duvida: o prédio colocará a cidade de Hamburgo definitivamente no mapa do turismo, sobretudo para os fãs de música clássica.

Com 110 metros de altura, a Elbphilarmonie fica às margens do rio Elba (por isso seu nome) e é o maior edifício da cidade. A sala principal de concertos possui 2.100 lugares. Há ainda uma sala menor para concertos de câmara com capacidade para 550 pessoas, além de um estúdio capaz de abrigar 150 pessoas sentadas. O exterior é feito inteiramente de vidro e metal, construído sobre um antigo armazém do porto de Hamburgo. A área do armazém abriga o estacionamento, escritórios da administração e o estúdio. Enquanto que no topo de vidro — acessado por uma longa escada rolante em formato curvo, cujo final demora a ser visto — ficam o deck de observação, o enorme saguão em madeira clara e as duas salas de apresentação. Um hotel operado pela rede de luxo Westin e uma torre de apartamentos completam o complexo.

Apesar de seu exterior impressionante, o design da Elbphilarmonie não é unanimidade. O jornal inglês Financial Times, por exemplo, disse que parecia um “pedaço de torta congelada sobre uma prisão”, e não um navio e ondas, como queriam os arquitetos na sua homenagem ao porto de Hamburgo. Foi a pressa inicial nesse polêmico projeto arquitetônico a responsável pelo atraso final e pelo orçamento estourado. “A cidade começou a construção muito cedo. Nós não havíamos terminado os planos ainda. Como tínhamos contratos com os arquitetos e com as empreiteiras ao mesmo tempo, conflitos surgiram”, diz Enno Isermann, porta-voz da Secretária de Cultura de Hamburgo.

ELBPHILHARMONIE: sala de concerto foi construída no “estilo vinhedo”, em que o público fica ao redor da orquestra (Christian Charisius/ Getty Images)
ELBPHILHARMONIE: sala de concerto foi construída no “estilo vinhedo”, um formato em que o público fica ao redor da orquestra (Christian Charisius/ Reuters)

O atraso e as brigas judiciais mancharam a fama e a tradição alemã de eficiência — assim como a interminável obra do aeroporto de Brandemburgo, em Berlim, que continua a denigrir a imagem alemã após sete anos de atraso e erros, segundo relatórios do governo, “catastróficos de projeto”.  “A Elbphilarmonie era um sonho e um pesadelo, como uma estrela mundial e como uma brincadeira, como uma vergonha e como um milagre. Esta casa tem sentimentos fortes e ambivalentes, acionados antes mesmo que os primeiro sons pudessem ser ouvidos aqui”, afirmou o presidente da Alemanha, Joachim Gauck, acompanhado da chanceler Angela Merkel, na inauguração do dia 11.

Uma celebração alemã

A mensagem final pretendida pela Elbphilarmonie, no entanto, não é de exagero ou colapso do bom senso alemão, mas da união da nação por um projeto maior. “Este edifício é como nossa sociedade aberta. Sua arquitetura reúne coisas diferentes sem querer torná-las iguais. Estamos aqui juntos, seguros em comunidade, mas sem perder a nossa individualidade”, afirmou Gauck.

O estilo de vida alemão foi reforçado pelo programa de abertura, com obras de Richard Wagner e Beethoven, executado pela aclamada orquestra da Rádio do Norte da Alemanha, a NDR Elbphilharmonie, agora residente no novo prédio, e com a performance do badalado tenor alemão Jonas Kaufmann.

Outra orquestra da cidade, a tradicional Filarmônica de Hamburgo, fundada em 1828 e ponto de encontro no século 19 de músicos como Johannes Brahms, Gustav Mahler e Clara Schumann, também mandará seus principais concertos na sala, assim como a Orquestra da Ópera de Hamburgo. A sede oficial dessas orquestras, a Laeiszhalle, de 1908, ainda continuará a ser usada, apesar de dever muito em acústica para a Elbphilharmonie. A primeira tem formato de “caixa de sapato” e uma acústica dependente dos ornamentos da parede, além de alguns lugares de visão pouco privilegiada.

A Elbphilharmonie, por outro lado, é o padrão-FIFA das salas de concerto. Com seu formato conhecido como “estilo vinhedo” — em que o público senta ao redor do palco em fileiras em diversas direções — ninguém fica longe mais do que 30 metros da orquestra. A acústica é igual para todos graças a 10.000 placas feitas individualmente e com relevos diferentes calculados por um algoritmo desenvolvido pelo engenheiro de som japonês Yasuhisa Toyota.

Mas um projeto complexo e caro como esse faz sentido? Para a cidade de Hamburgo a resposta é sim. A Elbphilharmonie é a coroação de um projeto de revitalização da zona portuária da cidade, caiu em decadência entre os anos 1960 até a reunificação alemã. Além das receitas advindas da venda dos apartamentos e do hotel, o prédio também pode representar uma importante razão para o turismo na cidade. Hamburgo, ao norte do país, está longe das rotas mais visitadas pelos turistas, como a capital Berlim e a Baviera.

O prédio também é um marco importante para as orquestras da cidade que, apesar da qualidade, ainda não gozavam do mesmo prestígio internacional da Filarmônica de Berlim. Por fim, a Elbphilharmonie desempenhará um importante papel social: todos os estudantes da cidade assistirão pelo menos um concerto no local durante sua vida escolar. “Qualquer pessoa da cidade poderá agendar e requisitar um workshop educativo na Elbphilharmonie”, afirma Isermann.

O que antes era uma vergonha ou piada foi totalmente esquecido pela comunidade local. Todas as apresentações da temporada 2017 na Elbphilharmonie, incluindo os concertos de convidados como as filarmônicas de Berlim e Viena, estão com os ingressos esgotados.

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