Colostro: como o suplemento feito do primeiro leite dos mamíferos virou tendência de consumo nos EUA (MoMo Productions/Getty Images)
Colaboradora
Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 09h53.
O uso de colostro bovino como suplemento alimentar é a nova tendência nos Estados Unidos. O produto, que promete benefícios para a pele, saúde intestinal e imunidade, tem crescido nas vendas com o apoio de celebridades — apesar das evidências científicas limitadas. As informações são do Business of Fashion.
O colostro é o primeiro leite produzido por mamíferos após o parto. No caso dos bovinos, a alta concentração de proteínas, gorduras, vitaminas, minerais, imunoglobulina A (IgA) e imunoglobulina G (IgG) conferem à secreção o papel de "garantir a sobrevivência dos bezerros logo após o nascimento", segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa).
Dados da NielsenIQ mostram que consumidores americanos gastaram mais de US$ 19 milhões em suplementos de colostro nas 52 semanas encerradas em 3 de janeiro de 2026, alta superior a 3.000% em relação aos cerca de US$ 612 mil registrados dois anos antes. Outros US$ 3 milhões foram destinados a produtos que incluem o ingrediente.
O colostro como suplemento ganhou visibilidade após ser promovido por celebridades e influenciadores. Uma das marcas mais conhecidas é a Amra, fundada em 2021 e uma das pioneiras do mercado, que já foi divulgada pela atriz Jennifer Aniston. Em junho, a Vogue publicou a rotina pré-ioga da cantora Dua Lipa, que consiste em tomar o suplemento misturado com água e eletrólitos.
A fundadora e CEO da Amra, a médica Sarah Rahal, afirma que criou o produto após observar aumento de doenças crônicas em pacientes e enfrentar problemas digestivos. Segundo ela, a empresa levou dois anos para formular o suplemento, incluindo a seleção de colostro de vacas criadas a pasto nos EUA e a criação de um método próprio de pasteurização para preservar nutrientes.
"Descobrimos que ele [o colostro] confere os mesmos benefícios de restaurar a inteligência original do corpo, independentemente da idade em que é ingerido", contou a médica.
Apesar do avanço nas vendas e das promessas das empresas, as evidências científicas sobre os benefícios do colostro para adultos ainda são limitadas, segundo especialistas ouvidos pela Business of Fashion.
O site da Armra diz que mais de 5.000 estudos comprovam efeitos do ingrediente, mas análises independentes indicam que muitos desses trabalhos são de pequena escala, baseados em testes com animais ou financiados pela indústria de laticínios.
Para Timothy Caulfield, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Alberta, o padrão repete o observado com outros suplementos. Segundo ele, o interesse inicial costuma ser impulsionado por marketing, mas revisões posteriores tendem a encontrar efeitos "pequenos ou inexistentes".
Jeffrey Bland, cofundador do Instituto de Medicina Funcional, também avalia que as evidências clínicas são insuficientes para sustentar o uso em larga escala. Ele afirma que o suplemento pode ter utilidade em casos específicos, como certos distúrbios gastrointestinais, mas destaca a existência de alternativas mais acessíveis, como suplementos de fibra.
Os profissionais destacam, ainda, que suplementos alimentares não passam pelo mesmo rigor regulatório aplicado a medicamentos. Por isso, a recomendação é fazer uma avaliação individual antes do consumo, já que a composição do colostro pode variar conforme fatores como processamento, raça dos animais, alimentação e condições de produção.