O RM 027 acompanhou Nadal em Roland Garros de 2013, um dos títulos conquistados com o relógio no pulso (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 10h03.
Até o início dos anos 2010, um relógio mecânico e uma partida de tênis profissional eram vistos como incompatíveis. O impacto repetido de um saque ou de uma bola batida com força total gera acelerações que um mecanismo tradicional, cheio de engrenagens, molas e parafusos milimétricos, não foi projetado para suportar. A recomendação entre relojoeiros sempre foi parecida com a que se dá a motociclistas: a vibração constante pode afrouxar componentes internos e afetar a precisão do relógio, mesmo em atividades bem menos violentas do que um forehand.
Foi esse obstáculo técnico que a Richard Mille decidiu atacar em 2008, quando o fundador da marca suíça procurou Rafael Nadal para propor algo que nenhum fabricante havia tentado antes: um relógio que o tenista pudesse usar durante as próprias partidas.
Nadal resistiu no início e não acreditava que fosse possível competir em alto nível com um mecanismo no pulso. Dois anos depois, em 2010, veio o RM 027, primeiro tourbillon do mundo desenvolvido para sobreviver a uma quadra.
Nadal ergue o troféu de Wimbledon 2010 usando o RM 027, poucos meses após o lançamento do modelo (Reprodução/Instagram)
O RM 027 pesava menos de 20 gramas com pulseira incluída e usava um sistema de suspensão por cabos inspirado na forma como uma raquete de tênis é encordoada. Essa estrutura reduzia o atrito e distribuía o impacto do movimento no pulso de Nadal, protegendo o tourbillon, complicação historicamente frágil até para o manuseio no dia a dia. O relógio saiu de fábrica a US$ 500 mil, hoje R$ 2,58 milhões, e atualmente é negociado no mercado secundário acima de US$ 1,2 milhão, cerca de R$ 6,19 milhões.
A parceria evoluiu ao longo de mais de uma década, uma vez que o modelo mais recente usado por Nadal em competição, o RM 27-04, pesa 30 gramas e resiste a acelerações de mais de 12 mil G, recorde para a marca até hoje. A peça acompanhou o espanhol em sua vitória em Roland Garros de 2022 e é avaliada atualmente em cerca de US$ 2,3 milhões, o equivalente a R$ 11,87 milhões. "Assim que experimentei o relógio de verdade, eu amei", contou Nadal sobre o primeiro contato com o RM 027 em 2008.
Wawrinka disputou o US Open de 2023 usando o Norqain Wild One em quadra (Divulgação)
O sucesso da parceria abriu espaço para concorrentes explorarem o mesmo nicho. A Norqain, marca suíça independente fundada em 2018, criou a linha Wild One em conjunto com o ex-número 3 do mundo Stan Wawrinka, que se tornou sócio e embaixador da empresa em 2024. O modelo usa uma caixa em fibra de carbono NORTEQ, seis vezes mais leve que o aço, e um amortecedor de borracha que resiste a acelerações de até 5 mil G. Wawrinka já disputou partidas oficiais, incluindo o US Open de 2023, usando a peça no pulso. A versão limitada Wild One Stan the Man, com apenas 85 unidades em homenagem ao ano de nascimento do tenista, custa US$ 6.990, cerca de R$ 36 mil.
A Gerald Charles, marca fundada pelo relojoeiro Gérald Charles Genta, o mesmo criador do desenho original do Royal Oak da Audemars Piguet, lançou o Maestro GC Sport Tennis com um movimento Vaucher GCA 3002 equipado com sistema Incabloc, testado em quadra pelos tenistas profissionais Andrea Vavassori e Hubert Hurkacz, ambos já top 10 da ATP. São 200 peças ao preço de CHF 17.600, cerca de R$ 111 mil.
Novak Djokovic é embaixador da Hublot desde 2021 (Divulgação)
Apesar da tecnologia disponível, boa parte dos embaixadores de marcas de relojoaria no tênis ainda prefere não arriscar. Novak Djokovic é embaixador da Hublot desde 2021 e já emprestou o nome a modelos como o Big Bang Unico Novak Djokovic, vendido a US$ 52.700, cerca de R$ 272 mil, com caixa feita de raquetes Head e camisetas Lacoste usadas pelo próprio sérvio em competições. Mesmo assim, Djokovic não costuma jogar com o relógio no pulso, reservando a peça para aparições fora de quadra.
O hábito de jogar usando relógio remonta a décadas antes da parceria entre Nadal e Richard Mille. Nos anos 1980 e no início dos anos 1990, Boris Becker, Stefan Edberg e Andre Agassi já disputavam partidas com relógios no pulso, numa época em que a prática soava estranha tanto para o público quanto para os fabricantes de relojoaria.
Hoje, marcas como Richard Mille, Norqain e Gerald Charles publicam os números exatos de resistência a impacto de cada modelo como parte do material técnico de lançamento, com testes realizados em quadra por tenistas profissionais antes do lançamento comercial das peças.