CRÍTICA | Pecadores, de Ryan Coogler (HBO/Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h02.
Entre as principais surpresas de 2025 esteve a chegada de um novo filme de vampiros em uma estética distinta, bem menos pálida do que quase todas as demais já feitas para as telonas. E que bateu o recorde histórico do Oscar com 16 indicações.
Ambientada em 1932, a trama de Pecadores gira em torno de três personagens principais: Fumaça e Fuligem (Michael B. Jordan), gangsteres e irmãos gêmeos que passaram anos trabalhando para a máfia de Chicago, e Samie (Miles Caton), primo dos dois, apaixonado pelo blues e pelo jazz, e dono de uma voz tão poderosa que é capaz de invocar até os demônios da Terra.
Quando os gêmeos retornam abonados de Chicago ao Delta do Mississipi, estado dominado pela segunda onda da Ku Klux Klan na época, compram uma serraria de Hogwood, um fazendeiro racista, para inaugurar um bar com música ao vivo voltado para a comunidade negra. Logo na primeira noite de euforia, no entanto, coisas sobrenaturais (e reais) perturbam a felicidade do público local e transformam a festa de inauguração em um show de horrores.
Embebido da “música do diabo”, como a música negra americana era chamada na época, o filme se apropria do horror e de arquétipos já reconhecidos do cinema para mergulhar fundo em um poético e potente roteiro original. É a crítica mais criativa — e corajosa — que o cinema já fez na última década sobre a discriminação racial. E inova ao associar o racismo ao famoso mito (e tropo) dos vampiros, sob o pano de fundo real dos Estados Unidos na década de 1930.
A alma do filme reside na ideia de que o blues é a manifestação física de um pacto de sobrevivência. Nesse contexto, o sobrenatural é, muitas vezes, menos aterrorizante do que as estruturas sociais que cercam os personagens — e imprime neles um sentimento indigesto que faz o público se questionar, de fato, se a realidade é menos desesperadora que a ficção.
Visualmente, o filme se afasta do gótico tradicional para abraçar uma paleta de cores terrosas e saturadas, que evocam o calor úmido das plantações e a fumaça densa dos bares de jazz. Esse design de produção meticuloso serve de moldura para o que Coogler faz de melhor: filmar a conexão humana.
Se não bastasse o roteiro arrebatador, o cineasta também mistura bem nesse blockbuster inesperado a sensualidade latente e uma malícia vibrante nas interações do elenco, que transformam o bar de Fumaça e Fuligem em um santuário de prazer e liberdade. Não à toa, o personagem principal termina o filme dizendo que as horas dentro daquele lugar foram o momento mais livre da vida dele.
Direção: Ryan Coogler | Elenco: Michael B. Jordan, Hailee Steinfeld, Wunmi Mosaku | País: Estados Unidos | Onde assistir: HBO Max; Prime Video e Apple TV (aluguel)