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O tesouro mais improvável da Antártida era uma caixa de uísque

Esquecidas sob o gelo desde 1907, garrafas levadas por Ernest Shackleton foram encontradas um século depois e permitiram recriar um destilado desaparecido

Publicado em 26 de julho de 2026 às 16h45.

Em fevereiro de 2007, um grupo de escavadores foi para a Antártida para reaver os restos do acampamento de Ernst Shackleton, um explorador da virada do século XX. Lá, numa maravilhosa serendipidade, encontraram três caixas de uísque totalmente envolvidas no gelo eterno. Rare Old Highland Malt Whisky, engarrafado por Mackinlay & Co. As garrafas estavam lá desde 1907 e faziam parte do improvável estoque da conhecida Expedição Discovery, capitaneada por Shackleton naquele ano em seu navio Nimrod.

Caso você nunca tenha ouvido – ou lido – sobre ele, vale um preâmbulo. Ernst Shackleton foi um homem curioso. Nascido em 1874, ele tinha entre zero e pouquíssimo treinamento formal como explorador. Aliás, carecia dos predicados básicos mesmo para qualquer mero repórter da National Geographic, hoje em dia.

Incrivelmente, Ernst não gostava de gelo, nem de cachorros. Ele era impulsivo, teimoso e um adúltero contumaz. No entanto, era quase irresistivelmente carismático e um líder nato – destes, que facilmente convenceriam qualquer um a acompanhá-lo para a Antártida, mesmo sem gostar de cães e gelo. Além disso, Shackleton era um entusiasta do álcool.

Foto do explorador Sir Ernst Shackleton em expedição

Sir Ernst Shackleton: explorador da virada do século XX (Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research/Wikimedia Commons)

Essas características se refletiram em como a Discovery foi planejada. A equipe possuía pouquíssimos trenós e esquis de neve e nenhum treinamento em como usá-los. Ao invés de cães, normalmente utilizados como força motriz, Shackleton preferiu utilizar cavalos – lembrem-se, ele não gostava de cachorros.

Cavalos, estes, que, por conta do peso e do impacto ao marchar, afundaram na neve e acabaram se tornando refeição da equipe. Mas, apesar da falta de quase tudo, havia algo que abundava a bordo do Nimrod. Álcool. Vinte e cinco caixas de uísque, doze de brandy e seis de vinho do Porto.

Isso talvez explique o sucesso e, ao mesmo tempo, o fracasso gigantesco da expedição. Shackleton e seu grupo de três homens conseguiram realmente chegar aonde jamais outro ser humano teria chegado. Mas o preço foi alto. Foram quatro meses de privações e imprevistos, que resultaram, também, no abandono de boa parte dos equipamentos e mantimentos, diremos assim, supérfluos – dentre eles, a caixa de uísque, reencontrada quase um século mais tarde.

O uísque, recuperado em 2007, foi levado à Escócia, onde Richard Paterson, o famoso “the Nose”, master blender para a Whyte & Mackay, o provou. E, em cima desta prova, recriou um uísque que sensorialmente se assemelhava àquele de Shackleton.

É curioso pensar que, entre tudo o que se perdeu naquela empreitada, o uísque tenha permanecido. Não por escolha, mas por contingência, abandonado como algo supérfluo diante da urgência de sobreviver.

Quase um século depois, contudo, é justamente ele que retorna, mas na forma de testemunho. Ao ser resgatado, analisado e recriado, aquele Mackinlay’s congelado tornou-se uma espécie de cápsula do tempo líquida. Um eco engarrafado de uma época em que explorar o desconhecido exigia menos técnica do que teimosia, e mais coragem do que bom senso.

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