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Por que a série 'The White Lotus', da HBO, é a melhor da temporada

Em seis capítulos, série é um resumo das pautas e dos estereótipos do nosso tempo, mas tem o bom senso de não tratá-los como discurso, mas sim como base para uma comédia desconfortável

Cenas de paraíso tropical pintadas num papel de parede: pássaros, macaquinho fofo, vegetação exuberante, frutas exóticas, onça sorridente, hibiscos, salamandras. Música havaiana. Mas logo há sombras sobre as imagens. As frutas apodrecem. As folhas esplendorosas são roídas por lagartas. Há cobras no paraíso, e ameaças veladas ainda mais sinistras: um peixe de olho esbugalhado preso em algas, uma canoa de remadores que enfrenta ondas saídas de uma gravura de Hokusai para desaparecer no take seguinte.

A moral da história está no primeiro minuto da abertura brilhante: não dá para ser feliz.

Ao longo dos próximos 409 minutos, distribuídos por seis episódios, “The White Lotus”, série da HBO Max, discutirá isso em várias frentes. A produção é um típico produto da pandemia, com poucos atores concentrados na bolha luxuosa do Four Seasons Maui, transformado pela produção no White Lotus do título. Fotografia, trilha sonora e direção de arte são espetaculares.

O cenário do resort é um sonho e os dias são perfeitos, mas é difícil lidar com o tédio, com a realidade, com um mundo em transformação. Os hóspedes são ricos, mimados e estão de férias; os funcionários lutam para sobreviver e estão no paraíso a trabalho.

O jovem milionário, em lua de mel com a mulher perfeita, não consegue superar a amargura de não ter conseguido uma suíte maior; a executiva poderosa passa os dias rearrumando os móveis para que o cenário não atrapalhe os zooms com a China; a herdeira solitária que precisa espalhar as cinzas da mãe no mar faz promessas vazias à atendente do spa, em quem ancora a sua carência; as adolescentes progressistas, supostas leitoras de Nietzsche e de Freud, fazem estragos por onde passam, convencidas da sua superioridade moral.

Todos são pessoas horríveis, mas têm pontos de vulnerabilidade e o mal que fazem é inconsciente. Nenhum é um vilão no sentido tradicional do termo.

Os principais temas do autor e diretor Mike White são o privilégio branco, a desigualdade social, a luta de classes, o feminismo, o racismo, a herança do colonialismo e,
last but not least, a hipocrisia da cultura americana do woke, o politicamente correto.

Nada escapa. Ninguém escapa.

Ou quase ninguém: a Belinda de Nathalia Rothwell, administradora do spa, é o ponto solitário de conforto e paciência. Já a esperança de redenção fica por conta do filho da executiva, um adolescente viciado em games e em pornografia, que por acaso acaba descobrindo a beleza do mundo.

As personagens são uma melhor do que a outra e foram entregues a atores que lhes fazem justiça. O destaque vai para Murray Bartlett, o gerente Armond, uma pilha de nervos sob a aparência gentil e as roupas suaves. Ele degringola episódio a episódio, transformando-se no protagonista da série, que se divide equitativamente pelos vários fios narrativos.

“The White Lotus” é um resumo das pautas e dos estereótipos do nosso tempo, mas tem o bom senso de não tratá-los como discurso. Em vez disso, toma-os como base para uma comédia desconfortável que se estende por cinco episódios, até o clímax dramático do sexto.

É brilhante do começo ao fim.

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